NOVELISTAS PORTUGUESES: “O NATAL DE TUKAN MACKENZIE” (por Edgar Caygill)

edgar-caygillApresentamos hoje nesta rubrica — iniciada com o original de Roy West (Jorge Magalhães) “Sendas Apaches” — um conto de Edgar Caygill, pseudónimo adoptado por Roussado Pinto no início dos anos 50 e que se tornaria bastante popular entre os leitores do Mundo de Aventuras e de outras publicações juvenis — mas que este prolífico autor também usou em antologias de contos, como o Edgar Caygill Magazine, e em livros policiais e de cowboys, editados por conta própria ou por editoras onde trabalhou, como a Fomento de Publicações e a Íbis.

O conto que seleccionámos na sua vasta obra é um western de tema natalício e foi respigado do Jornal do Cuto nº 172 (1/12/1977), embora a publicação original remonte ao Mundo de Aventuras nº 71 (1ª série), de 21/12/1950, onde foi ilustrado por Vítor Péon. Curiosamente, surgiu também em reedição, pela primeira vez, no Jornal do Cuto nº 25 (22/12/1971), cabendo dessa vez a Jobat (José Baptista) a tarefa de ilustrador.

No caso presente, as ilustrações são de Carlos Alberto Santos, um notável artista que legou ao Jornal do Cuto, ao Mundo de Aventuras e a outras publicações um número quase incalculável de trabalhos de grande valia, a cores e a preto e branco. Resta acrescentar que o texto desta 3ª versão foi revisto por Roussado Pinto, que decidiu manter o pseudónimo da primeira, mesmo depois de ter criado outro ainda mais famoso: Ross Pynn.

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NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 3

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SENDAS APACHES (por Roy West) – fim

vinheta-pc3a9on-indios874Eis a conclusão do conto «Sendas Apaches», que, sob o pseudónimo de Roy West, publiquei no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), com ilustrações de Vítor Péon — como podem ver na imagem junta — e em nova versão no Mundo de Aventuras nº 353 (2ª série), de 10/7/1980, dessa feita ilustrado por Augusto Trigo, um novel talento descoberto pouco tempo antes, mas cujos trabalhos já davam brado entre os leitores.

Já lá vão mais de 35 anos e parece que foi ontem! São memórias suscitadas pelas ilustrações do Trigo, que tinha chegado a Portugal, vindo da Guiné-Bissau, no ano anterior. Conheci-o na redacção do Mundo de Aventuras (MA), onde ele apareceu em Setembro de 1979, para apresentar alguns originais, e como é óbvio «deitei-lhe a mão» imediatamente, pois desenhadores com aquele potencial e, ainda por cima, descobertos por acaso, não se encontram todos os dias. A nossa colaboração começou logo aí, primeiro com capas para o MA, ilustrações para contos, não só meus como de outros novelistas, nomeadamente o Roussado Pinto e o Orlando Marques, artigos, etc.

o-visitante-maldito875A sua primeira BD publicada no MA foi «O Visitante Maldito», a história que me mostrou nos tais originais que trouxera da Guiné, com a esperança de encontrar um editor interessado, e que logo me chamaram a atenção, assim como a outros responsáveis da Agência Portuguesa de Revistas (APR), o Baptista Rosa, director-geral, e o António Verde, director do MA. Estes deram-me carta branca e, a partir desse dia, embora não pudéssemos pagar muito, o Trigo foi angariado como desenhador da APR e logo deu nas vistas entre os seus insignes «pares». Refiro-me aos outros colaboradores artísticos do MA — sobretudo o Baptista Mendes e o Zenetto —, que até aí tinham sido a «prata da casa», com a incumbência de ilustrar todos os textos, incluindo alguns contos da minha autoria (com o Baptista Mendes fiz também a minha primeira BD, «A Lenda de Gaia», publicada no MA nº 143), e que assim ficaram mais livres para outras tarefas, continuando ao serviço da revista.

a-sombra-do-gavic3a3o-876Quanto ao Trigo, não tardou a desenhar a sua segunda história, «A Sombra do Gavião», baseada num argumento meu, revelando-se, desse jeito depois de «Sendas Apaches», publicado pouco tempo antes —, um artista exímio no domínio do western.

A título de curiosidade, assinalo que o Mundo de Aventuras ia, então, no seu 31º ano de existência, sinal de longevidade e de sucesso que nenhuma outra publicação juvenil podia reivindicar também para si, pois todas as que tinham visto nascer o MA — O Mosquito, Diabrete, Lusitas, Camarada — e as que vieram depois Cavaleiro Andante, Titã, Flecha, Fagulha, Valente, Jacto, O Falcão, etc. já não apareciam nas bancas há muito tempo. Apenas o Tintin, na sua versão portuguesa, estreada em 1968, numa parceria da Livraria Bertrand e da Editorial Íbis, competia em termos de igualdade, apostando na BD franco-belga, com os heróis de outras origens, nomeadamente norte- -americanos e ingleses, que o MA continuava a publicar.

ma-353-877Mas, curiosamente, também este buscava novos rumos, aderindo sem reservas (a não ser as impostas por exclusivos editoriais) a essa escola europeia recheada de grandes valores como era o caso de Hermann, já famoso graças a criações como Comanche e Bernard Prince, e que no início da sua carreira deu também forma e substância, em colaboração com Laymilie (Jean-Luc Vernal), a uma personagem histórica chamada Jugurtha, cujas proezas se inspiravam em episódios verídicos ocorridos no século III a.C., durante as campanhas dos Romanos contra os Númidas.

Foi essa série (prosseguida depois por Franz Drappier) que serviu de tema principal (e de capa) ao MA nº 353, em que Augusto Trigo ilustrou também a segunda versão deste conto… que volta, agora, a palmilhar as pistas poeirentas do velho e selvagem Oeste americano, depois de pacientemente revisto e melhorado (mais uma vez) pelo seu escriba. Boa leitura!

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

 III

O olhar calmo de Travis fitou o rapaz índio, que se ajoelhara para não cair, agarrando-se ao varão do tejadilho, e depois pousou-se no cano fumegante da carabina. Restavam-lhe ainda algumas balas, mas não chegavam para vencer outro combate… e os Apaches deviam saber isso. No instante seguinte, um deles correu atrás da diligência.

Não dispares, rosto-pálido! gritou o rapaz. É Mangus Colorado!

Pelo rosto tisnado de Travis perpassou um leve sorriso e, em voz firme, ordenou a Johnny Stuart que parasse. Era uma ordem tão estranha que o cocheiro, em vez de obedecer, chicoteou furiosamente os cavalos. Mas o perseguidor corria como o vento — uma espécie de diabo vermelho, montando um ciclone de fogo e areia — e não tardou a ganhar terreno, atravessando-se no caminho da mala-posta. Stuart foi forçado a parar, praguejando.

Erguendo um braço para mostrar que estava desarmado, o Apache aproximou-se, sem que a sua atitude traísse qualquer sinal de ameaça. Por mímica, o rapaz falou ao altivo guerreiro, cuja face era sulcada por uma larga pintura de guerra. Depois, este exclamou, numa voz profunda que parecia reboar sobre as colinas:

— Eu sou Mangus Colorado e vim buscar o jovem imprudente que se perdeu no deserto. Os brancos encontraram-no e salvaram-lhe a vida. São nossos inimigos, mas podem partir em paz, sem receio dos Apaches!

Fez uma pausa e olhou atentamente para Travis, que voltara a sentar-se na boleia, ao lado de Stuart, com a espingarda sobre os joelhos.

— Reconheço-te, ó grande atirador que sabes desmontar um Apache sem o matar! Já te vi uma vez, quando usavas o chapéu de soldado, no tempo em que Mangus e o general Crook eram amigos. O rapaz contou-me o que fizeste. A tua acção será lembrada!

O sorriso de Travis acentuou-se, dando uma súbita bonomia ao seu rosto de linhas duras.

— Tens boa memória, grande chefe! Também te reconheci, à frente dos teus guerreiros, imune às balas e veloz como o vento! A fama de Mangus Colorado é grande entre o seu povo e os seus inimigos!

Depois, batendo no ombro do condutor, disse-lhe em voz baixa:

— Podes agradecer à nossa boa estrela, Johnny. Ainda não é desta vez que ficamos pelo caminho!

Stuart franziu o sobrolho e resmungou, entre dentes, cuspindo para o lado:

— Não sejas tão optimista! Se as coisas não acalmarem por aqui, as nossas carcaças acabarão por servir de petisco aos abutres e aos coiotes! Já é tempo de mudar de trajecto!

A distância, o resto do bando continuava parado, olhando a cena. Janet viu o jovem Apache saltar agilmente para a garupa do cavalo de Mangus Colorado e suspirou de alívio, pela primeira vez. O pesadelo acabara.

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O rosto de Lockman gotejava de suor. Havia uma expressão de raiva demente nos seus olhos. Janet viu-o erguer o revólver e fazer pontaria pela janela. Gritou, enquanto os dois Apaches se afastavam num trote curto, orgulhoso.

“O idiota!”, pensou Travis, ao ouvir o grito de Janet. Mas nada podia fazer. A bala de Lockman ia partir, quando Mangus Colorado, voltando-se na sela com rapidez incrível, ergueu o braço direito. Uma faca voou, silvando, e Lockman tombou sobre o banco. Ao mesmo tempo, um clamor agudo vibrou nos ares. Travis engatilhou instintivamente a espingarda, enquanto o cocheiro, com um arrepio na espinha, brandia o chicote, forçando os cavalos da equipagem a recorrer às suas últimas forças.

— Eh! Eles voltam para trás! gritou Billy Harper, com o seu falsete de bêbedo.

Era verdade. Os Apaches desapareciam ao longe, numa nuvem rolante de poeira. Johnny Stuart soltou um berro de alegria e Travis, baixando o cano da arma, pensou em Janet e no seu grito de aviso, sem conter a admiração pela bonita professora, de olhos claros e brilhantes como um regato na Primavera, cujo espírito generoso e destemido a distinguia dos outros passageiros.

O fim da jornada

Saltando e rolando sobre as pedras do caminho, com a poeira a escorrer entre as rodas — como areia que deslizasse numa ampulheta, anunciando o fim cada vez mais próximo da viagem —, a mala-posta transpôs mais um maciço de colinas, depois das quais os passageiros avistaram as casas baixas de Lordsburg, envoltas numa névoa de calor que, à distância, parecia a superfície trémula de um lago.

Embora ficasse na pista das diligências e estivesse a poucas milhas de um posto militar, Lordsburg não passava de um pequeno aglomerado de construções modestas, que só anos mais tarde dariam origem a uma povoação importante.

Na rua principal apareceu gente a recebê-los. Johnny Stuart, com a cara coberta por uma máscara de poeira, os dedos enclavinhados nas rédeas como garras, conduziu os cavalos para o largo, parando diante de um pequeno armazém, a curta distância do hotel, o edifício mais alto e de melhor aspecto que existia em Lordsburg.

A multidão de curiosos engrossara e ouviam-se comentários aqui e além. Os passageiros começaram a descer. Travis viu um jovem e empertigado oficial do Exército, cuja espada quase roçava pelo chão, encaminhar-se para Janet Simpson, sorrindo. Beijaram-se ali mesmo, num arroubo amoroso, esquecidos do mundo, indiferentes aos estranhos que os rodeavam. Uma expressão de radiante felicidade iluminava o rosto da rapariga. Ao afastar-se, ela olhou para Travis, por cima do ombro.

Dois homens desceram o ferido, outro correu a chamar o médico. Billy Harper apeara-se também e hesitava, no meio do largo, olhando a tabuleta do saloon mais próximo. À porta, encostada ao batente, uma jovem de lábios vermelhos e vestido muito decotado parecia a imagem viva da tentação. Billy suspirou e dirigiu-se para ela.

Desviando o olhar dos curiosos aglomerados em redor da diligência, Stuart exclamou, num tom meio pesaroso:

— Perdemos um passageiro! Eu bem lhe disse que se agarrasse ao banco, mas o pobre diabo tremia como varas verdes! Alguém tem de ir buscar o corpo, para lhe fazerem um enterro decente. E Lockman… safar-se-á desta?

Travis respondeu, encolhendo os ombros:

— Conheces algum patife que não tenha a pele dura? O Doc trata dele. Creio que Mangus quis ser clemente, por nossa causa. Lockman ficará com uma cicatriz e uma recordação de um chefe Apache que muitos lhe hão-de invejar!… O punhal de Mangus Colorado!

Johnny Stuart fez uma espécie de careta, cuspiu para o lado, como era seu hábito, e rematou, esfregando a barba rija:

— Foi uma sorte dos diabos, rapaz! Quando ouvi a gritaria dos índios, pensei que tinha soado a nossa última hora! Mas a tua boa acção salvou-nos… E a carripana portou-se bem! Se não lhe pegarem fogo ou a crivarem de balas, ainda pode durar muitos anos!

Lembrando-se do olhar da jovem professora, Travis sorriu, um sorriso taciturno em que havia a insónia dos longos dias e das longas noites de marcha, em vigilância constante, e o cansaço da sua vida solitária. Depois, desceu da boleia, com a espingarda debaixo do braço, e em passos firmes e vagarosos encaminhou-se para o hotel.

FIM

Para (re)ler as duas primeiras partes deste conto, clicar aqui e aqui

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 2

SENDAS APACHES (por Roy West) – 2ª parte

ma-especial-11Este conto, como já tive ocasião de referir, fez a sua estreia no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), numa versão com o título «Viagem Perigosa», que teve o privilégio de ser ilustrada pelo saudoso Vítor Péon. Um desses desenhos, de grande formato, representando a cena em que os Apaches atacam a diligência, e cujo original ele me ofereceu, está ainda hoje emoldurado num quadro que ornamenta uma das paredes da minha casa. Curiosamente, também tenho vários originais oferecidos pelo Augusto Trigo e por outros artistas, mas nunca os emoldurei… só o do Péon! E quando o contemplo parece-me que estou a reviver o momento em que aquele grande e querido Amigo mo ofereceu e a minha profunda emoção ao recebê-lo, eu que nunca imaginara ser recompensado com tão preciosa dádiva por um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, um dos meus ídolos de infância, quando era um fervoroso leitor de revistas de banda desenhada como O Mosquito e o Mundo de Aventuras.

Bem, mas isto de recordar velhos tempos e os grandes Amigos que já partiram torna-nos saudosistas, e dizem que o saudosismo é uma espécie de maleita que nos faz ainda mais velhos! Voltando ao conto e à sua nova versão, publicada neste blogue, escuso de chamar a atenção para as muitas alterações que lhe fiz, pois quem ler a primeira (de que seguidamente reproduzo duas páginas, a título de curiosidade) facilmente as irá detectar. Pretendi dar mais consistência aos principais personagens, nomeadamente à professora, ao «vilão» (o execrável Lockman, agente dos índios), ao bêbado e, para terminar, ao guarda da diligência, que é uma espécie de herói da história (assim no género do Malpais Bill, criado por Ernest Haycox, embora os seus papéis sejam muito diferentes). Também mudei o nome dele, de Travers para Travis, que me soa melhor ao ouvido…ma-viagem-perigosa-1-e-25

Ficamos assim a saber que Travis não era só guarda de diligências, pois também já fora batedor, vigilante de saloons, guarda de bancos e de minas, constantemente assaltados por bandidos, e deputy marshal numa cidade fronteiriça. Um currículo apreciável para um pistoleiro! É claro que alguns destes personagens podem ter alguma relação com os do conto de Ernest Haycox (o célebre Stage to Lordsburg), nomeadamente a professora, que também está noiva de um oficial do Exército; mas Billy Harper, o bêbado, por exemplo, foi inspirado numa das figuras do filme Stagecoach («Cavalgada Heróica»), um médico que também não resistia à bebida, interpretado pelo grande actor Thomas Mitchell, galardoado graças a esse papel com o Óscar de melhor actor secundário.

hacia-los-grandes-horizontes-538Importa referir, a propósito, que o mesmo papel coube a Bing Crosby, num remake de Stagecoach realizado por Gordon Douglas em 1966, com um excelente elenco artístico. E Crosby, que não era apenas um cantor romântico ou um actor de comédias, parceiro de Bob Hope em vários filmes de sucesso, demonstrou mais uma vez possuir notáveis recursos dramáticos, numa interpretação que merece também ficar na memória — embora este remake, produzido a cores e em cinemascope, seja bastante inferior em termos cénicos, temá- ticos e artísticos à versão original rodada, em 1939, por John Ford no famoso Monument Valley.

Voltando ao conto, quero frisar que, no caso dos índios (transformados em meros figurantes na short story de Ernest Haycox), pretendi torná-los mais reais, evocando a figura de Mangus Colorado, um dos grandes caudilhos Apaches… já que não podia utilizar a de Geronimo, pois a minha história decorre, como expliquei na nota introdutória, 20 anos antes, quando Geronimo ainda não tinha a notoriedade que conquistou depois.

mangas-coloradas2Nesta nova versão, referi o facto de Mangus Colorado ser sogro de Cochise, outro célebre chefe Apache, e procurei dar-lhe mais realce, pois era, segundo rezam as crónicas, um guerreiro de figura imponente, que os brancos admiravam… embora, mais tarde, o tivessem cobardemente assassinado. Mas isso são outros contos! Também dei mais atenção aos diálogos, apesar de não serem muitos, numa história que (tal como Stage to Lordsburg) vale sobretudo pela acção… ainda que nesse conto o seu efeito seja mais dramático e psicológico, revelando a mestria de Haycox num género considerado como «bang-bang» e pouco mais, pelo menos na sua época.

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

II

Aos solavancos, rangendo de uma ponta à outra, a diligência subiu penosamente uma colina coberta de areia, cascalho e mato rasteiro, onde a trilha se alongava, íngreme e sinuosa, ladeada por cactos de grande porte, com espinhos agudos e acerados como punhais (cuja espécie tem o nome de saguaro). De vinte em vinte metros, uma flor brotava da pele dura e ressequida de um desses gigantes, cheia de laivos que pareciam cicatrizes.

Para Janet, essas milagrosas flores, tão belas e frágeis como outros pequenos seres que povoavam a solidão do deserto, eram uma imagem que não se apagaria do seu espírito, suavizando a agressividade da natureza, quando mais tarde, na intimidade do seu novo lar, recordasse os incidentes e as etapas daquela longa e árdua jornada.

Os estalidos do chicote e a voz forte do cocheiro, que incitava continuamente os cavalos, faziam vibrar a atmosfera carregada de electricidade, ressoando de forma estranha aos ouvidos dos passageiros, como ecos distantes de uma trovoada.

Stuart estava tão habituado ao movimento oscilante da diligência e ao trote cadenciado dos cavalos sobre as longas pistas poeirentas, que quando descia da boleia quase sentia falta de equilíbrio, como um marinheiro ao pisar terra firme.

— Para um tipo como Johnny Stuart — costumava dizer Travis, com um trejeito de bom-humor —, o mundo só está no seu lugar quando vê à sua frente a estrada e a garupa dos cavalos!

Quanto a Travis, era um homem de acção, que já tivera muitas outras profissões, quase sempre associadas a trabalhos perigosos, como batedor do Exército (na sua juventude), vigilante de saloons, guarda de bancos e de empresas mineiras, ou deputy numa pequena cidade junto da fronteira com o México. Gostava da companhia de Stuart e de sentir na cara o ar fresco das manhãs do deserto, antes do sol subir a prumo, agora que a sua missão era proteger os passageiros quando atravessavam o território dos Apaches hostis. Nunca casara nem tivera filhos, mas já amara algumas mulheres e talvez um dia trocasse aquela vida de permanente insegurança por um futuro mais tranquilo, em que as armas fossem postas de lado para sempre.

Uma nuvem cinzenta de poeira pairava no ar e na distância, esfumando a silhueta dos cactos que se estendiam, em longas filas simétricas, estranhamente alinhadas, até aos confins do deserto. Era quase meio-dia e o calor abafado tornava a atmosfera ainda mais tensa, como se a tempestade que inquietara os passageiros estivesse prestes a eclodir. Dentro da diligência, Billy Harper tirou um pequeno frasco do bolso e, com uma risada, ofereceu-o aos outros.

— Tanto melhor! exclamou, perante a recusa geral.

A cabeça do jovem Apache descansava nos joelhos de Janet Simpson. Lockman, carrancudo, olhava em frente, pela janela.

— Estamos quase a chegar! gritou Stuart, debruçando-se da boleia.

A diligência rolava agora em pista aberta, ao trote largo e vigoroso dos cavalos, levantando nuvens de pó que se dissipavam lentamente, como farrapos de neblina, no ar imóvel do deserto. Ao longe, surgiam perfis de colinas, que os raios de sol, filtrados pelas nuvens, tingiam na vertical com uma faixa de cores vivas, lembrando a Janet, que não despregava o olhar maravilhado do horizonte, uma espécie de arco-íris ou de wampum (*) índio, como vira, certa vez, numa gravura.

Indiferente às belezas do deserto, Billy Harper começara a dormitar, oscilando no banco como o pêndulo de um relógio. A maior parte da sua vida, desde que saíra do orfanato, fora passada em saloons, bordéis e casas de jogo. Poucos homens eram capazes de vencê-lo ao poker ou de esvaziar uma garrafa de whisky mais depressa do que ele, e as raparigas que encontrava nesses lugares de má nota faziam-no feliz, sobretudo quando eram ainda muito jovens. Mas um dia teria de se reformar e esse dia já não vinha longe…

Os outros passageiros um tipo bem vestido, de jaqueta nova e brilhantes nos dedos, e um negociante de aspecto próspero, com um nariz adunco de judeu tagarelavam outra vez, enfastiados pelo calor, pela lentidão da jornada e pela monotonia da paisagem. Começavam a sentir-se em segurança, protegidos por Travis e pela sua arma, pela distância que se encurtava a cada salto da diligência. Falavam de negócios, de política e de mulheres, baixando a voz para que Janet não os ouvisse.

A rapariga pensava em Travis e no impulso que a levara a tomar partido por ele e pelo seu protegido índio. Sabia que os outros a censuravam, porque odiavam e temiam os Apaches, e sentia a corrente eléctrica, de aversão, que se estabelecera entre Lockman, Travis e ela.

(*) Wampum  faixa bordada, de várias cores, que algumas tribos índias usavam nas suas cerimónias rituais e que para elas tinha grande significado místico e até guerreiro, sendo também considerada um testemunho sagrado na celebração de um acordo.

Vingança Apache

O bando, como lobos saindo em tropel do seu fojo, surgiu, de repente, à direita da diligência, atroando os ares com gritos selvagens. Sem uma exclamação de surpresa, como se já estivesse à espera deles, Johnny Stuart brandiu o chicote repetidas vezes e os cavalos arrastaram o carro num galope desenfreado, saltando todos os obstáculos, saindo da trilha em perigosos zigue-zagues, os cascos martelando o terreno com um ruído infernal, envoltos numa espessa nuvem de poeira. Travis viu o bando atacante dividir-se em dois e reconheceu o guerreiro que os comandava.

— Mangus Colorado! — gritou a plenos pulmões. Em resposta, Johnny Stuart redobrou as chicotadas e os gritos de incitamento aos cavalos, enquanto o passageiro sentado junto dele tentava desesperadamente equilibrar-se e, ao mesmo tempo, segurar o seu grande chapéu, em risco de ser levado pelo vento.

Dentro da mala-posta, o pânico tinha-se instalado entre alguns dos viajantes. Só Lockman e Janet, que continuava a apoiar no regaço a cabeça do jovem Apache, ainda desmaiado, pareciam mais calmos. Billy Harper, de olhos fechados e mãos cruzadas na barriga, era a figura mais estranha do pequeno grupo.

Debruçado sobre o tejadilho da diligência, com as mãos a segurar firmemente a carabina, Travis começou a disparar. Alguns dos cavaleiros que galopavam à rédea solta, recortando-se como sombras grotescas e movediças no horizonte rubro do deserto, estacaram e caíram bruscamente, como se um muro invisível os tivesse detido. O eco trovejante das detonações espalhou-se pela distância, repercutindo na planície coberta de cactos, nas quebradas dos montes vizinhos.

Apesar dos balanços da diligência, Travis disparava com metódica segurança, sem perder uma bala, contando calmamente cada perseguidor que rolava no terreno… mas evitava, por estranho que pareça, atingir mortalmente os seus alvos.

Mangus Colorado era sogro de Cochise, chefe dos Chiricahuas, e Travis já o vira uma vez, há muitos anos, quando o seu bando de rebeldes ainda não pisara a senda da guerra. Tinha um aspecto imponente e uma voz que inspirava confiança. Travis lembrava-se das suas palavras de paz, que agora pareciam falsas, mas não talvez por culpa dele.

Levantando turbilhões de poeira, perseguidos e perseguidores corriam pela pista. As patas dos cavalos moviam-se numa cadência tão veloz que mal pareciam tocar o solo. As rodas chiavam com um ruído ensurdecedor, como se os eixos ameaçassem partir-se, e os violentos solavancos faziam estremecer a velha diligência, que parecia prestes a soltar-se do timão que a prendia aos cavalos. A certa altura, ferido mortalmente ou por ter perdido o equilíbrio, o passageiro tombou do banco e rolou na poeira. Mas Johnny Stuart nem sequer olhou para trás, porque era inútil pensar em prestar-lhe auxílio.

No interior da carruagem, Billy Harper acordara e olhava melancolicamente o frasco vazio, sem parecer ligar importância aos índios e ao barulho dos tiros. Lockman tinha um revólver nas mãos e começara também a servir-se dele, espreitando pela janela. O rosto de Janet estava pálido, mas sem expressão.ma-viagem-perigosa-3

Johnny Stuart disparava também sobre os Apaches, com um velho Colt que só utilizava em situações de emergência, e um guerreiro mais audacioso que se aproximara perigosamente, tentando abater os cavalos da mala-posta, caiu da sela, como uma árvore ceifada pelo raio.

— Este foi por minha conta! — bradou o cocheiro, com uma entonação de triunfo na voz rouca, meio sufocada pela poeira.

Foi então que o jovem Apache, ágil como um felino, pulou do banco onde estava deitado, ao pé de Janet, para uma das janelas. Lockman soltou um brado de surpresa, mas, antes que alguém pudesse agarrá-lo, o índio içou-se à força de pulso para o tejadilho da diligência.

Travis viu-o aparecer ao seu lado, mas não fez um gesto. Então, tirando a faixa de pano que lhe envolvia a cabeça, o rapaz agitou-a no ar, de pé, num arriscado equilíbrio, sobre o tecto oscilante da mala-posta.

Ao ver o bando de atacantes parar a distância, Travis deixou de fazer fogo. Aproveitando a pequena trégua, Johnny Stuart conseguiu distanciar-se, gritando e chicoteando os cavalos cobertos de suor.

        (continua em breve)                 

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 1

Far west cabeçalho 2 202SENDAS APACHES (por Roy West) – 1ª parte

Nota prévia:  Este conto, escrito há mais de 40 anos — sob o pseudónimo de Roy West (que utilizei em muitos outros), e publicado por duas vezes no Mundo de Aventuras (em 1975 e 1980), com ilustrações de dois grandes nomes da BD portuguesa, Vítor Péon e Augusto Trigo —, é a minha modesta homenagem a um mestre da literatura western, Ernest Haycox, cujo conto Stage to Lordsburg (publicado n’O Mosquito em 1949, com o título A Mala-Posta”, numa excelente tradução de Raul Correia) serviu de tema a um dos melhores westerns de John Ford, o célebre Stagecoach (“Cavalgada Heróica”), com John Wayne no papel que o transformou numa grande “estrela” de cinema.

Sabendo que nunca poderia atingir a intensidade psicológica de Ernest Haycox — que alguns críticos literários não hesitaram em comparar ao grande escritor francês Guy de Maupassant, por causa das analogias entre o conto Boule de Suif e Stage to Lordsburg —, tentei fazer diferente. Enquanto neste último tudo se passa entre os ocupantes da “mala- -posta”, sem haver um contacto mais próximo com os índios que num certo ponto do trajecto a atacam, no meu conto a figura de um chefe Apache, o famoso Mangus Colorado (ou Mangas Coloradas, como lhe chamavam os mexicanos), ganha uma dimensão real quando ele galopa sozinho atrás da diligência e dirige a palavra a Travis, um dos seus condutores e atirador de infalível pontaria, a quem dei um papel de relevo nesta história.

jerónimo249Por outro lado, para tornar mais consistentes as reacções dos viajantes (entre os quais também há uma mulher), servi-me de alguns breves apontamentos biográficos, que espero não tenham quebrado a continuidade da narrativa. Esta decorre, aliás, noutro período, cerca de 20 anos mais cedo, quando Geronimo (mencionado no conto de Haycox) ainda não era o condottieri dos Apaches. Nesse tempo, a fisionomia dos locais onde Ernest Haycox situou a sua história era algo diferente, assim como a actuação dos Apaches hostis num território onde continuavam a ditar a lei, apesar da chusma invasora de soldados, traficantes, aventureiros e colonos. Na realidade, Lordsburg, uma cidade do Novo México, actualmente com cerca de 5000 habitantes, só foi fundada em 1880, mas eu tinha de aproveitar um dos nomes mais míticos da literatura western. Boa leitura!…

Um conto ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

I – Viagem perigosa

No ar ainda frio da madrugada, a diligência corria pelo deserto. Tinha quatro cavalos, atrelados dois a dois, um condutor e um guarda. O condutor chamava-se Johnny Stuart e brandia o chicote como se tivesse pressa de chegar a casa. O guarda, com a espingarda sobre os joelhos, voltava-se de vez em quando na boleia, observando ambos os lados da trilha, ainda imersa em sombras para as bandas do poente, mas ao contrário do seu companheiro estava calmo e impassível.

Dentro da carruagem, Billy Harper enristava os bigodes grisalhos, deitando olhares de soslaio pela janela, abrindo caminho com os seus dichotes de bêbedo à inquietação que lavrava entre os outros passageiros. Na noite anterior, nenhum deles tinha dormido, a não ser durante breves instantes, sempre com o espírito em sobressalto por causa dos índios.

Atravessavam a zona mais perigosa do percurso, onde atrás de cada cacto e de cada colina de areia pairava a presença ameaçadora dos Apaches. Era por isso que Johnny Stuart incitava os cavalos e que Travis, o seu ajudante, de carabina aperrada, sondava a distância percorrida, sob a luz da manhã que inundava o deserto.

Janet Simpson, bonita e atraente como uma actriz de teatro, era a única mulher que viajava na diligência. Mas, agora, o seu rosto estava crispado pela fadiga e pela ansiedade. A viagem, de seis horas desde o último posto de muda, era demasiado dura para uma mulher, mesmo jovem e saudável como ela.

péon-sendas-apaches2501Ao princípio, Janet fora o centro das atenções, mas depressa verificara como as conversas morriam e a inquietação e o medo surgiam no olhar dos seus compa- nheiros, à medida que se internavam em território índio. Era uma estranha viagem, longa e perigosa, quase sempre a coberto das sombras da noite, mas qualquer daqueles homens devia ter, seguramente, razões fortes para fazê-la… razões que ela, por distracção, tentava adivinhar.

Janet era professora. Estava noiva do tenente Cohill, que a esperava em Lordsburg. Queria ficar a viver no Oeste, ter filhos… sem deixar de ensinar. Sabia que nos fortins do Exército havia muitas crianças analfabetas, filhas dos soldados, dos comerciantes e de alguns índios pacíficos que seguiam as guarnições para toda a parte. Por isso, fora com alvoroço que aceitara a proposta de casamento do tenente Cohill, mesmo depois deste ter sido transferido para o Novo México. E tais pensamentos não a abandonavam, amparando-a, suplantando a fadiga, o desânimo e a incerteza dos perigosos caminhos que cruzavam.

À sua frente, ia um homem alto e magro, de bigode negro e olhos frios como aço. Havia algo de viscoso e de antipático na sua figura, “algo que lembrava uma rattlesnake” — pensara Janet, com instintiva repulsa, ao vê-lo subir para a diligência, já a meio da viagem. Ainda não tinham trocado uma palavra, mas o homem fitava-a sem cerimónias, como se a despisse em pensamento, e a cada solavanco mais brusco da mala-posta roçava as suas pernas compridas nas dela, indiferente aos olhares reprovadores dos outros passageiros.

O viajante atrevido chamava-se Will Lockman e era um político falhado que viera do Leste, perseguido pela sua má fama e pelos ataques dos jornalistas. Agora administrava a reserva indígena de San Carlos, embora não nutrisse a menor simpatia ou consideração pelos índios, encarando-os, sobretudo aos Apaches Chiricahuas, como um bando de rebeldes “piolhosos”, hostis a qualquer ideia de progresso e civilização, que tinham de ser tratados sem piedade, mesmo os mais submissos que viviam ainda na reserva.

Apesar da poeira levantada pelo rolar da diligência, Janet afastara a lona que tapava a janela, esforçando-se por observar a paisagem e disfarçar o seu aborrecimento. Flocos de nuvens brancas como algodão flutuavam no céu azul metálico, que os primeiros alvores do dia tingiam de púrpura e sangue. Cactos passavam, numa sucessão rápida, quase fantasmagórica, ao lado da diligência, e a jovem sentia, por vezes, um arrepio ao confundi-los com vultos humanos.

De repente, na boleia, Johnny Stuart praguejou e os cavalos estacaram, poucos metros adiante, com um grande bater de cascos. Travis saltou da diligência e, ante o espanto dos passageiros, dirigiu-se para o leito seco de um arroio que serpenteava entre as rochas. Quando regressou, transportava nos braços, com cuidado, o corpo inerte de um índio. Deitou-o no chão, à sombra da viatura, e sem olhar em torno pegou num cantil, abriu-o e chegou-lho aos lábios.

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Um a um, lutando contra o receio de uma armadilha, os passageiros começaram a descer da diligência. Exceptuando Lockman, os outros nunca tinham visto um Apache. Stuart, com a carabina de Travis em punho, olhava atentamente em volta. O índio era ainda um rapaz, embora robusto para a sua idade. Segurando-lhe a cabeça, Travis ajudou-o a beber. Quando conseguiu abrir completamente os olhos e fixá-los no grupo, o rapaz começou a tremer, os membros contraídos num espasmo de medo animal. Mas, à vista do cantil, agarrou-o e voltou a beber sofregamente.

— Deve ter-se perdido — disse Travis. — Não sei o que foi feito do seu cavalo. Talvez tenha fugido ou morrido de sede…

— Que vamos fazer? Não podemos perder tempo com este selvagem! — retorquiu Lockman, o primeiro do atemorizado grupo a quebrar o silêncio.

Travis encarou-o com firmeza. Ele e Stuart eram, há alguns anos, condutores de diligências. Travis tinha feições duras, curtidas pelo sol do deserto, pela vida livre e errante que levava (ainda mais turbulenta noutros tempos), mas qualquer coisa no brilho dos olhos cinzentos, na atitude resoluta e no timbre franco da voz denunciava o seu carácter honesto, corajoso e leal. Janet Simpson fitou-o, sentindo um impulso de simpatia por aquele homem viril, enquanto ele desafiava calmamente o agente do governo.

— O que vamos fazer, mister Lockman, é levar este rapaz… este “selvagem”!… na nossa companhia. Pouco importa se isso o incomoda, porque a sua autoridade e as suas ideias aqui não contam. Entendido?

Lockman cerrou os punhos, num gesto de raiva, mas não respondeu. Subindo para a boleia, Johnny Stuart disse:

— Resolvam isso depressa. Temos de partir!

Travis olhou em volta, percorrendo os rostos mudos e inquietos dos outros passageiros. Depois, baixou-se e pegou no rapaz, que tinha voltado a perder os sentidos. Uma ruga funda desenhou-se na testa de Johnny Stuart ao pensar que outros membros da tribo talvez já andassem à procura do jovem Apache que se perdera no deserto.

Travis entrou na diligência, depôs o rapaz em posição confortável num dos bancos e, nesse momento, ouviu uma voz dizer-lhe:

— Eu tomo conta dele, mister Travis!

Voltou-se e sorriu para Janet Simpson, cujos olhos azuis brilhavam, com um misto de curiosidade e simpatia.

— Obrigado! — disse simplesmente. Momentos depois, estava de novo no seu posto, ao lado do cocheiro, a carabina sobre os joelhos, os olhos atentos perscrutando a trilha. Um dos passageiros, que usava um grande chapéu à moda do Texas, instalou-se também na boleia, para dar mais espaço a Janet e ao rapaz índio.

Johnny Stuart brandiu o chicote, fustigando as garupas dos cavalos, e a diligência pôs-se de novo em marcha, envolta num manto de calor e de poeira que tornava o ar do deserto, mesmo às primeiras horas do dia, cada vez mais pesado e sufocante.

(continua)