NO 70º ANIVERSÁRIO DE LUCKY LUKE

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Num ano de septuagenários da BD, cujo aniversário (como o da revista Tintin) tem sido apoteoticamente celebrado por vários media, Lucky Luke o famoso cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra e é dono de um cavalo “filósofo” chamado Jolly Jumper e de Rantanplan, o cão mais estúpido do Oeste —, também teve direito a comemorações especiais, particularmente numa exposição organizada pelo 27º Festival Internacional da Amadora, ainda em curso (até ao próximo fim-de-semana), e num número hors-série da revista francesa Lire, já à venda nas bancas portuguesas pelo preço de 8,20 euros.

lucky-luke-lireRecheada de informações curiosas sobre a série, de imagens inéditas, de entrevistas (uma delas com o duo Jul/Achdé, autores do novo álbum que sairá em 4 de Novembro p. f.), de análises de críticos e especialistas, de memórias de viagem (quando Morris, aliás, Maurice de Bévère, o genial autor humorístico que foi rival de Hergé, com a “escola de Marcinelle”, se deslocou aos Estados Unidos, pátria do western, em companhia dos seus colegas Jijé e Franquin), e por último de várias histórias curtas nunca reeditadas em álbum, com alguns dos principais personagens do fabuloso universo de Lucky Luke, e pranchas da história que Morris (desaparecido em 2001) deixou incompleta — esta preciosa e luxuosa edição especial, com 122 páginas, deve merecer o interesse tanto dos amadores da série como da BD western, em geral, de que o carismático cowboy criado por Morris na revista Spirou (edição francesa), em Outubro de 1946, é o reflexo mais irresistivelmente e universalmente paródico.

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TEX WILLER: UM FENÓMENO DE LONGEVIDADE

Um herói da BD western nascido em 30/9/1948, que se mantém há várias décadas em publicação, não só em Itália e no Brasil (a sua segunda “pátria”) como noutros países, e que é um autêntico fenómeno de popularidade e de longevidade, alimentado pela paixão indefectível de muitos milhares de leitores e coleccionadores (que passa até de pais para filhos) e por um planeamento da SBE (Sergio Bonelli Editore) que tem sabido adaptar-se à evolução do público e das modas, procurando manter o prestígio de TEX junto dos seus leitores fiéis e captar outros admiradores com a introdução de novos temas, novos artistas (de estilo mais moderno) e novas séries.

Numa época em que o western, tanto na BD como na literatura e no cinema, já não é o que era, parecendo ter caído no repúdio das “massas” e particularmente das novas gerações (aliás, pouco familiarizadas com este nome), o fenómeno TEX, pela sua singularidade, assume contornos ainda mais extraordinários!

Desejamos a Tex Willer, que nos acompanha assiduamente há mais de um quarto de século, a continuação de uma longa e próspera carreira semeada de aventuras, para gáudio dos seus milhares de fãs espalhados pelo mundo… tanto actuais como futuros. Parabéns, Águia da Noite! Parabéns, SBE!    

EM HONRA DE VÍTOR PÉON – O MAIOR CRIADOR DE “WESTERNS” DA BD PORTUGUESA

Mosquito 396Se tivéssemos de designar uma data “oficial” para o nascimento do western na BD portuguesa, não hesitaríamos em escolher a de 10 de Abril de 1943, pois foi nesse dia (um sábado) que se estreou uma empolgante aventura de cowboys n’O Mosquito nº 396, a primeira em estilo realista de um desenhador português, que assinava apenas Péon no cabeçalho da história. Identi- dade que, pela ausência de contactos, nessa época, com os leitores, passou quase desper- cebida, embora o dinamismo dos desenhos e a emoção contida em cada cena, num suspense sempre crescente, à maneira das melhores histórias inglesas, tivesse contagiado a rapaziada que lia com verdadeira paixão O Mosquito, pequeno mas atraente jornal juvenil que se publicava duas vezes por semana.

“Falsa Acusação” era o título dessa movimentada aventura do Far West e Vítor Péon Mourão o nome do jovem artista que a desenhava, autor também do argumento, embora o texto, que aparecia em legendas didascálicas, no rodapé das vinhetas, fosse escrito por Raul Correia, um dos directores e fundadores d’O Mosquito e narrador de larga veia, afeito a todos os géneros de aventuras que faziam as delícias dos seus jovens leitores.

Falsa Acusação a 10Antes de Péon se lançar na trilha do western, com a história que assinalou também a sua estreia como autor de BD, este género, em estilo “sério”, era apanágio apenas de alguns desenha- dores estrangeiros e de um excelente artista português, também ainda muito jovem, que dava pelo nome de Eduardo Teixeira Coelho (ou E.T. Coelho), mas se limitava a ilustrar as novelas de aventuras publicadas n’O Mosquito, como foi o caso de “Leis do Oeste”, um conto de Lúcio Cardador que serviu de tema à capa do nº 396.

Genuínas histórias de cowboys aos quadradinhos não eram presença rara nas páginas das revistas portuguesas, com primazia para O Mosquito, desta- cando-se entre todas elas uma notável criação de Reg Perrott, o mais talentoso desenhador inglês dessa época, intitu- lada “A Flecha de Oiro” (no original, The Golden Arrow). Perrot foi sem dúvida o artista que mais influenciou Vítor Péon no início da sua carreira e “Falsa Acusação” é a melhor prova disso, com um estilo que procurava imitar não só o dinamismo de linhas de Perrott como o realismo cinematográfico com que ele retratava os cenários e as personagens.

A tal ponto Péon admirava o trabalho do mestre inglês que, anos mais tarde, realizou para a revista Valente, editada por Roussado Pinto, uma versão de “A Flecha de Oiro” em tudo fiel ao original, ainda que num estilo já sensível a outras influências. Infelizmente essa versão ficaria incompleta, porque o Valente não resistiu por muito tempo à concorrência.

A par do seu inato dinamismo, Péon revelou-se um exímio desenhador de cavalos e de figuras femininas, elementos fundamentais de um western, sem os quais qualquer história de cowboys parece perder todo o interesse. Ao longo da sua carreira, o futuro criador de Tomahawk Tom — o mais icónico aventureiro do Oeste que já existiu na BD portuguesa, digno rival de outros grandes cowboys do seu tempo, como Cisco Kid, Roy Rogers e Hopalong Cassidy — nunca olvidou por muito tempo o género que cultivava com tanto entusiasmo.

Tomawak Tom logotipoE foi mesmo ao western que dedicou uma última homenagem quando, atingido por grave doença e impossibilitado de continuar a desenhar histórias aos quadradinhos, mostrou ainda uma centelha do seu talento pintando telas admiráveis, de cores quentes e pince- ladas impressionistas, cujos temas eram as vastas pradarias, os destemidos cavaleiros e os fogosos mustangs que tinham inflamado a sua imaginação, ao enveredar muito jovem por uma carreira em que somou os maiores êxitos e granjeou uma vasta legião de admiradores, tanto em Portugal como noutros países.

Recordando uma data histórica da BD portuguesa — que certamente muitos fãs do western celebrarão também com apreço, pois simboliza a transição de um estilo infantil e paródico, ainda vigente nas histórias de muitos autores nacionais, em plenos anos 30, para um género inteiramente realista que recria a verdadeira essência das histórias de cowboys —, dedicamos este novo blogue da nossa Loja de Papel à memória de Vítor Péon e à heróica epopeia do Oeste americano que ele, com o seu talento artístico e o vigor do seu estilo e da sua imaginação, ajudou também a enraizar no culto de várias gerações de leitores, elevando-a a um patamar raramente ultrapassado por outros artífices da BD popular.