JOHN WAYNE – O ETERNO “COWBOY”

Durante uma longa carreira, John Wayne (1907-1979) interpretou dezenas de filmes, mas o western foi sempre o seu género preferido, porque simbolizava os ideais dos pioneiros que desbravaram o Oeste americano — e de que ele próprio se tornaria também um símbolo, com as suas personagens fortes, heróicas, maiores do que a vida, que não tardaram a transformá-lo numa lenda do cinema, sobretudo depois do seu primeiro grande êxito em “Stagecoach” (“Cavalgada Heróica”), filme realizado por John Ford em 1938.

John Wayne (nascido, aliás, com o nome de Marion Michael Morrison) já era, nessa altura, uma “estrela” dos filmes da série B, produzidos por estúdios de pequena dimensão como a Republic Pictures, mas ainda não conseguira alcançar o estatuto de vedetas como Tom Mix, Ken Maynard, Buck Jones, Harry Carey ou Hoot Gibson, os autênticos reis do western.

Foi John Ford, realizador também com uma longa carreira, experimentado tanto no western como noutros géneros, que o guindou ao cume da fama, ao escolhê-lo (contra a vontade dos próprios produtores) para o papel do pistoleiro Ringo Kid, em “Stagecoach”, filme que revitalizou o western, demarcando-se pelo seu argumento e pelo seu nível técnico e artístico das películas da série B, de curta metragem e baixo orçamento.

A associação entre Ford e John Wayne — cujo novo nome foi criado, segundo reza a lenda, pelo realizador Raoul Walsh, com quem Marion Morrison trabalhou no épico “The Big Trail”, já com esse nome — durou muitos anos, cimentando uma amizade em que partilhavam o mesmo amor pelos grandes espaços abertos do Oeste americano e a mesma fidelidade aos ideais dos pioneiros, raiz dos seus másculos dogmas políticos conservadores, que, no caso de John Wayne, o fizeram aderir, de alma e coração, ao partido republicano.

A história curta que se segue, reproduzida do Mundo de Aventuras nº 398 – 2ª série, de 28 de Maio de 1981, evoca, pelo traço de Jarry (colaborador do Tintin belga), os principais passos da triunfante carreira cinematográfica de John Wayne e alguns dos filmes que, sob a direcção de John Ford e Howard Hawks, lhe deram um lugar eterno entre os grandes nomes da 7ª Arte.

Nota: a popularidade de John Wayne como ícone do western valeu-lhe ser transformado também em herói da Banda Desenhada, com direito a revista própria, de longa duração, onde colaboraram alguns dos melhores desenhadores americanos dos anos 1950/60, como por exemplo Al Williamson e Frank Frazetta.

Jorge Magalhães

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A LENDA DE CUSTER – 2

A BATALHA DE LITTLE BIG HORN NO CINEMA

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o-intrc3a9pido-general-custerNo cinema, um dos exemplos mais emblemáticos da dualidade entre a História e a Lenda — que, no caso do general Custer, atingiu proporções míticas, fomentadas pelos seus mais fervorosos biógrafos, para quem este nome ecoa através dos tempos “como uma espadeirada”  —, foi o filme de Raoul Walsh They Died With Their Boots On (“Todos Morreram Calçados”), rodado em 1941, com o garboso Errol Flynn no papel do herói e a gentil Olivia de Havilland no da sua fiel esposa Libbie, que sempre o acompanhou e apoiou, com a força inquebrantável de um amoroso carácter, nos momentos mais difíceis ou mais gloriosos da sua carreira. Ainda hoje este filme é recordado pelos cinéfilos que vibraram, na infância, com a espectacular reconstituição da famosa batalha.

Noutro dos seus westerns dignos de registo, “A Caminho de Santa Fé” (Santa Fe Trail), realizado por Michael Curtiz em 1940, Flynn troca de papéis com Ronald Reagan, que interpreta por seu turno a figura de Custer, disputando ao seu parceiro — a quem coube o papel de Jeb Stuart, célebre militar sulista — a mão de Olivia de Havilland.

sc3a9tima-cavalariaO épico combate de Little Big Horn é evocado também no filme “Sétimo de Cavalaria” (7th Cavalry), dirigido por Joseph H. Lewis (1956), em que Randolph Scott encarna um oficial amigo de Custer que sobreviveu à trágica sorte dos seus companheiros por ter pedido licença durante a campanha, o que o expõe às críticas da opinião pública e do próprio Exército. Scott vai participar no inquérito aberto após a derrota do malogrado general, para apurar responsabilidades, e o filme é um dos primeiros a tocar abertamente nessa questão.

Outras versões menos clássicas do que They Died With Their Boots On, mas com outra preocupação de realismo e de veracidade — como Custer of the West, realizada em 1967 por Robert Siodmak, com Robert Shaw no papel do excêntrico e megalómano general, e principalmente “Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), de Arthur Penn (1970), baseada no best seller de Thomas Berger e com o versátil Dustin Hoffman num dos seus melhores desempenhos —, foram realizadas em épocas mais contestatárias, quando o culto dos heróis, por causa dos movimentos sociais e dos efeitos traumáticos da guerra do Vietnam, começou a declinar, em prol de uma crença mais forte no papel da democracia e do homem comum. a-lenda-de-custer-2-4-499É pena que delas não tenha ficado rasto mais duradouro que o do fantasista filme de Walsh (embora espectacular e tecnicamente perfeito), em que Errol Flynn retrata, com a cinéfila galhardia que muitos actores do seu tempo lhe invejavam, a figura de um homem que criou em vida a sua própria lenda… ultrapassando assim, embora sem verdadeira glória, o veredicto implacável da morte.

Em próximos artigos, iremos prosseguir esta sucinta evocação de George Armstrong Custer e da sua última batalha, nas cercanias do Little Big Horn River, com uma listagem (o mais completa possível, mas sem preocu- pações de rigor cronológico) dos principais autores e séries de BD que plasmaram também o tema e as suas históricas peripécias, sob ângulos artisticamente heterogéneos, mas caracterizados pelo total realismo da forma e do conteúdo, num caleidoscópio de imagens capazes de rivalizar em beleza, acção, vigor, plasticidade e dinamismo, com as dos maiores mestres do western cinematográfico. Só lhes falta, por assim dizer, o verdadeiro movimento!