CAPRIOLI E O “WESTERN”: DAKOTA JIM, O “COWBOY” QUE DE VERDE SÓ TINHA A INDUMENTÁRIA

Trazemos-lhes hoje, como uma das curiosidades da nossa Rubrica do Oeste, mais uma magnífica ilustração de Franco Caprioli oriunda da série didáctica Popoli e Paesi (Povos e Países), dada à estampa na revista Il Vittorioso, que como muitos dos nossos leitores já sabem foi aquela onde o grande mestre italiano colaborou mais assiduamente, durante as primeiras décadas da sua fértil carreira.

A segunda curiosidade refere-se ao mesmo cenário, o Oeste americano, e a uma das criações mais singulares e primorosas (tanto em relação ao herói principal como aos desenhos) que saíram das mãos de Caprioli: Dakota Jim, o Cowboy Verde. Bastou o título desta história, dividida em duas partes, para aguçar o interesse dos leitores quando foi estreada no nº 144 do Cavaleiro Andante, em Outubro de 1954.

Infelizmente, Caprioli desenhou poucas histórias de cowboys, embora o tema o seduzisse, sem a menor dúvida, pois oferecia-lhe a oportunidade de espraiar a sua arte pela fauna, pelo folclore (sobretudo das tribos índias) e pelas deslumbrantes paisagens do Oeste americano, como esta aventura comprova em muitas das suas vinhetas.

Mas o Cavaleiro Andante pregou aos leitores uma partida, omitindo sem explicação uma das últimas páginas da história, por sinal recheada também de majestosos quadros da natureza selvagem. Claro que nenhum leitor da revista se apercebeu disso, porque a sequência das cenas (entre os nºs 167 e 168) não parecia interrompida.

Caprioli, com o seu lento ritmo narrativo e o seu amor pela natureza, explorava sempre mais o ambiente e as personagens do que a própria intriga — para ele um elemento quase secundário perante a beleza e o requinte estético das imagens com que decorava as suas páginas. Mas em Dakota Jim, o Cowboy Verde o argumento (sem qualquer relação com temas ecológicos, diga-se de passagem) até era um bom suporte dessa arte narrativa, cuja serena harmonia tanto encantava os leitores de todo o mundo.

Embora Caprioli fosse nitidamente um admirador das famosas séries B que, ainda nos tempos do cinema mudo, entusiasmavam a juventude, com os seus cowboys ágeis, românticos e destemidos — como Buck Jones, Tom Mix, Tim McCoy e outros —, Dakota Jim estabelece uma curiosa ponte entre esses primeiros e convencionais westerns, recheados de lutas, cavalgadas e tiroteios, com a acção e os heróis mais consistentes dos seus sucedâneos (sobretudo a partir dos anos 1940), cujos realizadores começavam também a descobrir a importância dos cenários naturais para cativar as audiências.

Muitos anos depois do Cavaleiro Andante ter publicado esta belíssima história, eu e o José Pires — que editávamos um fanzine chamado Fandwestern, inteiramente dedicado ao universo do Oeste americano, como o próprio título indica — resolvemos recuperá-la, reproduzindo em modestas fotocópias a preto e branco as páginas que Caprioli tinha magistralmente desenhado para nosso deleite, quando éramos mais jovens. E até conseguimos encontrar, numa revista francesa (pois não possuíamos o Il Vittorioso), a página que faltava no Cavaleiro Andante.

Lamentavelmente, nenhum de nós possui ainda a versão original dessa página, mas aqui fica a que publicámos no nº 7 do Fandwestern (Junho de 1996), completando assim, embora sem as magníficas cores de Caprioli, a versão portuguesa de uma das suas melhores criações dos anos 1950 — uma pausa (de certa forma, insólita) no género que mais lhe agradava e que lhe deu maior êxito: as grandes epopeias históricas como Aquila Maris (A Águia dos Mares), Hic Sunt Leones (Através do Deserto), L’Ussaro della Morte (O Hussardo da Morte) e Una Strana Avventura (Uma Estranha Aventura), entre outras.

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“INOCENTE DE QUALQUER CRIME!”

Página ilustrada por Ruggero Giovannini (1922-1983) e publicada na contracapa do Mundo de Aventuras nº 856, de 17 de Fevereiro de 1966.

 BREVE BIOGRAFIA DE GIOVANNINI

Giovaninni, um dos “monstros sagrados” do fumetto italiano, mestre do claro-escuro, com um grande domínio do movimento e da técnica narrativa, mas sempre insatisfeito, em busca da síntese gráfica e do dinamismo na estilização, iniciou a sua prolífica carreira ainda muito jovem nas páginas do semanário católico Il Vittorioso, com histórias de todos os géneros (excepto a ficção científica), que nas suas mãos pareciam adquirir uma estética nova, realçada pelo vigor expressionista do traço.

Muitas delas figuram também no sumário do Cavaleiro Andante (incluindo Álbuns e Números Especiais) e de outras revistas portuguesas, como Mundo de Aventuras, Condor, Titã, Colecção Alvo, Condor Popular — onde foi igualmente vasta a sua produção de westerns dignos de antologia, como “As Grandes Águas”, “A Ultima Fronteira”, “A Vingança de Mocassin Rosso”, “Sombras Selvagens”, “Águia Veloz”, “Em Nome da Lei”, entre outros.

Influenciado pelo estilo de alguns desenhadores americanos, sobretudo Will Gould, Frank Robbins e Milton Caniff, Giovaninni distinguiu-se entre os autores de fumetti da sua geração pela facilidade em retratar ambientes históricos, género em que viria a especializar-se, tanto no Il Vittorioso como em revistas inglesas, para as quais começou a trabalhar nos anos 60, produzindo inúmeras criações com um traço sempre estilizado e a sua refinada técnica do preto e branco.

Entre as suas “coroas de glória” desse período destacam-se as adaptações de vários clássicos literários, como Ben-Hur, Os Três Mosqueteiros e O Último dos Moicanos, e em particular a série Olac, o Gladiador, onde ficou gravada a sua mestria no estilo realista e nas narrativas de temática histórica. Olac foi um dos heróis mais célebres da BD inglesa e fez também as delícias dos leitores do Mundo de Aventuras, que publicou vários episódios.

Durante os últimos anos de vida, Giovaninni colaborou no Il Giornalino, outra célebre revista italiana, para a qual produziu excelentes séries como Capitan Erik, Ricky e I Biondi Lupi del Nord. Morreu prematuramente na sua cidade natal, Roma, em 5 de Março de 1983.

Aqui têm três capas d’O Falcão alusivas a histórias de cowboys que Giovaninni desenhou nos anos 60 e publicadas originalmente na revista inglesa Thriller Picture Library.

RUBRICA DO OESTE – 2

“COWBOYS” DE TODO O MUNDO

Caprioli (Il Vittorioso)

Nesta rubrica, onde continuaremos a apresentar curiosidades e apontamentos verídicos sobre o mítico Oeste americano, figura hoje uma magnífica ilustração de um grande desenhador italiano, um Mestre da BD e da arte das imagens em toda a acepção da palavra, que curiosamente também manifestou apreço pelas histórias de cowboys, tendo oferecido aos seus inúmeros admiradores duas ou três histórias do género, como o memorável Dakota Jim, o “Cowboy” Verde, publicado com grande êxito na revista italiana Il Vittorioso e entre nós no Cavaleiro Andante (1954-55). Todos os leitores dessa época se lembram ainda do seu nome: Franco Caprioli.

Pois Caprioli era um artista versátil e de grande cultura que, além de criar excelentes histórias aos quadradinhos, recheadas de belas imagens (como podem ver na página reproduzida mais abaixo, pertencente ao 1º episódio de Dakota Jim), gostava de ensinar através desse lúdico e eficaz meio de expressão, cujas potencialidades reconhecia e admirava, abordando variadíssimos temas sobre a história, a arte e a cultura dos povos, desde os tempos mais remotos até à época em que viveu. E sempre com um profundo poder de erudição e um virtuosismo gráfico que deixava os leitores maravilhados.

Caprioli (Dakota Jim)No caso vertente, esta primorosa ilus- tração, intitulada romanticamente Os Famosos Mosqueteiros da Pradaria”, mostra-nos como eram os cowboys em várias partes do mundo e não apenas no território onde o seu carismático nome nasceu e se tornou mais popular: os Estados Unidos da América. Traduzido para espanhol, o nome dos guardadores de bovinos é vaquero e esses genuínos rivais dos cowboys do Texas, do Kansas e do Arizona encontram-se ainda nalguns países da América do Sul, onde as imensas e desertas pradarias cobertas de erva podem também rivalizar com as da América do Norte.

Alguns dos vaqueros retratados por Caprioli são originários do México, da Bolívia e da Argentina; quanto a estes últimos destacam-se, com especial relevo, pelo seu pitoresco, o trajo, a montada e as “armas” dos gauchos, nome que designa os lendários heróis das pampas. Também na Europa há cowboys, ainda que de outra espécie menos mítica, como o buttero da Toscânia (Itália) e os cossacos das estepes russas. Estes também gozaram, noutros tempos, de fama universal, graças aos grandes escritores eslavos (Tolstoi, Gogol, Puskin) e ao cinema, e eram comparados aos melhores cavaleiros do mundo, embora se dedicassem mais à guerra do que às lides do gado. Hoje, já não se ouve falar de cossacos na Ucrânia e noutras antigas regiões da Rússia, cujas tradições mudaram radicalmente.

Posto isto, por que não incluir também nesta nobre selecção dos “Famosos Mosqueteiros da Pradaria” os nossos valentes campinos ribatejanos, que passam a vida a cavalo e sabem lidar com animais mais bravios e corpulentos do que aqueles que os cowboys americanos conduziam pachorrentamente ao longo das suas intermináveis pistas?