FANZINES DE JOSÉ PIRES (OUTUBRO 2017)

No início deste mês, José Pires lançou mais um volume da série Terry e os Piratas, que está a reeditar por ordem cronológica, numa homenagem ao mestre Milton Caniff sem paralelo no nosso país. Apesar da sua enorme popularidade e de ser considerada uma obra-prima da época de ouro dos comics norte-americanos, esta série nunca teve entre nós a projecção que merecia. O FandClassics veio finalmente, por obra de José Pires, preencher essa lacuna… e já vai no 10º episódio!

Em Outubro, outro fanzine de José Pires, o Fandwestern, publicou um novo episódio de Matt Marriott, uma das melhores séries da BD inglesa, graças à extraordinária mestria gráfica de Tony Weare, um artista apaixonado pelo tema, que desenhou a série durante mais de 20 anos, com a colaboração do argumentista James Edgar, chegando mesmo a viajar até aos Estados Unidos, para percorrer de carro, durante longos meses, as regiões onde se desenrolavam as aventuras do seu herói!

É de inteira justiça reconhecer que nenhuma outra série abordou com tanta autenti- cidade a história do Oeste americano, durante a época da colonização, em meados do século XIX, compondo uma vasta galeria de personagens que dão digna réplica aos dois protagonistas, Matt Marriott e Powder Horn, incansáveis vagabundos que percorrem o Oeste em busca de trabalho, evitando armar sarilhos, mas sempre prontos a defender a honra e a justiça de colt em punho quando confrontados com malfeitores da pior espécie. E não há dúvida que nesta série a justiça vence sempre!

Mas a “cereja em cima do bolo” é mais um número do Fandaventuras, o mais antigo fanzine de José Pires ainda em circulação, também dedicado, desta vez, ao Oeste americano — mas de uma época histórica mais remota e não menos sanguinária, tal como foi magistralmente descrita por James Fenimore Cooper, um pioneiro da literatura norte-americana, criador de um novo género, cuja celebridade galgou fronteiras com o romance O Último dos Moicanos, editado em 1826.

Adaptada várias vezes ao cinema e à banda desenhada, além de ter dado origem a algumas séries de televisão, esta obra não perdeu até hoje o irresistível fascínio que se desprende das suas carismáticas e trágicas personagens, entre as quais avultam o caçador de gamos Olho de Falcão e os seus companheiros índios Chingachgook e Uncas, últimos descendentes da nobre raça dos Moicanos.

Publicada nos anos 70 pela revista Look and Learn — com desenhos de Cecil Langley Doughty, um dos maiores artistas ingleses do seu tempo, colaborador de diversas revistas juvenis, e textos de David Ashford, que se encarregou da adaptação —, esta versão copiosamente ilustrada d’O Último dos Moicanos tem a particularidade de seguir a linha narrativa do romance, em moldes arcaicos, com legendas, preferindo estas à linguagem mais arejada dos balões. Mas não deixa, por isso, de ser uma bela história!

Estes fanzines (de tiragem bastante limitada) podem ser encomendados a José Pires através do e-mail gussy.pires@sapo.pt

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OS “COWBOYS” DA SÉRIE B – 3

Continuando a apresentar esta série dedicada aos cowboys que, graças ao fascínio e à magia do cinema, se tornaram ídolos das multidões, ícones imunes à passagem do tempo que encarnavam o verdadeiro homem do Oeste — um espaço legendário de onde muitos deles eram oriundos, tendo triunfado na tela devido às suas habilidades equestres, à experiência como cavaleiros adquirida nas tarefas que exerciam em ranchos e espectáculos de circo (como Tom Mix e Ken Maynard, por exemplo) —, eis mais dois textos reproduzidos da revista brasileira Aí, Mocinho!, cuja última série durou apenas oito números.

No seu terceiro número (Janeiro de 1987), surgiram as biografias de Rod Cameron e Tex Ritter, dois “astros” da série B que nos anos dourados do western fizeram também vibrar as plateias, embora a sua popularidade não fosse comparável à dos campeões de bilheteira como Buck Jones, Roy Rogers, Hopalong Casssidy e Gene Autry.

No entanto, os seus filmes ainda hoje permanecem na memória de muitos cinéfilos que eram crianças ou adolescentes nesse tempo… quando ir ao cinema para ver um filme de cowboys — geralmente nas noites de sábado ou nas matinés de domingo, em que havia folga das aulas e dos trabalhos de casa — era um acontecimento ansiosamente aguardado durante toda a semana. E que se prolongava, depois, na leitura dos comic books que empolgavam também a juventude, passando de mão em mão porque era preciso poupar os cêntimos para o filme que se exibia na sessão seguinte.

Em Portugal acontecia o mesmo e decerto ainda há quem se recorde dos trepidantes episódios com famosos heróis do western publicados no Mundo de Aventuras e congéneres, entre os quais, de vez em quando, Rod Cameron e Tex Ritter faziam também boa figura.

Tex Ritter — cowboy cantor como Roy Rogers e Gene Autry — teve também direito a uma revista com as suas aventuras, editada pela Fawcett. Claro que nos desenhos dessa revista o seu aspecto era muito mais jovem do que no cinema. Ei-lo de corpo inteiro nesta foto, junto do seu belo cavalo White Flash, tão popular como Trigger, a montada de Roy Rogers.

DALE EVANS, A RAINHA DO OESTE

Nota: o presente artigo do nosso prezado colaborador Carlos Gonçalves foi, tal como os anteriores, publicado originalmente no fanzine brasileiro Q.I. (Quadrinhos Independentes), editado e coordenado por Edgard Guimarães, a quem devemos também a sua divulgação no Era uma vez o Oeste. A ambos, os nossos agradecimentos.

2ª EDIÇÃO DA (ESGOTADÍSSIMA) REVISTA # 1 DO CLUBE TEX PORTUGAL TERÁ LANÇAMENTO EM OUTUBRO

 FAÇA JÁ A SUA RESERVA!

Por José Carlos Pereira Francisco

Capa (realizada por Andrea Venturi) da 2ª edição da revista nº 1 do Clube Tex Portugal

Devido a dezenas de pedidos de sócios do Clube Tex Portugal, em particular dos inúmeros novos associados dos últimos dois anos, que quando se associaram ao Clube Português dedicado ao Ranger criado por G. L. Bonelli e Aurelio Galleppini em 1948, já não tinham à sua disposição a mítica revista nº 1 do Clube, lançada em Novembro de 2014 e que se esgotou completamente ao fim de pouco tempo, a Direcção do Clube Tex Portugal decidiu fazer uma 2ª edição da revista #1 de modo a satisfazer todos os pedidos, permitindo assim que todo e qualquer sócio possa ter na sua colecção a edição que deu início a um projecto único e hoje em dia muito valorizado, tanto que fomos sabedores que já houve exemplares da revista #1 que foram vendidos (por sócios que na época de lançamento compraram mais do que um exemplar) por valores a rondar os 25 euros.

A 2ª edição da revista nº 1, tem lançamento marcado para Outubro deste ano, ou seja, já no próximo mês, e somente poderá ser adquirida por sócios do Clube, podendo cada sócio adquirir quantos exemplares desejar, ao preço de 10 euros por cópia. Atendendo ao facto desta ser uma Edição Especial e também ao facto de ter uma tiragem menor do que aquando das revistas da 1ª edição, fazendo com que o valor a pagar à gráfica seja mais elevado, o Clube Tex Portugal NÃO ARCA COM AS DESPESAS DE ENVIO desta 2ª edição, estando todavia disponível para entregar a(s) revista(s) em mãos quando houver essa possibilidade, de modo a evitar o pagamento dos portes. Assim sendo, para além do valor da(s) revista(s) cada sócio terá de arcar com as despesas postais, acrescentando ao valor da revista os valores que se seguem e que são para Portugal, Europa (Espanha, Itália, Holanda, etc.) e Resto do Mundo (Brasil, Angola, Moçambique, Índia, etc.):

Portugal: 1 ou 2 revistas 1,75€
Europa: 1 revista  2,80€2 revistas 4,30€
Resto do Mundo: 1 revista 4,80€2 revistas
  7,50€

O editorial da revista nº 1 do Clube Tex Portugal

De modo a salvaguardar o valor das revistas originais, esta reimpressão da revista #1 terá a menção na capa de que se trata de uma 2ª edição, assim como trará igualmente na capa o mês de Outubro de 2017 e não Novembro de 2014, conforme se pode já constatar na capa (ainda provisória) que mostramos na abertura deste texto. Serão as duas únicas alterações, mantendo-se religiosamente igual toda a restante revista de 32 páginas.

Ilustração de Stefano Biglia para a revista nº 1 do Clube Tex Portugal

Esta 2ª edição da revista do Clube Tex Portugal mostra a solidificação do nosso projecto, que crescendo e fortalecendo-se a cada novo número faz com que os novos sócios desejem adquirir os primeiros números; e prova do cada vez maior sucesso da revista portuguesa que conta em cada número com participações dos mais renomados autores de Tex, é que para além da revista #1, também as edições #2, #3 e #4 estão completamente esgotadas, pelo que em Abril de 2018, aquando da 5ª Mostra do Clube Tex Portugal, a realizar nos dias 29 e 30 de Abril, iremos ter o lançamento da 2ª edição da revista #2.

Para além dos sócios que ainda não tenham a revista #1, temos a mais firme convicção de que muitos sócios que a possuam, irão também tentar adquirir a 2ª edição, por se tratar no fundo de uma revista diferente e porque os coleccionadores são assim mesmo, como provam os mais diversos texianos que coleccionam a revista Tex do Brasil, não somente da 1ª edição, mas também da 2ª edição!

Deste modo, todos os sócios que desejem adquirir exemplares da revista #1, 2ª edição, devem informar desde já (e impreterivelmente até ao dia 30 deste mês) o Clube Tex Portugal, escrevendo para José Carlos Francisco (josebenfica@hotmail.com), indicando o número de exemplares pretendido e procedendo ao respectivo pagamento (inclusive dos portes) na conta do Clube Tex Portugal ou através de paypal, enviando o comprovativo desse mesmo pagamento.

Pagamentos internacionais por transferência bancária  devem ser feitos com todas as despesas a serem suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube, devendo ser creditada a conta PT50003600009910590434664 em nome do Clube Tex Portugal na Caixa Económica Montepio Geral – código swift: MPIOPTPL;

Pagamentos nacionais por transferência bancária  devem ser feitos para o IBAN PT50003600009910590434664

Pagamentos por Paypal devem ser efectuados para o e-mail cacem.moreira@gmail.com com todas as despesas a serem suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube.

Falando da revista #1 em si, para quem ainda não a possui, informamos que é TOTALMENTE a CORES, tem o FORMATO A4 e conta com textos de Mário João Marques (que escreve sobre Pasquale Del Vecchio e também Leituras e Apontamentos), Júlio Schneider (Hola, Amigo), Carlos Moreira (1º Convívio do Clube Tex Portugal), José Carlos Francisco (1.ª Mostra do Clube Tex Portugal), Jorge Magalhães (Como eu encontrei Tex Willer em Barcelona), Jorge Machado-Dias (Porque não gosto de westerns), Sérgio Madeira de Sousa (Giovanni Ticci – O elo), Pedro Cleto (A cor em Tex: Um longo caminho a percorrer) e Paulo Guanaes (Da indiferença ao sucesso estrondoso) e DESENHOS EXCLUSIVOS de ANDREA VENTURI, STEFANO BIGLIA e MAURIZIO DOTTI!

Estudo de Stefano Biglia para o verso da contracapa da revista nº 1 do Clube Tex Portugal

Para uma melhor apresentação desta importante iniciativa dirigida por Mário João Marques, o director da revista, e destinada aos sócios do Clube, damos a conhecer de seguida o editorial deste primeiro número:

EDITORIAL

Em Agosto de 2013, durante uma tertúlia texiana organizada quando do 18º Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, um grupo de amigos teve a oportunidade de formalizar a criação de um clube que pudesse fomentar o convívio e a troca de ideias sobre Tex. Idealizado uns meses antes, a ocasião proporcionada e a presença inspiradora de Andrea Venturi, desenhador convidado para o Salão, serviram assim de catalisadores, permitindo firmar a criação do Clube Tex Portugal.

A revista que agora está nas vossas mãos é um objectivo a que nos propusemos desde a primeira hora, um instrumento privilegiado que permite divulgar, aprofundar e sobretudo homenagear um grande herói e uma grande série que, ano após ano, se vem batendo pelos ideais da justiça e da honra, unindo muitos em redor de valores infelizmente cada vez mais raros.

Devidamente autorizada pela Sergio Bonelli Editore, que desde o início nos concedeu a honra do seu apoio e do seu carinho, a revista é o trabalho de muitos e que nos enche de orgulho, representando o culmi- nar de um primeiro ano do Clube pleno de actividades e de sucesso. Todos são convidados a participar, apresentando trabalhos sobre Tex, o seu mundo, as suas personagens, os seus autores. Queremos fomentar o convívio, desejamos divulgar a personagem, ansiamos que apreciem e possam retirar o mesmo prazer que todos os que colaboraram neste primeiro número tiveram na sua preparação e elaboração.

Este primeiro número conta com artigos de José Carlos Francisco, Sérgio Madeira de Sousa, Pedro Cleto, Jorge Magalhães e Mário João Marques, assim como com um pequeno texto escrito por Júlio Schneider, em jeito de homenagem à amizade em torno de Tex. Mas outros, de uma forma ou de outra, deram o seu grande contributo, permitindo que o projecto pudesse ver a luz do dia. Carlos Moreira, Hernâni Portovedo, Orlando Silva, António Guerreiro, Jorge Machado Dias, Dorival Lopes (e a Mythos), Gianni Petino e todas as mulheres texianas, foram baluartes fundamentais. A todos o Clube Tex Portugal agradece!

Apesar desta paixão, nada teria sido possível sem o apoio dado pela Sergio Bonelli Editore, que não cansamos de sublinhar, particularmente Davide Bonelli e Mauro Boselli, a quem o Clube Tex Portugal agradece eternamente. E é também um enorme motivo de orgulho poder contar, na capa deste primeiro número, com um desenho exclusivo de um grande talento, Andrea Venturi. Um grande desenho de um grande desenhador, desde o início ao nosso lado. Grazie mille Andrea!

Leiam, releiam, comentem, sugiram, pois a participação de todos é fundamental para juntos podermos fazer cada vez mais e melhor. Sem qualquer presunção, humildemente queremos alimentar o sonho e a paixão.

Clube Tex Portugal

 Ilustração a preto e branco de Andrea Venturi para a capa da edição nº 1 da revista do Clube Tex Portugal

(Texto e imagens extraídos, com a devida vénia, do Tex Willer Blog. Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas)

REVISTAS DE BD DA MYTHOS EDITORA NÃO REGRESSAM A PORTUGAL EM 2017

 Por Nuno Pereira de Sousa [1]

A distribuição das revistas de Banda Desenhada da Mythos continua suspensa, pelo menos, até ao final do ano

Em Abril deste ano, a Mythos tinha comunicado que se encontrava oficialmente suspensa a exportação para Portugal das revistas brasileiras de banda desenhada Bonelli da editora, nomeadamente as diversas séries de TexJúlia Kendall – Aventuras de uma CriminólogaZagor.

Em causa, estavam problemas de exportação da editora brasileira, sendo referido que a mesma estava a realizar os devidos esforços para que a suspensão fosse temporária e que em Outubro deste ano pudessem chegar novamente às bancas nacionais os fumetti bonellianos.

A três semanas do início de Outubro, solicitámos a José Carlos Francisco, o representante da Mythos em Portugal, que nos fizesse um ponto da situação. As notícias não são boas. Não só as negociações com uma nova empresa de importação não se concretizaram, como a VASP, a anterior distribuidora das revistas da Mythos, tinha comunicado não estar interessada em trabalhar directamente com a editora. Já se pode afirmar, com toda a certeza, que não será ainda este ano que teremos o regresso de Tex, Zagor e Júlia aos quiosques portugueses, pese todo o esforço feito pela editora brasileira, assume José Carlos Francisco. A Mythos continua a envidar todos os esforços para ter novamente no nosso país as suas revistas, sobretudo para tentar satisfazer os seus leitores.

Com a notícia do início do processo de insolvência da Distrinews II, essa alternativa deixou de ser viável. A Distrinews II era, sem dúvida, uma grande possibi- lidade para esse regresso, mas agora também essa porta fechou, afectando a Mythos, mas acima de tudo muitas pequenas editoras portuguesas”, refere José Carlos. Mas a Mythos não desiste e está a tentar arranjar uma nova possibilidade, juntamente com as editoras que agora não têm quem distribua as suas revistas”.

Relativamente aos efeitos colaterais da insolvência da Distrinews II, cujas editoras por si servidas deixaram de ter distribuição assegurada, comenta que “devido à urgência das editoras portuguesas que ficaram sem distribuição, este assunto, de uma forma ou de outra, deverá ter que se resolver rapidamente. No entanto, é menos optimista no que toca às publicações da Mythos, ausentes há cinco meses dos pontos de venda de periódicos nacionais. Apesar da Mythos estar a envidar todos os esforços para tentar resolver o problema aqui em Portugal, não está fácil!, desabafa.

Durante estes cinco meses, os fãs bonellianos portugueses foram brindados com três edições nacionais, nomeadamente o livro Tex: Ouro Negro (editado pela Polvo), o sexto número da Revista do Clube Tex Portugal (auto-edição) e o livro Dylan Dog: Mater Morbi (editado pela Levoir na III Série das Novelas Gráficas).

Em nota de rodapé, relembra-se que recentemente a Polvo começou a ter distribuição das suas obras nos pontos de vendas de periódicos, a par da distribuição no canal livreiro, situação que é também afectada actual- mente pela suspensão de actividade da Distrinews II.

[1] (Texto publicado originalmente no blogue Bandas Desenhadas, em 9 de Setembro de 2017)

(Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas).

COMENTÁRIO À REVISTA DO CLUBE TEX PORTUGAL

Ilustração de Massimo Rotundo

Texto: Jorge Magalhães – Foto: Catherine Labey

Há poucas semanas recebi a visita do Mário João Marques, um dos mais dinâmicos elementos do Clube Tex Portugal e director da revista destinada em exclusivo aos seus sócios, que se publica semestralmente desde finais de 2014. O Mário Marques, num gesto de extrema gentileza, veio de propósito a Cascais para me entregar a revista, acedendo ao meu pedido de não a enviar pelo correio, pois chegaria certamente em mau estado às minhas mãos, como já aconteceu da última vez.

Tive, então, a oportunidade, sempre grata para um fã do Clube Tex Portugal, de trocar algumas impressões com o Mário sobre Tex e outros assuntos relacionados com o Clube e os nossos gostos comuns, e de expressar a minha primeira opinião sobre a revista, depois de a folhear com o natural entusiasmo de leitor e colaborador desde a primeira hora (se bem que neste número tenha feito “gazeta”).

Claro que o que mais me agradou à primeira vista foi a magnífica capa de Massimo Rotundo escolhida para a edição corrente, sem dúvida uma das melhores, senão a melhor, desta primeira série de seis números. A edição extra tem também uma capa de superior qualidade do mesmo artista italiano, mas a primeira é verdadeiramente apelativa, um trabalho que decerto ficou (e ficará) na retina de muitos leitores.

Ilustração de Massimo Rotundo (capa extra)

Prometi ao Mário Marques durante a nossa conversa, infelizmente breve — pois ele tinha outras revistas para entregar —, que lhe daria dentro de pouco tempo uma opinião mais formal sobre este número, com um total de 56 páginas e que inclui no seu sumário (como cereja em cima do bolo) uma história a cores desenhada pelo mestre Giovanni Ticci!

Há dias o Mário escreveu-me para me lembrar a promessa, perguntando-me se já acabara de ler a revista. Respondi-lhe que tinha começado logo pela história de Tex, com 12 páginas escritas pelo Claudio Nizzi (que infelizmente já se retirou da série), e que podia sintetizar a minha opinião numa frase: “Este número é um autêntico luxo gráfico!”. Pelo papel, pela impressão, pelo número de páginas e sobretudo pela qualidade das ilustrações, com destaque naturalmente para a história curta com o dinâmico traço de Ticci, intitulada “Morte no Deserto”, e para a deslumbrante capa do Massimo Rotundo, que como pintura de temática “western” (e texiana) é do melhor que tenho visto.

Página de Giovanni Ticci

Quanto aos textos, deixei para o fim o do Moreno Burattini, pois a personagem de que ele trata, o diabólico Mefisto, não figura entre as minhas favoritas. Nunca gostei de histórias que misturam o “western” com o fantástico, como era tanto do agrado de Gianluigi Bonelli e que muitos leitores, bem sei, também adoram. Mas eu não… Para mim, “western” é “western” e terror é terror, dois géneros que não parecem feitos um para o outro. Claro que isso não me impediu de apreciar o artigo do Burattini, porque ele é um dos maiores especialistas em temas texianos e as suas abordagens são sempre esclarecedoras.

Li também com muito agrado (para dizer a verdade, ainda com mais prazer!) o artigo do Mário Marques dedicado ao ilustre mestre Giovanni Ticci, pois o Mário é outro “barra” nestas matérias e tem uma capacidade de análise que se refina de artigo para artigo. Dos restantes textos deste número destaco também o de Sandro Palmas sobre Massimo Rotundo, que é realmente um grande senhor da Banda Desenhada e se adaptou muito bem ao universo texiano no seu primeiro “western” para a Bonelli, “Tempestade sobre Galveston” (já publicado em Portugal pela Polvo Editora), superando garbosamente as dificuldades da tarefa e a comparação com o trabalho de outros mestres.

Ilustração de Massimo Rotundo

Ainda quanto aos textos — por autores habituais na revista, além dos já citados, como Jesus Nabor Ferreira, João Miguel Lameiras, Jorge Machado-Dias, José Carlos Francisco, e o estreante Tino Adamo —, todos versam temas interessantes e estão bem ilustrados. É pena que, para quebrar a harmonia e a homogeneidade do conjunto, apareçam no artigo do director Mário Marques imagens muito pequenas, reduzidas a uma coluna, ainda por cima tratando-se de páginas de BD. A duas colunas ainda vá que não vá, pois podem distinguir-se os pormenores do desenho e até as legendas, mas a uma coluna fica tudo demasiado pequeno, muito esbatido e pouco visível.

Também na pág. 34, última do mesmo artigo, há imagens muito sumidas, se bem que um pouco maiores, parecendo mal digitalizadas. É a única crítica (entre aspas) que tenho a fazer a este número, pois o resto — incluindo, com todo o mérito, a bela ilustração de Lança Guerreiro, cada vez mais sintonizado com as personagens e os padrões estéticos do mundo texiano — merece nota altamente positiva.

Ilustração de Lança Guerreiro

Mais um excelente número (um luxo gráfico, como já afirmei!), com duas magníficas capas de Rotundo, uma soberba contracapa de outro mestre, Fabio Civitelli, e versos das capas também de dois ilustradores transalpinos: Alessandro Poli e Stefano Biglia. Um número, em suma, que tem todos os ingredientes para cativar os leitores e deixar orgulhosos os seus coordenadores e colaboradores (não só portugueses e italianos como brasileiros). Perante isto, não posso regatear elogios a quem, na revista e no Clube Tex, consegue fazer ainda mais e melhor a cada nova etapa, mostrando que são verdadeiros “ases”, motivados por essa enorme força que é a paixão por Tex e pela Banda Desenhada!

Ilustração de Fabio Civitelli

Muitíssimos parabéns, em especial ao Mário Marques e ao José Carlos Francisco, principais animadores deste magnífico projecto — consagrado oficialmente pela designação do seu berço, a cidade de Anadia, como capital portuguesa do Tex! —, e que continuem a somar êxitos ano após ano, para prestígio do Clube e satisfação de todos os seus sócios e leitores da revista, que já são muitos, espalhados por vários países!

POR QUE É QUE O “MUNDO DE AVENTURAS” NUNCA PUBLICOU UMA HISTÓRIA DO TEX?

A propósito de um comentário inserido no recente post sobre o aniversário do Mundo de Aventuras pelo nosso querido amigo José Carlos Francisco, dinâmico presidente do Clube Tex Portugal e responsável também pela revista do Clube e pelo Tex Willer Blog — que tem sido o principal veículo de propaganda desse mítico herói do western europeu e das suas edições em língua portuguesa, via Brasil e ultimamente com o selo da Polvo Editora —, pareceu-nos que o assunto trazido à baila pelo José Carlos merecia uma resposta com certo destaque, porque questiona as opções editoriais do Mundo de Aventuras, até numa época em que eu já ocupava o lugar de coordenador (desde Maio de 1974). Escreveu o Zeca (pois é assim que familiarmente os amigos o tratam):

“Só foi pena o Mundo de Aventuras nunca ter publicado uma aventura do Tex… Certamente poderia tê-lo feito até antes de 1971, quando o Tex começou a vir para Portugal através da editora Vecchi”.

De facto, essa ideia já deve ter ocorrido a muita gente, embora na altura nenhuma das cartas que chegavam à redacção ventilasse o assunto. Na fase anterior a 1971, o Mundo de Aventuras era uma revista de pequeno formato e com 32 páginas apenas, onde histórias de tão longa duração como as de Tex dificilmente poderiam ter acolhimento. Depois disso, no tempo em que a coordenei, a revista adoptou outros formatos, como o de comic book, mas o número de páginas ainda era limitado: 48. Além disso, tinha por hábito publicar histórias completas em cada número (salvo raras excepções).

Nessa altura, eu preferia o Tomahawk Tom, o Cisco Kid, o Jerry Spring, o Jack Diamond, o Matt Marriott, o Wes Slade e outras séries de cowboys que comprava para o Mundo de Aventuras e que achava superiores ao Tex (convenhamos que com alguma razão, pois a grande época dos Blascos, do Civitelli, do Ortiz, do Villa, do Nizzi, ainda não tinha chegado).

Outras revistas da APR também com 48 páginas, como a Sioux, chegaram a publicar histórias seriadas (entre elas, a magnífica criação de Gino d’Antonio “História do Oeste”). Aí, sim, poderia ter havido espaço para algumas aventuras do Ranger mais famoso do Oeste.

Mas não creio que os direitos de Tex estivessem disponíveis para Portugal, como outras séries de origem estrangeira (Marvel, DC, etc) cujos direitos em língua portuguesa eram exclusivos da Abril e de outros editores brasileiros. Por cá, a Bertrand e, mais tarde, a Meribérica faziam o mesmo com as séries franco- -belgas. Nessa época, havia o costume de separar comercialmente as águas entre os dois países.

Por último, devo sublinhar que as séries italianas (nomeadamente as da Bonelli, então chamada Cepim) ainda eram pouco populares em Portugal. Tex vendia-se nas bancas, mas passava quase despercebido no meio de tantas revistas portuguesas, muitas delas também com aventuras de cowboys. E já tinham começado a aparecer os álbuns a cores de Blueberry, Comanche, Buddy Longway, ao pé dos quais Tex e outros heróis do western, publicados quase sempre em modestas revistas a preto e branco, faziam figura de “parentes pobres”.

Tudo isto são razões que explicam por que é que Tex só tão tardiamente chegou às edições portuguesas. E não esqueçamos que o Clube Tex Portugal e as mostras que começou, há quatro anos, a realizar no Museu do Vinho Bairrada, em Anadia, muito contribuíram para que a Polvo Editora se interessasse, com bons resultados, pelo fenómeno Tex… que já alastrou às livrarias!

Se o Clube tivesse nascido nos anos 70 ou 80 do século XX, com a mesma energia vital que tem demonstrado, o trajecto de Tex em terras lusitanas talvez pudesse ter sido diferente. Mas essa vaga imparável de entusiasmo e de sucesso fomentada pelo Clube Tex Portugal e pelo Tex Willer Blog é um fenómeno recente e com causas bem definidas. Há 40, 50 anos, não havia internet nem a banda desenhada tinha os apoios oficiais que tem hoje, ao nível das autarquias, por exemplo. Pelo contrário, era uma arte reservada exclusivamente aos mais jovens e, regra geral, menosprezada e marginalizada pelo snobismo intelectual das elites culturais. A própria crítica de BD (que não extravasava os limites dos fanzines) começava ainda a dar os primeiros passos. Ou seja, não estavam criadas as condições para que uma edição portuguesa de Tex, a ser possível, tivesse vida longa. Nem acredito que os editores brasileiros estivessem dispostos a abdicar, sem luta, do mercado português, que antes do 25 de Abril incluía também as nossas ex-colónias.

Tudo isto são incógnitas a que só o tempo poderia dar resposta. Como também é uma incógnita quando é que as revistas da Mythos voltarão a aparecer em Portugal, após tantos meses de interrupção. Este ano, férias sem Tex não foram verdadeiras férias!

Tex defronte da Câmara Municipal de Anadia (ilustração de Pasquale del Vecchio)