ENRIQUE BRECCIA – CONVIDADO DE HONRA DA REVISTA DO CLUBE TEX PORTUGAL

A revista nº 4 do Clube Tex Portugal terá também DUAS VERSÕES para a CAPA, ambas de ENRIQUE BRECCIA

Texto: José Carlos Francisco (reproduzido, com a devida vénia do Tex Willer Blog)

As duas capas de ENRIQUE BRECCIA para a revista nº 4 do Clube Tex Portugal

Junho marcará o regresso da revista do Clube Tex Portugal, um projecto feito por sócios e dirigido a todos os texianos e apreciadores da banda desenhada, focando os mais variados temas em redor de Tex Willer e do western em geral.

Este quarto número terá 52 páginas (pela primeira vez é ultrapassada a meia centena de páginas, um novo recorde que mostra bem o crescimento da revista) e apresenta novamente DUAS versões para a sua capa, desta vez do magnífico Enrique Breccia, desenhador, pintor, ilustrador, um dos maiores autores latino-americanos de sempre e que será o desenhador do próximo “Tex Gigante”, a ser publicado em Itália, precisamente em Junho, com o título de Capitan Jack. Breccia começou a trabalhar em 1968, como colaborador de seu pai, Alberto Breccia, na biografia de Che Guevara, escrita por Héctor Germán Oesterheld, percorrendo desde aí uma carreira intensa e brilhante e que motivou o artigo do já nosso habitual colaborador Italo Marucci.

Enrique Breccia respondeu prontamente às nossas solicitações, com informações, sugestões e com o envio de DOIS desenhos. A escolha foi difícil perante tamanha qualidade e, por isso, optou-se novamente, tal como aconteceu com as revistas nº 2 (que teve duas capas de Fabio Civitelli) e nº 3 (que teve duas capas de Luca Vannini), por fazer a revista com duas capas diferentes, uma clássica com Tex e Dinamite cavalgando em nossa direcção e uma alternativa, com grande impacto visual, onde Tex e Dinamite, de lado, contemplam o horizonte, a primeira colorida pelo próprio Breccia e a segunda colorida pelos profissionais da Mythos Editora.

Capa da revista nº 4 do Clube Tex Portugal

Outro grande destaque deste quarto número prende-se com a publicação (a cores) da históriaA Presa escrita por Mauro Boselli e desenhada (magistralmente) por Fabio Civitelli, porque a revista do Clube Tex Portugal tem a honra de publicar pela primeira vez uma história oficial de Tex, para mais inédita em alguns países, nomeadamente no Brasil, e que em Portugal também nunca foi publicada a cores. Destaque ainda para as colaborações EXCLUSIVAS dos consagrados autores Dante Spada, Bruno Brindisi, Alessandro Nespolino e Moreno Burattini.

Capa variante da revista nº 4 do Clube Tex Portugal

Neste quarto número regressam, para além de Italo Marucci, os textos do director Mário João Marques (com um extenso dossier sobre o Tigre Negro), de José Carlos Francisco (que nos fala das estatuetas do mundo de Tex), de Rui Cunha (que escreve sobre a participação de Tex na Guerra da Secessão), de Carlos Gonçalves (com um texto sobre os cowboys de antigamente), de Jesus Nabor (escrevendo sobre histórias de fantasmas), de Paulo Guanaes (que aborda os índios na saga de Tex), de Júlio Schneider (que escreve sobre o Wampum de Águia da Noite), de Moreno Burattini (que aborda as obras texianas da sua autoria); e teremos ainda uma reportagem sobre a 3ª Mostra do Clube Tex Portugal, escrita por Mário João Marques e José Carlos Francisco.

Desenho exclusivo de BRUNO BRINDISI para a revista nº 4 do Clube Tex Portugal e devidamente dedicado aos amigos do clube português

Nota do Clube Tex Portugal a todos os sócios:

Como habitualmente, os sócios do Clube Tex Portugal (com excepção dos sócios menores) COM AS QUOTAS DO MÊS DE JUNHO PAGAS, terão direito a receber gratuitamente um exemplar da revista. Dado que este 4º número será publicado com duas versões da capa, o exemplar gratuito será o da versão com desenho de Tex e Dinamite a cavalgar.

Adicionalmente, sem qualquer limite, os sócios podem adquirir mais exemplares da revista, quer da versão oficial quer da versão alternativa, sendo o preço unitário de 10 euros.

Deste modo, todos os sócios que desejem adquirir exemplares da revista, devem informar desde já o Clube Tex Portugal, na forma de comentário a este post ou escrevendo para José Carlos Francisco (josebenfica@hotmail.com), indicando o número de exemplares pretendido para cada versão da capa e procedendo ao respectivo pagamento na conta do Clube Tex Portugal ou através de Paypal, enviando o comprovativo desse mesmo pagamento.

  • Pagamentos internacionais por trans- ferência bancária  devem ser feitos com todas as despesas a serem  suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube, devendo ser creditada a conta PT50003600009910590434664 em nome do Clube Tex Portugal na Caixa Económica Montepio Geral – código swift: MPIOPTPL;
  • Pagamentos nacionais por transferência bancária  devem ser feitos para o IBAN PT50003600009910590434664
  • Pagamentos por Paypal devem ser efectuados para o e-mail cacem.moreira@gmail.com com todas as despesas a serem suportadas pelo ordenador, sem qualquer dedução no valor a receber pelo Clube.

    A contracapa da revista nº 4 do Clube Tex Portugal terá uma ilustração exclusiva de DANTE SPADA, dedicada aos amigos do Clube Tex Portugal

    (Para aproveitar a extensão completa  das imagens acima, clique nas mesmas)

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 3

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SENDAS APACHES (por Roy West) – fim

vinheta-pc3a9on-indios874Eis a conclusão do conto «Sendas Apaches», que, sob o pseudónimo de Roy West, publiquei no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), com ilustrações de Vítor Péon — como podem ver na imagem junta — e em nova versão no Mundo de Aventuras nº 353 (2ª série), de 10/7/1980, dessa feita ilustrado por Augusto Trigo, um novel talento descoberto pouco tempo antes, mas cujos trabalhos já davam brado entre os leitores.

Já lá vão mais de 35 anos e parece que foi ontem! São memórias suscitadas pelas ilustrações do Trigo, que tinha chegado a Portugal, vindo da Guiné-Bissau, no ano anterior. Conheci-o na redacção do Mundo de Aventuras (MA), onde ele apareceu em Setembro de 1979, para apresentar alguns originais, e como é óbvio «deitei-lhe a mão» imediatamente, pois desenhadores com aquele potencial e, ainda por cima, descobertos por acaso, não se encontram todos os dias. A nossa colaboração começou logo aí, primeiro com capas para o MA, ilustrações para contos, não só meus como de outros novelistas, nomeadamente o Roussado Pinto e o Orlando Marques, artigos, etc.

o-visitante-maldito875A sua primeira BD publicada no MA foi «O Visitante Maldito», a história que me mostrou nos tais originais que trouxera da Guiné, com a esperança de encontrar um editor interessado, e que logo me chamaram a atenção, assim como a outros responsáveis da Agência Portuguesa de Revistas (APR), o Baptista Rosa, director-geral, e o António Verde, director do MA. Estes deram-me carta branca e, a partir desse dia, embora não pudéssemos pagar muito, o Trigo foi angariado como desenhador da APR e logo deu nas vistas entre os seus insignes «pares». Refiro-me aos outros colaboradores artísticos do MA — sobretudo o Baptista Mendes e o Zenetto —, que até aí tinham sido a «prata da casa», com a incumbência de ilustrar todos os textos, incluindo alguns contos da minha autoria (com o Baptista Mendes fiz também a minha primeira BD, «A Lenda de Gaia», publicada no MA nº 143), e que assim ficaram mais livres para outras tarefas, continuando ao serviço da revista.

a-sombra-do-gavic3a3o-876Quanto ao Trigo, não tardou a desenhar a sua segunda história, «A Sombra do Gavião», baseada num argumento meu, revelando-se, desse jeito depois de «Sendas Apaches», publicado pouco tempo antes —, um artista exímio no domínio do western.

A título de curiosidade, assinalo que o Mundo de Aventuras ia, então, no seu 31º ano de existência, sinal de longevidade e de sucesso que nenhuma outra publicação juvenil podia reivindicar também para si, pois todas as que tinham visto nascer o MA — O Mosquito, Diabrete, Lusitas, Camarada — e as que vieram depois Cavaleiro Andante, Titã, Flecha, Fagulha, Valente, Jacto, O Falcão, etc. já não apareciam nas bancas há muito tempo. Apenas o Tintin, na sua versão portuguesa, estreada em 1968, numa parceria da Livraria Bertrand e da Editorial Íbis, competia em termos de igualdade, apostando na BD franco-belga, com os heróis de outras origens, nomeadamente norte- -americanos e ingleses, que o MA continuava a publicar.

ma-353-877Mas, curiosamente, também este buscava novos rumos, aderindo sem reservas (a não ser as impostas por exclusivos editoriais) a essa escola europeia recheada de grandes valores como era o caso de Hermann, já famoso graças a criações como Comanche e Bernard Prince, e que no início da sua carreira deu também forma e substância, em colaboração com Laymilie (Jean-Luc Vernal), a uma personagem histórica chamada Jugurtha, cujas proezas se inspiravam em episódios verídicos ocorridos no século III a.C., durante as campanhas dos Romanos contra os Númidas.

Foi essa série (prosseguida depois por Franz Drappier) que serviu de tema principal (e de capa) ao MA nº 353, em que Augusto Trigo ilustrou também a segunda versão deste conto… que volta, agora, a palmilhar as pistas poeirentas do velho e selvagem Oeste americano, depois de pacientemente revisto e melhorado (mais uma vez) pelo seu escriba. Boa leitura!

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

 III

O olhar calmo de Travis fitou o rapaz índio, que se ajoelhara para não cair, agarrando-se ao varão do tejadilho, e depois pousou-se no cano fumegante da carabina. Restavam-lhe ainda algumas balas, mas não chegavam para vencer outro combate… e os Apaches deviam saber isso. No instante seguinte, um deles correu atrás da diligência.

Não dispares, rosto-pálido! gritou o rapaz. É Mangus Colorado!

Pelo rosto tisnado de Travis perpassou um leve sorriso e, em voz firme, ordenou a Johnny Stuart que parasse. Era uma ordem tão estranha que o cocheiro, em vez de obedecer, chicoteou furiosamente os cavalos. Mas o perseguidor corria como o vento — uma espécie de diabo vermelho, montando um ciclone de fogo e areia — e não tardou a ganhar terreno, atravessando-se no caminho da mala-posta. Stuart foi forçado a parar, praguejando.

Erguendo um braço para mostrar que estava desarmado, o Apache aproximou-se, sem que a sua atitude traísse qualquer sinal de ameaça. Por mímica, o rapaz falou ao altivo guerreiro, cuja face era sulcada por uma larga pintura de guerra. Depois, este exclamou, numa voz profunda que parecia reboar sobre as colinas:

— Eu sou Mangus Colorado e vim buscar o jovem imprudente que se perdeu no deserto. Os brancos encontraram-no e salvaram-lhe a vida. São nossos inimigos, mas podem partir em paz, sem receio dos Apaches!

Fez uma pausa e olhou atentamente para Travis, que voltara a sentar-se na boleia, ao lado de Stuart, com a espingarda sobre os joelhos.

— Reconheço-te, ó grande atirador que sabes desmontar um Apache sem o matar! Já te vi uma vez, quando usavas o chapéu de soldado, no tempo em que Mangus e o general Crook eram amigos. O rapaz contou-me o que fizeste. A tua acção será lembrada!

O sorriso de Travis acentuou-se, dando uma súbita bonomia ao seu rosto de linhas duras.

— Tens boa memória, grande chefe! Também te reconheci, à frente dos teus guerreiros, imune às balas e veloz como o vento! A fama de Mangus Colorado é grande entre o seu povo e os seus inimigos!

Depois, batendo no ombro do condutor, disse-lhe em voz baixa:

— Podes agradecer à nossa boa estrela, Johnny. Ainda não é desta vez que ficamos pelo caminho!

Stuart franziu o sobrolho e resmungou, entre dentes, cuspindo para o lado:

— Não sejas tão optimista! Se as coisas não acalmarem por aqui, as nossas carcaças acabarão por servir de petisco aos abutres e aos coiotes! Já é tempo de mudar de trajecto!

A distância, o resto do bando continuava parado, olhando a cena. Janet viu o jovem Apache saltar agilmente para a garupa do cavalo de Mangus Colorado e suspirou de alívio, pela primeira vez. O pesadelo acabara.

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O rosto de Lockman gotejava de suor. Havia uma expressão de raiva demente nos seus olhos. Janet viu-o erguer o revólver e fazer pontaria pela janela. Gritou, enquanto os dois Apaches se afastavam num trote curto, orgulhoso.

“O idiota!”, pensou Travis, ao ouvir o grito de Janet. Mas nada podia fazer. A bala de Lockman ia partir, quando Mangus Colorado, voltando-se na sela com rapidez incrível, ergueu o braço direito. Uma faca voou, silvando, e Lockman tombou sobre o banco. Ao mesmo tempo, um clamor agudo vibrou nos ares. Travis engatilhou instintivamente a espingarda, enquanto o cocheiro, com um arrepio na espinha, brandia o chicote, forçando os cavalos da equipagem a recorrer às suas últimas forças.

— Eh! Eles voltam para trás! gritou Billy Harper, com o seu falsete de bêbedo.

Era verdade. Os Apaches desapareciam ao longe, numa nuvem rolante de poeira. Johnny Stuart soltou um berro de alegria e Travis, baixando o cano da arma, pensou em Janet e no seu grito de aviso, sem conter a admiração pela bonita professora, de olhos claros e brilhantes como um regato na Primavera, cujo espírito generoso e destemido a distinguia dos outros passageiros.

O fim da jornada

Saltando e rolando sobre as pedras do caminho, com a poeira a escorrer entre as rodas — como areia que deslizasse numa ampulheta, anunciando o fim cada vez mais próximo da viagem —, a mala-posta transpôs mais um maciço de colinas, depois das quais os passageiros avistaram as casas baixas de Lordsburg, envoltas numa névoa de calor que, à distância, parecia a superfície trémula de um lago.

Embora ficasse na pista das diligências e estivesse a poucas milhas de um posto militar, Lordsburg não passava de um pequeno aglomerado de construções modestas, que só anos mais tarde dariam origem a uma povoação importante.

Na rua principal apareceu gente a recebê-los. Johnny Stuart, com a cara coberta por uma máscara de poeira, os dedos enclavinhados nas rédeas como garras, conduziu os cavalos para o largo, parando diante de um pequeno armazém, a curta distância do hotel, o edifício mais alto e de melhor aspecto que existia em Lordsburg.

A multidão de curiosos engrossara e ouviam-se comentários aqui e além. Os passageiros começaram a descer. Travis viu um jovem e empertigado oficial do Exército, cuja espada quase roçava pelo chão, encaminhar-se para Janet Simpson, sorrindo. Beijaram-se ali mesmo, num arroubo amoroso, esquecidos do mundo, indiferentes aos estranhos que os rodeavam. Uma expressão de radiante felicidade iluminava o rosto da rapariga. Ao afastar-se, ela olhou para Travis, por cima do ombro.

Dois homens desceram o ferido, outro correu a chamar o médico. Billy Harper apeara-se também e hesitava, no meio do largo, olhando a tabuleta do saloon mais próximo. À porta, encostada ao batente, uma jovem de lábios vermelhos e vestido muito decotado parecia a imagem viva da tentação. Billy suspirou e dirigiu-se para ela.

Desviando o olhar dos curiosos aglomerados em redor da diligência, Stuart exclamou, num tom meio pesaroso:

— Perdemos um passageiro! Eu bem lhe disse que se agarrasse ao banco, mas o pobre diabo tremia como varas verdes! Alguém tem de ir buscar o corpo, para lhe fazerem um enterro decente. E Lockman… safar-se-á desta?

Travis respondeu, encolhendo os ombros:

— Conheces algum patife que não tenha a pele dura? O Doc trata dele. Creio que Mangus quis ser clemente, por nossa causa. Lockman ficará com uma cicatriz e uma recordação de um chefe Apache que muitos lhe hão-de invejar!… O punhal de Mangus Colorado!

Johnny Stuart fez uma espécie de careta, cuspiu para o lado, como era seu hábito, e rematou, esfregando a barba rija:

— Foi uma sorte dos diabos, rapaz! Quando ouvi a gritaria dos índios, pensei que tinha soado a nossa última hora! Mas a tua boa acção salvou-nos… E a carripana portou-se bem! Se não lhe pegarem fogo ou a crivarem de balas, ainda pode durar muitos anos!

Lembrando-se do olhar da jovem professora, Travis sorriu, um sorriso taciturno em que havia a insónia dos longos dias e das longas noites de marcha, em vigilância constante, e o cansaço da sua vida solitária. Depois, desceu da boleia, com a espingarda debaixo do braço, e em passos firmes e vagarosos encaminhou-se para o hotel.

FIM

Para (re)ler as duas primeiras partes deste conto, clicar aqui e aqui

RUBRICA DO OESTE – 3

COMO ERAM AS SELAS DOS “COWBOYS”

COWBOYS - 3 (Tim Cox)

Esta rubrica de agrado geral — pois temos a certeza de que todos os fãs do western gostam de aumentar os seus conhecimentos sobre um universo tão vasto e apaixonante —, é hoje preenchida com um artigo que respigámos da revista Plateia nº 750, de 17/6/1975.

Por invulgar que pareça, foi mesmo numa revista de cinema (e das mais célebres que já se publicaram em Portugal) que encontrámos as duas páginas, com texto e ilustrações de Jorge Tavares, que por curiosidade reproduzimos mais abaixo.

Temos ideia de que o articulista era um assíduo colaborador da Plateia, pois nessa época trabalhávamos na Agência Portuguesa de Revistas, editora desta publicação e do Mundo de Aventuras, entre muitas outras. Mas nunca o conhecemos pessoalmente.

Seja como for, Jorge Tavares revela neste texto uma soma de conhecimentos que nos apraz registar, sobre um tema que só costuma ser abordado por especialistas: as selas usadas pelos cowboys nas suas rudes tarefas, em que passavam (e passam ainda) mais tempo a cavalo, lidando com o gado, do que com os pés assentes na terra.

COWBOYS - 2 (Tim Cox)

Esperamos, pois, que este artigo venha enriquecer a nossa enciclopédica Rubrica do Oeste, onde outros assuntos de palpitante interesse não serão esquecidos, como as armas de fogo, ao qual tencionamos voltar em breve.

(Nota: as imagens que ilustram o nosso texto são de Tim Cox, artista natural do Arizona, cuja afinidade com os temas, as figuras e as paisagens do Oeste americano é bem patente nos quadros que pinta com extraordinário realismo. Vale a pena fazer uma visita à sua magnífica galeria online em http://www.timcox.com/).

A LENDA DE CUSTER – 2

A BATALHA DE LITTLE BIG HORN NO CINEMA

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o-intrc3a9pido-general-custerNo cinema, um dos exemplos mais emblemáticos da dualidade entre a História e a Lenda — que, no caso do general Custer, atingiu proporções míticas, fomentadas pelos seus mais fervorosos biógrafos, para quem este nome ecoa através dos tempos “como uma espadeirada”  —, foi o filme de Raoul Walsh They Died With Their Boots On (“Todos Morreram Calçados”), rodado em 1941, com o garboso Errol Flynn no papel do herói e a gentil Olivia de Havilland no da sua fiel esposa Libbie, que sempre o acompanhou e apoiou, com a força inquebrantável de um amoroso carácter, nos momentos mais difíceis ou mais gloriosos da sua carreira. Ainda hoje este filme é recordado pelos cinéfilos que vibraram, na infância, com a espectacular reconstituição da famosa batalha.

Noutro dos seus westerns dignos de registo, “A Caminho de Santa Fé” (Santa Fe Trail), realizado por Michael Curtiz em 1940, Flynn troca de papéis com Ronald Reagan, que interpreta por seu turno a figura de Custer, disputando ao seu parceiro — a quem coube o papel de Jeb Stuart, célebre militar sulista — a mão de Olivia de Havilland.

sc3a9tima-cavalariaO épico combate de Little Big Horn é evocado também no filme “Sétimo de Cavalaria” (7th Cavalry), dirigido por Joseph H. Lewis (1956), em que Randolph Scott encarna um oficial amigo de Custer que sobreviveu à trágica sorte dos seus companheiros por ter pedido licença durante a campanha, o que o expõe às críticas da opinião pública e do próprio Exército. Scott vai participar no inquérito aberto após a derrota do malogrado general, para apurar responsabilidades, e o filme é um dos primeiros a tocar abertamente nessa questão.

Outras versões menos clássicas do que They Died With Their Boots On, mas com outra preocupação de realismo e de veracidade — como Custer of the West, realizada em 1967 por Robert Siodmak, com Robert Shaw no papel do excêntrico e megalómano general, e principalmente “Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), de Arthur Penn (1970), baseada no best seller de Thomas Berger e com o versátil Dustin Hoffman num dos seus melhores desempenhos —, foram realizadas em épocas mais contestatárias, quando o culto dos heróis, por causa dos movimentos sociais e dos efeitos traumáticos da guerra do Vietnam, começou a declinar, em prol de uma crença mais forte no papel da democracia e do homem comum. a-lenda-de-custer-2-4-499É pena que delas não tenha ficado rasto mais duradouro que o do fantasista filme de Walsh (embora espectacular e tecnicamente perfeito), em que Errol Flynn retrata, com a cinéfila galhardia que muitos actores do seu tempo lhe invejavam, a figura de um homem que criou em vida a sua própria lenda… ultrapassando assim, embora sem verdadeira glória, o veredicto implacável da morte.

Em próximos artigos, iremos prosseguir esta sucinta evocação de George Armstrong Custer e da sua última batalha, nas cercanias do Little Big Horn River, com uma listagem (o mais completa possível, mas sem preocu- pações de rigor cronológico) dos principais autores e séries de BD que plasmaram também o tema e as suas históricas peripécias, sob ângulos artisticamente heterogéneos, mas caracterizados pelo total realismo da forma e do conteúdo, num caleidoscópio de imagens capazes de rivalizar em beleza, acção, vigor, plasticidade e dinamismo, com as dos maiores mestres do western cinematográfico. Só lhes falta, por assim dizer, o verdadeiro movimento!

VÍTOR PÉON E O “WESTERN” (DE DENVER BILL A “TOMAHAWK” TOM) – 1

Num trabalho de homenagem ao saudoso Vítor Péon, que realizei para um fanzine editado em 2011 pela Câmara Municipal de Moura — no âmbito do 17º Salão de BD levado a efeito por aquela autarquia, com coordenação de Carlos Rico —, tive a grata oportunidade de abordar longamente uma das facetas mais relevantes da sua prolífica obra como autor de histórias aos quadradinhos, talvez mesmo a que, desde sempre, lhe despertou maior paixão: o western.

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Nesse trabalho, profusamente ilustrado e documentado, procurei também conciliar a informação cronológica com a perspectiva histórica, já que Vítor Péon foi um dos poucos desenhadores a dominar com mestria, durante os anos 40 e 50, em plena “época de ouro” da BD portuguesa, um género graficamente tão sugestivo (e ao mesmo tempo tão difícil) como as aventuras de cowboys, tendo deparado, na realidade, com um único rival na excelsa arte de E. T. Coelho, que ao western deu também valiosa contribuição, embora de forma menos intensa e apaixonada, e por um período muito mais breve, do que Péon.

É esse trabalho, reproduzido directamente das páginas da publicação editada pela C. M. de Moura (e cujas capas são alusivas a Tomahawk Tom, o mais icónico aventureiro do Oeste criado por Vítor Péon), que começamos hoje a apresentar aos nossos leitores, dividido em várias partes, para tornar mais amena a sua leitura.

Assim se prolonga neste blogue uma merecida homenagem a um grande pioneiro da BD portuguesa, que deu às histórias aos quadradinhos de cowboys em estilo realista, produzidas por autores nacionais, as suas primeiras cartas de nobreza.

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“BILLY THE KID & OUTRAS HISTÓRIAS” – UMA REVISTA BRASILEIRA DEDICADA AO FAROESTE

“Billy The Kid & Outras Histórias” #26 traz um novo poster de TEX desenhado pelo mestre Alfonso Font

(Nota: este artigo foi extraído, com a devida vénia, do Tex Willer Blog)

Billy-The-Kid-Outras-Histórias-nº-26-com-póster-de-Tex-da-autoria-de-Alfonso-Font        “Billy The Kid & Outras Histórias” nº 26, com poster de Tex, da autoria de Alfonso Font

A revista brasileira Billy The Kid & Outras Histórias atingiu no passado mês de Abril a edição nº 26, consolidando-se cada vez mais na história da produção brasileira por atingir tantos números, ainda por cima tendo o selo de uma editora alternativa, a Opção 2 do editor Arthur Filho, e por reunir tantos grandes nomes da banda desenhada brasileira. Aliás, a edição nº 26 é um novo marco histórico, pois nunca uma revista independente de Faroeste chegou tão longe no Brasil!

Esta edição nº 26 tem capas de Fabio Chibilski e Elthze, histórias de Júlio Emílio Braz, José Menezes, Wilski Barbosa, Arthur Filho e Elthz, uma entrevista com o argumentista Júlio Emílio Braz e ainda a rubrica Correio do Billy. Mas o grande destaque é a publicação nas páginas centrais de mais um magnífico poster de Tex da autoria de Alfonso Font e um artigo exclusivo sobre os desenhadores de Tex. Tudo isto numa nova impressão gráfica e nova diagramação e com apoio gráfico da Ink Blood, de Fabio Chibilski.

Alfonso-Font-colabora-na-revista-Billy-The-Kid-Outras-Histórias-nº-26  Alfonso Font colabora na revista “Billy The Kid & Outras Histórias” nº 26

Recorde-se que esta colecção nasceu no ano de 2005, quando, movido por uma antiga paixão pelos westerns e vendo que nas bancas de jornais Tex Willer, o herói da Casa Bonelli, era o único título disponível para atender a uma legião de fãs de bang-bang, Arthur Filho decidiu publicar a revista Billy The Kid & Outras Histórias. Mas para conhecer melhor a trajectória deste batalhador editor brasileiro, leia a entrevista concedida recentemente ao Tex Willer Blog, clicando AQUI!
Arthur-Filho-com-duas-edições-da-Billy-The-Kid                        Arthur Filho com duas edições da revista “Billy The Kid”

Quem desejar adquirir este número (com o formato A5, 30 páginas e miolo em papel reciclado e capa a cores em papel couché 120g, com um custo de R$ 8,00), assim como números anteriores, deve fazer os pedidos através do e-mail do próprio editor: arthur.goju@bol.com.br

Colecção-Billy-The-Kid                                        Colecção “Billy The Kid & Outras Histórias”

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 2

SENDAS APACHES (por Roy West) – 2ª parte

ma-especial-11Este conto, como já tive ocasião de referir, fez a sua estreia no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), numa versão com o título «Viagem Perigosa», que teve o privilégio de ser ilustrada pelo saudoso Vítor Péon. Um desses desenhos, de grande formato, representando a cena em que os Apaches atacam a diligência, e cujo original ele me ofereceu, está ainda hoje emoldurado num quadro que ornamenta uma das paredes da minha casa. Curiosamente, também tenho vários originais oferecidos pelo Augusto Trigo e por outros artistas, mas nunca os emoldurei… só o do Péon! E quando o contemplo parece-me que estou a reviver o momento em que aquele grande e querido Amigo mo ofereceu e a minha profunda emoção ao recebê-lo, eu que nunca imaginara ser recompensado com tão preciosa dádiva por um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, um dos meus ídolos de infância, quando era um fervoroso leitor de revistas de banda desenhada como O Mosquito e o Mundo de Aventuras.

Bem, mas isto de recordar velhos tempos e os grandes Amigos que já partiram torna-nos saudosistas, e dizem que o saudosismo é uma espécie de maleita que nos faz ainda mais velhos! Voltando ao conto e à sua nova versão, publicada neste blogue, escuso de chamar a atenção para as muitas alterações que lhe fiz, pois quem ler a primeira (de que seguidamente reproduzo duas páginas, a título de curiosidade) facilmente as irá detectar. Pretendi dar mais consistência aos principais personagens, nomeadamente à professora, ao «vilão» (o execrável Lockman, agente dos índios), ao bêbado e, para terminar, ao guarda da diligência, que é uma espécie de herói da história (assim no género do Malpais Bill, criado por Ernest Haycox, embora os seus papéis sejam muito diferentes). Também mudei o nome dele, de Travers para Travis, que me soa melhor ao ouvido…ma-viagem-perigosa-1-e-25

Ficamos assim a saber que Travis não era só guarda de diligências, pois também já fora batedor, vigilante de saloons, guarda de bancos e de minas, constantemente assaltados por bandidos, e deputy marshal numa cidade fronteiriça. Um currículo apreciável para um pistoleiro! É claro que alguns destes personagens podem ter alguma relação com os do conto de Ernest Haycox (o célebre Stage to Lordsburg), nomeadamente a professora, que também está noiva de um oficial do Exército; mas Billy Harper, o bêbado, por exemplo, foi inspirado numa das figuras do filme Stagecoach («Cavalgada Heróica»), um médico que também não resistia à bebida, interpretado pelo grande actor Thomas Mitchell, galardoado graças a esse papel com o Óscar de melhor actor secundário.

hacia-los-grandes-horizontes-538Importa referir, a propósito, que o mesmo papel coube a Bing Crosby, num remake de Stagecoach realizado por Gordon Douglas em 1966, com um excelente elenco artístico. E Crosby, que não era apenas um cantor romântico ou um actor de comédias, parceiro de Bob Hope em vários filmes de sucesso, demonstrou mais uma vez possuir notáveis recursos dramáticos, numa interpretação que merece também ficar na memória — embora este remake, produzido a cores e em cinemascope, seja bastante inferior em termos cénicos, temá- ticos e artísticos à versão original rodada, em 1939, por John Ford no famoso Monument Valley.

Voltando ao conto, quero frisar que, no caso dos índios (transformados em meros figurantes na short story de Ernest Haycox), pretendi torná-los mais reais, evocando a figura de Mangus Colorado, um dos grandes caudilhos Apaches… já que não podia utilizar a de Geronimo, pois a minha história decorre, como expliquei na nota introdutória, 20 anos antes, quando Geronimo ainda não tinha a notoriedade que conquistou depois.

mangas-coloradas2Nesta nova versão, referi o facto de Mangus Colorado ser sogro de Cochise, outro célebre chefe Apache, e procurei dar-lhe mais realce, pois era, segundo rezam as crónicas, um guerreiro de figura imponente, que os brancos admiravam… embora, mais tarde, o tivessem cobardemente assassinado. Mas isso são outros contos! Também dei mais atenção aos diálogos, apesar de não serem muitos, numa história que (tal como Stage to Lordsburg) vale sobretudo pela acção… ainda que nesse conto o seu efeito seja mais dramático e psicológico, revelando a mestria de Haycox num género considerado como «bang-bang» e pouco mais, pelo menos na sua época.

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

II

Aos solavancos, rangendo de uma ponta à outra, a diligência subiu penosamente uma colina coberta de areia, cascalho e mato rasteiro, onde a trilha se alongava, íngreme e sinuosa, ladeada por cactos de grande porte, com espinhos agudos e acerados como punhais (cuja espécie tem o nome de saguaro). De vinte em vinte metros, uma flor brotava da pele dura e ressequida de um desses gigantes, cheia de laivos que pareciam cicatrizes.

Para Janet, essas milagrosas flores, tão belas e frágeis como outros pequenos seres que povoavam a solidão do deserto, eram uma imagem que não se apagaria do seu espírito, suavizando a agressividade da natureza, quando mais tarde, na intimidade do seu novo lar, recordasse os incidentes e as etapas daquela longa e árdua jornada.

Os estalidos do chicote e a voz forte do cocheiro, que incitava continuamente os cavalos, faziam vibrar a atmosfera carregada de electricidade, ressoando de forma estranha aos ouvidos dos passageiros, como ecos distantes de uma trovoada.

Stuart estava tão habituado ao movimento oscilante da diligência e ao trote cadenciado dos cavalos sobre as longas pistas poeirentas, que quando descia da boleia quase sentia falta de equilíbrio, como um marinheiro ao pisar terra firme.

— Para um tipo como Johnny Stuart — costumava dizer Travis, com um trejeito de bom-humor —, o mundo só está no seu lugar quando vê à sua frente a estrada e a garupa dos cavalos!

Quanto a Travis, era um homem de acção, que já tivera muitas outras profissões, quase sempre associadas a trabalhos perigosos, como batedor do Exército (na sua juventude), vigilante de saloons, guarda de bancos e de empresas mineiras, ou deputy numa pequena cidade junto da fronteira com o México. Gostava da companhia de Stuart e de sentir na cara o ar fresco das manhãs do deserto, antes do sol subir a prumo, agora que a sua missão era proteger os passageiros quando atravessavam o território dos Apaches hostis. Nunca casara nem tivera filhos, mas já amara algumas mulheres e talvez um dia trocasse aquela vida de permanente insegurança por um futuro mais tranquilo, em que as armas fossem postas de lado para sempre.

Uma nuvem cinzenta de poeira pairava no ar e na distância, esfumando a silhueta dos cactos que se estendiam, em longas filas simétricas, estranhamente alinhadas, até aos confins do deserto. Era quase meio-dia e o calor abafado tornava a atmosfera ainda mais tensa, como se a tempestade que inquietara os passageiros estivesse prestes a eclodir. Dentro da diligência, Billy Harper tirou um pequeno frasco do bolso e, com uma risada, ofereceu-o aos outros.

— Tanto melhor! exclamou, perante a recusa geral.

A cabeça do jovem Apache descansava nos joelhos de Janet Simpson. Lockman, carrancudo, olhava em frente, pela janela.

— Estamos quase a chegar! gritou Stuart, debruçando-se da boleia.

A diligência rolava agora em pista aberta, ao trote largo e vigoroso dos cavalos, levantando nuvens de pó que se dissipavam lentamente, como farrapos de neblina, no ar imóvel do deserto. Ao longe, surgiam perfis de colinas, que os raios de sol, filtrados pelas nuvens, tingiam na vertical com uma faixa de cores vivas, lembrando a Janet, que não despregava o olhar maravilhado do horizonte, uma espécie de arco-íris ou de wampum (*) índio, como vira, certa vez, numa gravura.

Indiferente às belezas do deserto, Billy Harper começara a dormitar, oscilando no banco como o pêndulo de um relógio. A maior parte da sua vida, desde que saíra do orfanato, fora passada em saloons, bordéis e casas de jogo. Poucos homens eram capazes de vencê-lo ao poker ou de esvaziar uma garrafa de whisky mais depressa do que ele, e as raparigas que encontrava nesses lugares de má nota faziam-no feliz, sobretudo quando eram ainda muito jovens. Mas um dia teria de se reformar e esse dia já não vinha longe…

Os outros passageiros um tipo bem vestido, de jaqueta nova e brilhantes nos dedos, e um negociante de aspecto próspero, com um nariz adunco de judeu tagarelavam outra vez, enfastiados pelo calor, pela lentidão da jornada e pela monotonia da paisagem. Começavam a sentir-se em segurança, protegidos por Travis e pela sua arma, pela distância que se encurtava a cada salto da diligência. Falavam de negócios, de política e de mulheres, baixando a voz para que Janet não os ouvisse.

A rapariga pensava em Travis e no impulso que a levara a tomar partido por ele e pelo seu protegido índio. Sabia que os outros a censuravam, porque odiavam e temiam os Apaches, e sentia a corrente eléctrica, de aversão, que se estabelecera entre Lockman, Travis e ela.

(*) Wampum  faixa bordada, de várias cores, que algumas tribos índias usavam nas suas cerimónias rituais e que para elas tinha grande significado místico e até guerreiro, sendo também considerada um testemunho sagrado na celebração de um acordo.

Vingança Apache

O bando, como lobos saindo em tropel do seu fojo, surgiu, de repente, à direita da diligência, atroando os ares com gritos selvagens. Sem uma exclamação de surpresa, como se já estivesse à espera deles, Johnny Stuart brandiu o chicote repetidas vezes e os cavalos arrastaram o carro num galope desenfreado, saltando todos os obstáculos, saindo da trilha em perigosos zigue-zagues, os cascos martelando o terreno com um ruído infernal, envoltos numa espessa nuvem de poeira. Travis viu o bando atacante dividir-se em dois e reconheceu o guerreiro que os comandava.

— Mangus Colorado! — gritou a plenos pulmões. Em resposta, Johnny Stuart redobrou as chicotadas e os gritos de incitamento aos cavalos, enquanto o passageiro sentado junto dele tentava desesperadamente equilibrar-se e, ao mesmo tempo, segurar o seu grande chapéu, em risco de ser levado pelo vento.

Dentro da mala-posta, o pânico tinha-se instalado entre alguns dos viajantes. Só Lockman e Janet, que continuava a apoiar no regaço a cabeça do jovem Apache, ainda desmaiado, pareciam mais calmos. Billy Harper, de olhos fechados e mãos cruzadas na barriga, era a figura mais estranha do pequeno grupo.

Debruçado sobre o tejadilho da diligência, com as mãos a segurar firmemente a carabina, Travis começou a disparar. Alguns dos cavaleiros que galopavam à rédea solta, recortando-se como sombras grotescas e movediças no horizonte rubro do deserto, estacaram e caíram bruscamente, como se um muro invisível os tivesse detido. O eco trovejante das detonações espalhou-se pela distância, repercutindo na planície coberta de cactos, nas quebradas dos montes vizinhos.

Apesar dos balanços da diligência, Travis disparava com metódica segurança, sem perder uma bala, contando calmamente cada perseguidor que rolava no terreno… mas evitava, por estranho que pareça, atingir mortalmente os seus alvos.

Mangus Colorado era sogro de Cochise, chefe dos Chiricahuas, e Travis já o vira uma vez, há muitos anos, quando o seu bando de rebeldes ainda não pisara a senda da guerra. Tinha um aspecto imponente e uma voz que inspirava confiança. Travis lembrava-se das suas palavras de paz, que agora pareciam falsas, mas não talvez por culpa dele.

Levantando turbilhões de poeira, perseguidos e perseguidores corriam pela pista. As patas dos cavalos moviam-se numa cadência tão veloz que mal pareciam tocar o solo. As rodas chiavam com um ruído ensurdecedor, como se os eixos ameaçassem partir-se, e os violentos solavancos faziam estremecer a velha diligência, que parecia prestes a soltar-se do timão que a prendia aos cavalos. A certa altura, ferido mortalmente ou por ter perdido o equilíbrio, o passageiro tombou do banco e rolou na poeira. Mas Johnny Stuart nem sequer olhou para trás, porque era inútil pensar em prestar-lhe auxílio.

No interior da carruagem, Billy Harper acordara e olhava melancolicamente o frasco vazio, sem parecer ligar importância aos índios e ao barulho dos tiros. Lockman tinha um revólver nas mãos e começara também a servir-se dele, espreitando pela janela. O rosto de Janet estava pálido, mas sem expressão.ma-viagem-perigosa-3

Johnny Stuart disparava também sobre os Apaches, com um velho Colt que só utilizava em situações de emergência, e um guerreiro mais audacioso que se aproximara perigosamente, tentando abater os cavalos da mala-posta, caiu da sela, como uma árvore ceifada pelo raio.

— Este foi por minha conta! — bradou o cocheiro, com uma entonação de triunfo na voz rouca, meio sufocada pela poeira.

Foi então que o jovem Apache, ágil como um felino, pulou do banco onde estava deitado, ao pé de Janet, para uma das janelas. Lockman soltou um brado de surpresa, mas, antes que alguém pudesse agarrá-lo, o índio içou-se à força de pulso para o tejadilho da diligência.

Travis viu-o aparecer ao seu lado, mas não fez um gesto. Então, tirando a faixa de pano que lhe envolvia a cabeça, o rapaz agitou-a no ar, de pé, num arriscado equilíbrio, sobre o tecto oscilante da mala-posta.

Ao ver o bando de atacantes parar a distância, Travis deixou de fazer fogo. Aproveitando a pequena trégua, Johnny Stuart conseguiu distanciar-se, gritando e chicoteando os cavalos cobertos de suor.

        (continua em breve)