OS “COWBOYS” DA SÉRIE B – 1

Texto de Jorge Magalhães

Durante várias décadas, os westerns dominaram o panorama da produção cinematográfica norte-americana, sobretudo os que eram produzidos por pequenos estúdios indepen- dentes, como a Monogram e a Republic, e que os críticos designavam pejorativamente por westerns da série B, devido aos seus temas repetitivos, à sua curta metragem (duas bobinas, uma hora de projecção), à sua fraca qualidade artística e ao seu baixo orçamento.

Mas o público adorava-os, acorrendo em massa às sessões duplas em que esses filmes eram exibidos e vibrando com a sua acção trepidante, embora sem grandes rasgos criativos, e com as proezas dos seus intérpretes, geralmente actores que, como Tom Mix, Tim McCoy ou Ken Maynard, executavam as cenas mais arriscadas sem precisar de duplos, pois tinham larga experiência do ofício de cowboys.

A popularidade desses actores que se tornaram campeões de bilheteira, alguns deles ainda na época do western mudo (1903-1930), não passou, porém, de fama efémera, pois hoje, na sua grande maioria, estão completamente esquecidos.

John Wayne, um dos maiores “astros” de sempre do western (que trabalhou às ordens de grandes realizadores como John Ford e Howard Hawks), Gary Cooper, Randolph  Scott, Joel McCrea e poucos mais, ainda habitam o imaginário dos amantes do western, como figuras míticas cuja longa carreira conheceu também muitos êxitos noutro género de filmes.

Roy Rogers, Gene Autry, Buck Jones, Hopalong Cassidy, ainda hoje são nomes sonantes do western, porque a sua popularidade, durante décadas, se estendeu também à televisão, à rádio, ao teatro, ao circo e à BD. Aliás, foram os comic books a dar o maior impulso, fora das telas, à carreira dos cowboys da série B, cujos nomes apareceram em dezenas de revistas publicadas pela Marvel, a DC, a Fawcett, a Dell, a Charlton e outras editoras.

Nesta rubrica, apresentaremos (entre outros tópicos a anunciar brevemente) pequenas biografias de alguns dos maiores “astros” do cinema western, extraídas de uma revista brasileira de outros tempos (1949-1987), inteiramente dedicada às histórias de cowboys. O seu curioso título Aí, Mocinho! era uma homenagem a esses heróis da tela que faziam vibrar a garotada nas matinés dos cinemas de bairro.

Em Portugal não se chamavam “mocinhos”, mas o entusiasmo do público juvenil era idêntico e as salas de cinema, quando exibiam um filme de cowboys com os seus maiores ídolos, estavam sempre à cunha. 

Fui frequentador assíduo do Royal-Cine, uma bela sala de espectáculos lisboeta (que há muito encerrou as suas portas, transformando-se tristemente num super-mercado), e lembro-me bem desses tempos. Reviver essas gratas memórias não é um mero exercício de nostalgia… mas uma forma de manter vivo o espírito inocente, de puro divertimento, dos westerns da série B e o legado de todos aqueles — actores, realizadores, produtores, técnicos e argumentistas — que lhes deram forma e substância, durante mais de 50 anos de existência nas telas prateadas dos cinemas!

Nota: Registo, a título de curiosidade, que Rex Allen e Johnny Mack Brown, dois dos últimos “cowboys” da série B, viveram as suas aventuras nas histórias aos quadradinhos pelo traço de famosos desenhistas como Russ Manning, Alex Toth e Jesse Marsh — então ainda em início de carreira, mas cujos dotes artísticos o futuro viria plenamente a confirmar.

RUBRICA DO OESTE – 6

“COW-GIRLS” E ESTRELAS DE CINEMA

Ora aqui têm mais uma curiosidade extraída dos nossos arquivos: um belo friso de amazonas dispostas a competir com a famosa Dale Evans, a rainha do western, casada com outro grande nome do cinema, Roy Rogers, o rei dos cowboys, o trovador de voz bem timbrada que levou a todo o mundo o folclore musical do Oeste americano.

Autênticas cowgirls e estrelas de Hollywood em ascensão, estas jovens amazonas fizeram a manchete de uma página d’O Século Ilustrado, revista portuguesa de actualidades, sempre atenta às notícias da 7ª Arte, que interessavam, nessa época, em meados do século passado, a um grande numero de leitores (e leitoras). Os filmes de cowboys estavam entre os géneros favoritos do público, suscitando também o entusiasmo de muitos actores e actrizes que viam na arte de montar toda a sela um trampolim para a fama, ao lado das maiores vedetas do western, contumazes campeões de bilheteira.

Por isso, era quase obrigatório em Hollywood saber andar a cavalo e vários especialistas dos filmes de cowboys, tanto realizadores como actores, tinham os seus próprios ranchos, onde procuravam imitar a vida ao ar livre dos primeiros colonos do Far-West… mas sem dispensar os benefícios da moderna civilização!

(Nota: este exemplar d’O Século Ilustrado corresponde ao nº 586, com data de 26/3/1949. O semanário era propriedade da Sociedade Nacional de Tipografia e tinha como director, por essa altura, Carlos Pereira da Rosa e como chefe de redacção Mário Rocha).