O REGRESSO DE UMA LENDA: LUCKY LUKE

Texto publicado no Público (Suplemento Ipsilon), de 29 de Abril de 2016, de onde o extraímos, com a devida vénia ao autor e ao jornal.

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NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 1

Far west cabeçalho 2 202SENDAS APACHES (por Roy West) – 1ª parte

Nota prévia:  Este conto, escrito há mais de 40 anos — sob o pseudónimo de Roy West (que utilizei em muitos outros), e publicado por duas vezes no Mundo de Aventuras (em 1975 e 1980), com ilustrações de dois grandes nomes da BD portuguesa, Vítor Péon e Augusto Trigo —, é a minha modesta homenagem a um mestre da literatura western, Ernest Haycox, cujo conto Stage to Lordsburg (publicado n’O Mosquito em 1949, com o título A Mala-Posta”, numa excelente tradução de Raul Correia) serviu de tema a um dos melhores westerns de John Ford, o célebre Stagecoach (“Cavalgada Heróica”), com John Wayne no papel que o transformou numa grande “estrela” de cinema.

Sabendo que nunca poderia atingir a intensidade psicológica de Ernest Haycox — que alguns críticos literários não hesitaram em comparar ao grande escritor francês Guy de Maupassant, por causa das analogias entre o conto Boule de Suif e Stage to Lordsburg —, tentei fazer diferente. Enquanto neste último tudo se passa entre os ocupantes da “mala- -posta”, sem haver um contacto mais próximo com os índios que num certo ponto do trajecto a atacam, no meu conto a figura de um chefe Apache, o famoso Mangus Colorado (ou Mangas Coloradas, como lhe chamavam os mexicanos), ganha uma dimensão real quando ele galopa sozinho atrás da diligência e dirige a palavra a Travis, um dos seus condutores e atirador de infalível pontaria, a quem dei um papel de relevo nesta história.

jerónimo249Por outro lado, para tornar mais consistentes as reacções dos viajantes (entre os quais também há uma mulher), servi-me de alguns breves apontamentos biográficos, que espero não tenham quebrado a continuidade da narrativa. Esta decorre, aliás, noutro período, cerca de 20 anos mais cedo, quando Geronimo (mencionado no conto de Haycox) ainda não era o condottieri dos Apaches. Nesse tempo, a fisionomia dos locais onde Ernest Haycox situou a sua história era algo diferente, assim como a actuação dos Apaches hostis num território onde continuavam a ditar a lei, apesar da chusma invasora de soldados, traficantes, aventureiros e colonos. Na realidade, Lordsburg, uma cidade do Novo México, actualmente com cerca de 5000 habitantes, só foi fundada em 1880, mas eu tinha de aproveitar um dos nomes mais míticos da literatura western. Boa leitura!…

Um conto ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

I – Viagem perigosa

No ar ainda frio da madrugada, a diligência corria pelo deserto. Tinha quatro cavalos, atrelados dois a dois, um condutor e um guarda. O condutor chamava-se Johnny Stuart e brandia o chicote como se tivesse pressa de chegar a casa. O guarda, com a espingarda sobre os joelhos, voltava-se de vez em quando na boleia, observando ambos os lados da trilha, ainda imersa em sombras para as bandas do poente, mas ao contrário do seu companheiro estava calmo e impassível.

Dentro da carruagem, Billy Harper enristava os bigodes grisalhos, deitando olhares de soslaio pela janela, abrindo caminho com os seus dichotes de bêbedo à inquietação que lavrava entre os outros passageiros. Na noite anterior, nenhum deles tinha dormido, a não ser durante breves instantes, sempre com o espírito em sobressalto por causa dos índios.

Atravessavam a zona mais perigosa do percurso, onde atrás de cada cacto e de cada colina de areia pairava a presença ameaçadora dos Apaches. Era por isso que Johnny Stuart incitava os cavalos e que Travis, o seu ajudante, de carabina aperrada, sondava a distância percorrida, sob a luz da manhã que inundava o deserto.

Janet Simpson, bonita e atraente como uma actriz de teatro, era a única mulher que viajava na diligência. Mas, agora, o seu rosto estava crispado pela fadiga e pela ansiedade. A viagem, de seis horas desde o último posto de muda, era demasiado dura para uma mulher, mesmo jovem e saudável como ela.

péon-sendas-apaches2501Ao princípio, Janet fora o centro das atenções, mas depressa verificara como as conversas morriam e a inquietação e o medo surgiam no olhar dos seus compa- nheiros, à medida que se internavam em território índio. Era uma estranha viagem, longa e perigosa, quase sempre a coberto das sombras da noite, mas qualquer daqueles homens devia ter, seguramente, razões fortes para fazê-la… razões que ela, por distracção, tentava adivinhar.

Janet era professora. Estava noiva do tenente Cohill, que a esperava em Lordsburg. Queria ficar a viver no Oeste, ter filhos… sem deixar de ensinar. Sabia que nos fortins do Exército havia muitas crianças analfabetas, filhas dos soldados, dos comerciantes e de alguns índios pacíficos que seguiam as guarnições para toda a parte. Por isso, fora com alvoroço que aceitara a proposta de casamento do tenente Cohill, mesmo depois deste ter sido transferido para o Novo México. E tais pensamentos não a abandonavam, amparando-a, suplantando a fadiga, o desânimo e a incerteza dos perigosos caminhos que cruzavam.

À sua frente, ia um homem alto e magro, de bigode negro e olhos frios como aço. Havia algo de viscoso e de antipático na sua figura, “algo que lembrava uma rattlesnake” — pensara Janet, com instintiva repulsa, ao vê-lo subir para a diligência, já a meio da viagem. Ainda não tinham trocado uma palavra, mas o homem fitava-a sem cerimónias, como se a despisse em pensamento, e a cada solavanco mais brusco da mala-posta roçava as suas pernas compridas nas dela, indiferente aos olhares reprovadores dos outros passageiros.

O viajante atrevido chamava-se Will Lockman e era um político falhado que viera do Leste, perseguido pela sua má fama e pelos ataques dos jornalistas. Agora administrava a reserva indígena de San Carlos, embora não nutrisse a menor simpatia ou consideração pelos índios, encarando-os, sobretudo aos Apaches Chiricahuas, como um bando de rebeldes “piolhosos”, hostis a qualquer ideia de progresso e civilização, que tinham de ser tratados sem piedade, mesmo os mais submissos que viviam ainda na reserva.

Apesar da poeira levantada pelo rolar da diligência, Janet afastara a lona que tapava a janela, esforçando-se por observar a paisagem e disfarçar o seu aborrecimento. Flocos de nuvens brancas como algodão flutuavam no céu azul metálico, que os primeiros alvores do dia tingiam de púrpura e sangue. Cactos passavam, numa sucessão rápida, quase fantasmagórica, ao lado da diligência, e a jovem sentia, por vezes, um arrepio ao confundi-los com vultos humanos.

De repente, na boleia, Johnny Stuart praguejou e os cavalos estacaram, poucos metros adiante, com um grande bater de cascos. Travis saltou da diligência e, ante o espanto dos passageiros, dirigiu-se para o leito seco de um arroio que serpenteava entre as rochas. Quando regressou, transportava nos braços, com cuidado, o corpo inerte de um índio. Deitou-o no chão, à sombra da viatura, e sem olhar em torno pegou num cantil, abriu-o e chegou-lho aos lábios.

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Um a um, lutando contra o receio de uma armadilha, os passageiros começaram a descer da diligência. Exceptuando Lockman, os outros nunca tinham visto um Apache. Stuart, com a carabina de Travis em punho, olhava atentamente em volta. O índio era ainda um rapaz, embora robusto para a sua idade. Segurando-lhe a cabeça, Travis ajudou-o a beber. Quando conseguiu abrir completamente os olhos e fixá-los no grupo, o rapaz começou a tremer, os membros contraídos num espasmo de medo animal. Mas, à vista do cantil, agarrou-o e voltou a beber sofregamente.

— Deve ter-se perdido — disse Travis. — Não sei o que foi feito do seu cavalo. Talvez tenha fugido ou morrido de sede…

— Que vamos fazer? Não podemos perder tempo com este selvagem! — retorquiu Lockman, o primeiro do atemorizado grupo a quebrar o silêncio.

Travis encarou-o com firmeza. Ele e Stuart eram, há alguns anos, condutores de diligências. Travis tinha feições duras, curtidas pelo sol do deserto, pela vida livre e errante que levava (ainda mais turbulenta noutros tempos), mas qualquer coisa no brilho dos olhos cinzentos, na atitude resoluta e no timbre franco da voz denunciava o seu carácter honesto, corajoso e leal. Janet Simpson fitou-o, sentindo um impulso de simpatia por aquele homem viril, enquanto ele desafiava calmamente o agente do governo.

— O que vamos fazer, mister Lockman, é levar este rapaz… este “selvagem”!… na nossa companhia. Pouco importa se isso o incomoda, porque a sua autoridade e as suas ideias aqui não contam. Entendido?

Lockman cerrou os punhos, num gesto de raiva, mas não respondeu. Subindo para a boleia, Johnny Stuart disse:

— Resolvam isso depressa. Temos de partir!

Travis olhou em volta, percorrendo os rostos mudos e inquietos dos outros passageiros. Depois, baixou-se e pegou no rapaz, que tinha voltado a perder os sentidos. Uma ruga funda desenhou-se na testa de Johnny Stuart ao pensar que outros membros da tribo talvez já andassem à procura do jovem Apache que se perdera no deserto.

Travis entrou na diligência, depôs o rapaz em posição confortável num dos bancos e, nesse momento, ouviu uma voz dizer-lhe:

— Eu tomo conta dele, mister Travis!

Voltou-se e sorriu para Janet Simpson, cujos olhos azuis brilhavam, com um misto de curiosidade e simpatia.

— Obrigado! — disse simplesmente. Momentos depois, estava de novo no seu posto, ao lado do cocheiro, a carabina sobre os joelhos, os olhos atentos perscrutando a trilha. Um dos passageiros, que usava um grande chapéu à moda do Texas, instalou-se também na boleia, para dar mais espaço a Janet e ao rapaz índio.

Johnny Stuart brandiu o chicote, fustigando as garupas dos cavalos, e a diligência pôs-se de novo em marcha, envolta num manto de calor e de poeira que tornava o ar do deserto, mesmo às primeiras horas do dia, cada vez mais pesado e sufocante.

(continua)

MAURIZIO DOTTI – ARTISTA CONVIDADO NA 3ª MOSTRA DO CLUBE TEX PORTUGAL

Maurizio Dotti

A CARREIRA E A ARTE DE MAURIZIO DOTTI (por Mário J. Marques)

Na história de Tex, não são muitos os desenhadores que entram na série de modo pujante e sem deixar grandes dúvidas das suas reais capacidades. Com El Supremo, Maurizio Dotti chegou, viu e venceu, agarrando personagens e ambientes com um sucesso só ao alcance dos mais dotados.

Maurizio DottiNascido em 10 de Outubro de 1958 em Limbiate (na região da Lombardia), Dotti começa na banda desenhada em 1976, colaborando no estúdio de Giancarlo Tenenti. Em 1982, o teatro colhe as suas atenções, mantendo uma intensa actividade com uma importante companhia milanesa de marionetas, a Carlo Colla & Figli, onde terá oportunidade de ser cenógrafo, actor e figurinista. Em 1983, abandona o teatro e opta por regressar ao desenho, alternando trabalhos publicitários com uma colaboração com Il Giornalino, onde terá oportunidade de adaptar, em 1995, Os Sete Magníficos, para a série 100 Anos de Cinema, e trabalhar em séries como Lassie e Águia Azul.

Ainda em 1995, realiza os esboços de Glorieta Pass para Alarico Gattia, aventura de Tex que foi publicada no Almanacco del West 1998, passando, então, a colaborar mais activamente com a Sergio Bonelli Editore, desenhando dois episódios para Zagor, até chegar a Dampyr, onde terá oportunidade de revelar toda a sua capacidade ao serviço de um género muito específico, fantástico e de terror, onde predominam o escuro e as atmosferas inquietantes.

Maurizio Dotti (nova página de Tex)

Talvez por isso, a sua entrada na série normal de Tex, em 2013, com o episódio El Supremo, tenha colhido ainda mais o elogio unânime, porque ao passar para um género completamente diferente, Maurizio Dotti revela ser um desenhador pleno, seguro e muito habilitado. Pela sua densidade, pelos seus diversos ambientes, pela constante alternância de cenários e situações, El Supremo afigurava-se como um desafio extremamente difícil para um autor que se estreava na série.

Mas Dotti revelou-se um desenhador multifacetado, compondo ambientes perfeitos, seja o velho Oeste como montanhas, pradarias, o deserto, assim como urbanos (São Francisco) e até marítimos, jogando plenamente com efeitos, com movimentos e com enquadramentos, sempre em busca de uma monumentalidade cinematográfica, influenciada por autores como Giraud e Ticci, de quem o autor é admirador. Rio Quemado e Carovana di Audaci são os seus trabalhos seguintes em Tex, encontrando-se actualmente a desenhar uma nova aventura escrita por Mauro Boselli e que recuperará a personagem do “Mestre”.

(Nota: Texto e imagens recolhidos — com a devida vénia aos respectivos autores, Maurizio Dotti, Bira Dantas e Mário João Marques —, no Tex Willer Blog, onde os interessados podem acompanhar toda a informação sobre a 3ª Mostra realizada pelo Clube Tex Portugal no Museu do Vinho Bairrada, Anadia, entre os dias 23 e 24 de Abril).

Maurizio Dotti (poster 3ª Mostra de Anadia)

“TEMPESTADE SOBRE GALVESTON” – UMA EDIÇÃO ESPECIAL DE TEX COM DUAS CAPAS

tex-tempestade-sobre-galveston-capa 1 e 2

Depois do sucesso, no ano passado, com o lançamento de “Patagónia“, a Polvo, uma chancela editorial de Rui Brito, vai publicar um novo Tex Gigante genuinamente português, pois terá uma capa exclusiva para Portugal, lançamento esse que ocorrerá no próximo dia 23 de Abril, em Anadia, durante a 3ª Mostra do Clube Tex Portugal. Tempestade sobre Galveston é, este ano, o volume eleito e o prestigiado desenhador italiano Massimo Rotundo estará presente no evento texiano para abrilhantar o lançamento deste livro, que contém mais uma excelente e incontornável história de Tex, escrita por Pasquale Ruju.

Mas a grande novidade editorial desta segunda aventura da Polvo no mundo de Tex é que, além da capa exclusiva, a editora portuguesa lançará também, em Anadia, a mesma aventura com uma capa variante, capa essa que foi publicada originalmente em Itália, aquando do lançamento de “Tempesta su Galveston“.

Para além do já de si importante feito editorial da Polvo, realce ainda para o facto de Tempestade sobre Galvestonser uma edição rica em extras, em ambas as versões, pois tudo muda quanto a ilustrações de capa, contracapa e badanas (como se pode constatar através das fotos que ilustram este texto), o que a torna um verdadeiro item de coleccionador que decerto será avidamente cobiçado, ao ponto de muitos fãs e coleccionadores acabarem por comprar as duas versões, porque no fundo são duas edições diferentes do mesmo lançamento!

Tex - Tempestade sobre Galveston (badanas)

A apresentação do livro Tempestade sobre Galveston ocorrerá pelas 16 horas de sábado, dia 23 de Abril, no auditório do Museu do Vinho Bairrada e contará com a participação de Massimo Rotundo, Rui Brito e Mário João Marques, sob moderação de João Miguel Lameiras. Seguir-se-á a venda do livro, durante a qual os compradores poderão conseguir um autógrafo do próprio desenhador, pois está prevista no programa uma sessão de autógrafos para esse efeito.

O livro, com tradução de José Carlos Francisco e legendagem de Hugo Jesus, tem um formato de 24,5 x 18,5 cm e uma encadernação brochada, capa mole com badanas, e foi confeccionado num papel de excelente qualidade, estando ainda enriquecido com textos e ilustrações inéditas seleccionadas pelo próprio Massimo Rotundo para as duas versões.

O preço será de €16,99 (IVA inc.), mas os sócios do Clube Tex Portugal (com as quotas em dia!) têm a possibilidade, à semelhança do ano passado, de adquirir o livro na Mostra com desconto, por 15 euros (1,99 euros de desconto sobre o preço em livraria). Os restantes convivas poderão adquirir o livro por 16 euros.

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TEMPESTADE SOBRE GALVESTON

Argumento: PASQUALE RUJUDesenhos: MASSIMO ROTUNDO
Polvo, 2016

O LIVRO

O coronel Woodlord administra ainda a sua plantação de algodão como nos tempos idos da escravatura. Na pista de um bando de ladrões de bancos, Tex e Carson acabam por se ver enredados numa elaborada intriga para encontrar um tesouro, herança de um famoso jogador de cartas e pistoleiro. Quem herda? Eleanor Hood, a fascinante proprietária do “Lucky Smile”, o “saloon” de Galveston, que aprendeu a crescer e a fazer-se respeitar num mundo de homens. Decorrendo num período temporal de poucos dias, esta é uma história plena de peripécias, com reviravoltas sucessivas, num enredo cujos personagens servem para realçar as características clássicas de Tex: a inven- cibilidade, a intolerância contra os agressores e a capacidade de distinguir o certo do errado à primeira vista. Enquanto decorre a acção, ao longe forma-se a tempestade do século que, com estrondo, se irá abater sobre a cidade!

OS AUTORES

PASQUALE RUJU (Nuoro, 1962) forma-se em Arquitectura e chega à Banda Desenhada em 1995, depois de diversas actividades no mundo do espectáculo, tendo sido, por exemplo, figurante em programas de televisão e actor no cinema, no teatro e na televisão. Esta experiência muito contribuiu para Ruju considerar o cinema e a banda desenhada como duas belas formas de expressão através de diálogos e imagens, com a diferença de que na última pode existir outra liberdade criativa, pois não está sujeita a grandes constrangimentos orça- mentais. Depois de passar por várias séries da Sergio Bonelli Editore, como Dylan Dog, Nathan Never, Dampyr ou Martin Mystère, Ruju estreia-se em Tex (2004), com a aventura “Nella Terra dei Klamath”, desenhada por Roberto Diso. Pelo meio cria Demian (2006) e Cassidy (2010), e desenvolve uma crescente actividade em Tex, a que irá imprimir uma narração clássica influenciada por Gianluigi Bonelli, firmando-se na série principal a partir de 2010 com as aventuras “La prova del fuoco” e “Un ranger per nemico”, ilustradas por Ernesto Garcia Seijas.

Massimo Rotundo - 2MASSIMO ROTUNDO (Roma, 1955) é um dos fundadores e docentes da Scuola Romana dei Fumetti e trabalha também para cinema e teatro. Na banda desenhada conta com uma vasta e larga experiência, fruto de uma carreira ecléctica iniciada em 1978. Participou em revistas como L’Eternauta, Comic Art, Orient Express, Heavy Metal ou L’Écho des Savanes, e publicou em editoras como Delcourt, Glénat e Albin Michel. Na Sergio Bonelli Editore desenha para as séries Brendon, Volto Nascosto e Shanghai Devil. Foi distinguido com o prémio Yellow Kid (1990) como “melhor desenhador italiano” e com o Gran Guinigi, em Lucca. Cultiva uma paixão pela criação pictórica, assinando sob o nome de Max Grecoriaz. Artista de grande exuberância criativa, vai alternando a sua actividade pelos vários campos da arte, uma exigência pessoal que não lhe permite especializar-se em determinado sector. Necessitado de estímulos constantes, a possibilidade de desenhar para Tex permitiu-lhe enfrentar um género por ele pouco frequentado: o western.

FICHA TÉCNICA

Tempestade sobre Galveston
Argumento: Pasquale Ruju
Desenhos e capas: Massimo Rotundo
Tradução: José Carlos Francisco
228 pág., p/b, brochado com badanas
24,5 x 18,5 cm, €16,99 (IVA inc.)
Polvo Editora, Abril 2016

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(Nota: Texto e imagens extraídos, com a devida vénia, do Tex Willer Blog. Para aproveitar a extensão completa  das imagens, clique nas mesmas)

ENTREVISTA COM MASSIMO ROTUNDO – ARTISTA CONVIDADO NA 3ª MOSTRA DO CLUBE TEX PORTUGAL

O Clube Tex Portugal realiza, nos próximos dias 23 e 24 de Abril, a sua 3ª Mostra em Anadia e traz, pela primeira vez, Massimo Rotundo ao nosso país, motivo mais do que suficiente para esta entrevista com o ilustre autor italiano que estará presente na capital da Bairrada, assim como o seu colega Maurizio Dotti, ambos com uma exposição dos seus trabalhos no Museu do Vinho Bairrada, onde terá lugar a Mostra.

Caro Massimo, você estará presente em Portugal, numa exposição do Clube Tex Portugal, a decorrer na cidade de Anadia. O que representa para si esse acontecimento, num país estrangeiro?

Massimo Rotundo: Esse convite representa a oportunidade de conhecer pessoas e lugares, além de viver situações para mim inesperadas, visto que, desde que comecei a desenhar Tex, conheci um mundo de aficionados, uma coisa incrível que jamais aconteceu na minha carreira, graças ao fascínio de uma personagem que contagiou milhares de pessoas e que parece imortal. Nos últimos anos não frequentei muitos eventos deste tipo, um pouco por preguiça e um pouco devido aos muitos compromissos de trabalho, por isso esta viagem é uma oportunidade para sentir de novo ao vivo o entusiasmo de quem ama a BD e a apoia.

Massimo RotundoO que convenceu Massimo Rotundo, autor de fama mundial, a aceitar um convite tão invulgar?

Massimo Rotundo: A curiosidade de conhecer Portugal, onde nunca estive. Apesar de ter viajado muito, nunca tive a oportunidade de visitá-lo. E chamou-me a atenção o facto da Mostra acontecer no Museu do Vinho, que é uma das minhas paixões, e isso inspirou-me a desenhar o cartaz com Tex entre as parreiras. E também a convicção de que, juntamente com Pasquale Ruju, fiz um óptimo trabalho, um dos meus melhores no que diz respeito ao género aventuroso [“Tempestade em Galveston”, livro com uma aventura de Tex que será lançado pela Polvo Editora, durante o evento].

Quais são as suas expectativas em relação à 3ª Mostra do Clube Tex Portugal?

Massimo Rotundo: Espero conversar sobre desenho, roteiros, BD e Tex, e espero também desenhar ao vivo, provar produtos locais e admirar paisagens que nunca vi. Aficionados por quadradinhos são óptimos convivas, sejam esses encontros culturais ou não, e isso porque a BD tem muitos pontos em comum com o mundo da imagem, incluindo o cinema e a literatura.

Tem algum contacto com a BD feita em Portugal? Conhece algum autor como, por exemplo, Eduardo Teixeira Coelho, que inclusive viveu e trabalhou durante muito tempo em Itália, e é considerado por muitos como o melhor desenhador de quadradinhos português de todos os tempos?

Massimo-Rotundo (Pasolini)Massimo Rotundo: Nos anos 1990, tive um livro publicado em Portugal, “Pasolini”, escrito por Jean Dufaux e que saiu pela Bertrand, mas não conheci ninguém da editora, porque tudo foi tratado pelo meu agente Aurelio Staletti e pela Glénat Editions. Recordo-me de E. T. Coelho quando ele trabalhava para o mercado francês em revistas como “Vaillant”, mas já não tenho as minhas colecções dessa época. Se não me engano, ele recebeu vários prémios como autor de BD e ilustrador.

Alargando um pouco o horizonte desta entrevista, pode dizer-nos o que o convenceu a entrar para a indústria da banda desenhada?

Massimo Rotundo: Depois de tantos anos, agora tenho bem claro o motivo: na BD concentram-se todas as disciplinas artísticas e isso satisfaz a minha permanente exigência de trabalhar em 360 graus. Além disso, a BD permite construir um projecto com poucos meios e sem filtros. E detalhe não secundário, dá-nos a possibilidade de ter um trabalho contínuo que garante a manutenção da família. Jamais devemos esquecer que nós, profissionais da BD, fazemos um trabalho digno desse nome e que merece grande respeito.

Como analisa a evolução da sua carreira?

Massimo Rotundo: Comecei com sátira política, depois passei à chamada BD de autor e agora trabalho com BD seriada. Geralmente, diferenciar estas duas últimas categorias não faz muito sentido, é só para dar uma ideia da escala temporal. De todo o modo, sempre mantive um bom nível e daria a mim mesmo uma nota oito ou oito e meio (numa escala até dez), mas espero chegar a nove com os próximos trabalhos.

Em que é que está a trabalhar actualmente?

Massimo Rotundo: Estou a fazer um especial que será publicado a cores e dedicado a Brendon, uma personagem de Claudio Chiaverotti, que foi a primeira que desenhei para a Sergio Bonelli Editore. Nesse trabalho, procuro aperfeiçoar os enquadramentos para torná-lo mais dinâmico.

O que sentiu quando recebeu o convite para desenhar o Tex Gigante?

Massimo Rotundo: Para ser franco, primeiro senti-me lisonjeado e depois atemorizado. Disse a mim mesmo: isto é difícil, mas se conheces o teu ofício, é o momento de prová-lo.

Tex (Massimo Rotundo)Para si o que representa e qual a importância de Tex na sua vida?

Massimo Rotundo: No fundo, Tex representa a minha juventude, as longas tardes de Verão a ler as suas histórias. E creio que, tal como para muitos outros, é um ícone que tem uma filosofia de vida própria, que partilho com frequência. Por exemplo, Tex é um dos primeiros heróis do Faroeste que tratou com dignidade os índios e isso antes de se tornar moda.

Para encerrar, gostaria de deixar uma mensagem aos seus leitores e admiradores que estarão presentes em Anadia?

Massimo Rotundo: Será um prazer encontrá-los e podermos falar das nossas experiências. Até breve, em Anadia.

Massimo, agradecemos-lhe muitíssimo pelo tempo que nos dedicou.

Massimo Rotundo: Eu é que vos agradeço.

(Nota: Esta entrevista foi-nos facultada pelo Clube Tex Portugal, a quem apresentamos os nossos agradecimentos, e pode ser lida também no Tex Willer Blog, onde a 3ª Mostra de Anadia tem sido tema de abundante noticiário).

VEM AÍ A 3ª MOSTRA DO CLUBE TEX PORTUGAL!

Cartaz de Maurizio Dotti

Repetindo o que já se tornou uma tradição ansiosamente aguardada, nos primeiros meses do ano, por todos os fãs texianos portugueses (e por muitos outros bedéfilos), vai realizar-se nos próximos dias 23 e 24 de Abril a 3ª Mostra do Clube Tex Portugal, que terá mais uma vez como cenário o belo Museu do Vinho Bairrada, em Anadia.

Este ano, a Mostra conta também com a participação de dois artistas italianos de renome, os desenhadores Maurizio Dotti (na foto da esquerda) e Massimo Rotundo (na da direita), que terão originais dos seus trabalhos expostos no Museu do Vinho, com as pranchas que realizaram para a série Tex Willer, o mais famoso cowboy dos quadradinhos (ou fumetti) transalpinos, publicado há quase 70 anos pela Sergio Bonelli Editore.

Maurizio Dotti e Massimo Rotundo

Entre as presenças já anunciadas, contam-se ainda outras ilustres personalidades do mundo texiano: Dorival Vítor Lopes, director da Mythos, a editora brasileira que publica vários títulos dedicados a Tex Willer e os distribui também em Portugal; Júlio Schneider, tradutor e articulista insigne da mesma editora; e os veteranos tradutores Paulo Guanaes e Tizziana Giorgini, há muito ligados também à aventura editorial de Tex em terras brasileiras; além de Fernanda Martins, tradutora de Tex na Holanda.

Mas haverá mais novidades (no mínimo sensacionais, frisamos nós), porque uma editora portuguesa, a Polvo, dirigida por Rui Brito, vai lançar durante a Mostra um novo Tex Gigante, com a história Tempestade Sobre Galveston, uma longa aventura do destemido Ranger do Texas (228 páginas), com argumento de Pasquale Ruju, desenhos de Massimo Rotundo e tradução portuguesa de José Carlos Francisco, presidente do Clube Tex Portugal (que já o ano passado assinou a tradução de Patagónia, o primeiro álbum gigante de Tex lançado pela Polvo).

Além disso, esta nova edição portuguesa tem uma capa original e exclusiva de Massimo Rotundo, que brindará também todos os texianos presentes no convívio de Anadia com os seus autógrafos. A apresentação da obra, enriquecida com textos e ilustrações inéditas, terá lugar no acolhedor Auditório do Museu do Vinho Bairrada (sábado, 23 de Abril, às 16h00), com participação de Massimo Rotundo, Rui Brito, Mário João Marques e João Miguel Lameiras.

Tex (Tempestade em Galveston)

Os sócios do Clube Tex Portugal (com quotas pagas) poderão usufruir de mais uma regalia, adquirindo in loco esta magnífica edição por preço mais reduzido, à semelhança do ano passado, ou seja, 15 euros (1,99 euros de desconto sobre o preço em livraria). E com direito a autógrafo de Massimo Rotundo. Uma oportunidade a não perder!

Quem puder ir à 3ª Mostra Texiana de Anadia, nos próximos dias 23 e 24 de Abril, ficará certamente com uma inolvidável recordação de mais um grande evento organizado pelo Clube Tex Portugal — que este blogue recém-nascido tem a honra e o prazer de saudar, associando-se ao seu “irmão” mais velho O Gato Alfarrabista.

Cartaz de Massimo Rotundo

Nota: Caro leitor, para ser sócio do Clube Tex Portugal, com direito a receber gratuitamente a sua excelente revista semestral (de que já saíram três números), basta inscrever-se mediante o pagamento de uma jóia de 5,00 €. A quota mensal é de 2,00 € (2,50 € se não for residente no nosso país). Contactar José Carlos Francisco através do Tex Willer Blog.