A ORIGEM DE CISCO KID

Texto: Jorge Magalhães

Muitos dos nossos leitores fãs do western desconhecem, certamente, que esta mítica personagem do Cinema e da BD nasceu por obra do famoso escritor norte-americano O. Henry (de seu verdadeiro nome William Sidney Porter), num conto escrito em 1907 e intitulado The Caballero’s Way, que faz parte da antologia O. Henry’s Heart of the West

Na verdade, Cisco Kid, ao princípio, nada tinha de cavalheiresco… era um bandido cujos maus instintos o tornavam temido por toda a gente e perseguido impiedosamente pela lei. Foram o Cinema (onde se estreou em 1914) e posteriormente a Rádio e a Televisão que o transformaram num galante pistoleiro, defensor das damas e das causas justas, e interpretado regra geral — depois de Warner Baxter, no filme In Old Arizona (1929) — por actores de origem hispânica, como Cesar Romero, Duncan Renaldo e Gilbert Roland, ou mais recentemente Jimmy Smits (1994). Pancho, o seu inseparável companheiro de aventuras, e o seu cavalo Diablo, foram também uma invenção do Cinema.

O êxito de In Old Arizona, que proporcionou a Warner Baxter o Óscar de melhor actor — e foi o primeiro western sonoro filmado em exteriores, com perfeita captação dos sons e alguns números musicais à mistura —, abriu caminho a um herói que conquistou os favores do público, mas relegou para o esquecimento a sua verdadeira natureza, na criação original de O. Henry… dando de Cisco Kid a imagem de um bandido de coração generoso, uma espécie de “Robin dos Bosques” do Oeste, que roubava os ricos e ajudava os pobres.

Na fase seguinte, Duncan Renaldo, que faleceu em 1980, tornou-se o mais popular intérprete de Cisco Kid (ao lado de Pancho, cujo papel coube a Leo Carrillo), beneficiando, sem dúvida, do facto de ter sido o primeiro protagonista a aparecer numa série de televisão a cores.

Essa série durou 156 episódios, entre 1950 e 1956, e muito contribuiu também para a popularidade deste carismático cowboy latino nos comic books e nas tiras diárias da imprensa — estas magistralmente desenhadas por José Luis Salinas (como os leitores do Mundo de Aventuras, do Jornal do Cuto e de outras revistas do passado bem se recordam).

Na notícia de jornal, extraída dos nossos arquivos, que a seguir reproduzimos, regista-se a morte de “Cisco Kid” como se de um personagem real se tratasse. Mais um caso em que o mito acaba por confundir-se com a figura do actor que melhor soube encarná-lo no imaginário das plateias. Ciente dessa identificação com o seu personagem, Duncan Renaldo orgulhava-se de ter participado numa série de TV em que a violência era menor do que nos filmes que interpretara, chamando a atenção para o facto de Cisco Kid, durante a sua longa carreira televisiva, nunca ter feito uma vítima entre os bandidos com quem se batia.

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MESTRES DO CONTO “WESTERN”: F. R. BUCKLEY

“O ENGANO DE WILL ARBLASTER” (por F. R. Buckley)

mosquito-887Frederick Robert Buckley, ou F. R. Buckley (1896-1976), é o nome de um escritor americano (mas natural de Inglaterra) que nada dirá à maioria dos visitantes deste blogue, embora não seja totalmente desco- nhecido dos leitores d’O Mosquito, pois foi autor de um conto de Natal traduzido por Raul Correia, no nº 887, de 24/12/1947 (com outra bela capa de E. T. Coelho).

É curioso, e talvez até um pouco insólito, associar o espírito natalício a uma história de cowboys, no sentido mais verídico e realista do tema, mas não foi caso único, pois outro escritor americano mais famoso, com o pseudónimo de O. Henry, fê-lo frequente- mente, recorrendo ao mesmo assunto quando a inspiração assim o ditava.

the-saturday-evening-post-christmas-aparadoNo caso de F. R. Buckley, o seu conto — que recuperámos das páginas d’O Mosquito, a pretexto da recente quadra natalícia e como homenagem a dois nomes que tiveram grande destaque naquela mítica revista, os de Raul Correia e Eduardo Teixeira Coelho — possui ainda a curiosidade de ter sido apresentado centena e meia de números antes da estreia da rubrica Antologia de Contos de Acção, onde foram publicadas muitas histórias do género, algumas de reputados novelistas, na sua maioria norte-americanos (como Jack London, Ernest Haycox, Johnston Mac Culley, James Warner Bellah, C. E. Mulford, Max Brand e o próprio O. Henry), que Raul Correia traduziu com o seu habitual primor literário.

Noventa por cento desses contos eram oriundos (como já tivemos ocasião de referir num post anterior) de um popular magazine americano, The Saturday Evening Post, a que Raul Correia devia ter fácil acesso devido à sua ligação, como gerente comercial, ao Hotel Avenida Palace, frequentado por muitos estrangeiros. Daí também o seu conhecimento de vários idiomas, entre eles o inglês, que falava e escrevia correctamente.

argosy-f-rDe qualquer modo, mesmo que a origem das suas “fontes” fosse outra, o que importa frisar é a grande quantidade e variedade de contos de aventuras que seleccionou e traduziu para essa rubrica — iniciada, ainda sem título, no nº 1032 —, e que já anteriormente tinham começado a aparecer n’O Mosquito, embora de forma esporá- dica, para preencher decerto uma lacuna quando o principal novelista de “serviço”, Orlando Marques, estava ausente, como foi o caso de “O Engano de Will Arblaster”, da autoria de F. R. Buckley.

Refira-se, a título de curiosidade, que este novelista era um apaixonado pelos temas do velho Oeste, mas também abordou com frequência outros géneros literários, como o swashbuckling (aventuras históricas e de capa e espada), em revistas de larga tiragem como Argosy e Adventure, dois célebres pulp magazines que se publicaram, sobretudo o primeiro, durante muitas décadas. A preferência por esses temas devia-se, sem dúvida, ao seu currículo como argumentista e assistente de realização, nos tempos heróicos do cinema mudo.

adventure-4E. T. Coelho fez duas ilustrações para este conto, com um traço mais espesso e sombrio do que era habitual e que nos traz à memória os seus primeiros trabalhos, num vigoroso e aliciante preto e branco, para revistas tão emblemáticas como O Senhor DoutorEngenhocas e O Mosquito. Só um pouco mais tarde, fruto de uma rápida e magistral evolução, daria preferência ao uso do aparo e às linhas de contornos suaves e de textura luminosa, cujo contraste com a técnica do pincel era flagrante.

Aqui fica, pois, reproduzido directamente de um número especial d’O Mosquito, alusivo ao Natal de 1947, o emotivo conto de F. R. Buckley (cujo título original desconhecemos), que revive com mestria o cenário turbulento do Oeste americano, num tempo em que os jovens pistoleiros sem escrúpulos como Will Arblaster não ligavam muita importância ao espírito e aos festejos natalícios. Até conhecerem uma nova realidade, num final digno de O. Henry.

(Para visionar melhor estas páginas, basta clicar sobre elas duas vezes, ampliando-as ao máximo. Boa leitura e até à próxima…)
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