O VERDADEIRO OESTE SELVAGEM – 1

As páginas que se seguem, recheadas de magníficas gravuras (com ilustrações de artistas famosos, como Charles Russell, John White, Frederic Remington, Don Lawrence, Peter Archer, Gerry Embleton e outros), e com textos bem documentados sobre a verdadeira história do Oeste americano — com todas as idiossincrasias que transformaram essa realidade num mito e numa epopeia tão transcendentes como outras lendas e mitos universais —, foram reproduzidas de um livro publicado há três décadas pela editora Europa-América, que ao tempo dedicava particular atenção ao western, nomeadamente através de uma colecção de livros de bolso onde figuravam alguns dos melhores autores do género.

Mas a popularidade deste tipo de literatura foi decaindo e hoje é raro aparecer entre nós um livro de cowboys, mesmo quando o cinema relança o tema através da paixão que por ele continuam a nutrir realizadores como Quentin Tarantino ou Clint Eastwood.

Em próximos posts apresentaremos mais excertos deste livro, chamando a atenção para o facto de termos de cortar, por vezes, imagens que abrangem duas páginas, para não ficarem demasiado reduzidas, em formato de página dupla, no espaço mais diminuto do nosso blogue (embora possam ser ampliadas com dois cliques, para facilitar a leitura).   

CINE-WESTERN E LITERATURA – 2

TRUE GRIT ou a maturidade do “Western”

Texto de Jorge Magalhães

indomavel-cartaz-do-filmeEm 17 de Fevereiro de 2011, estreou-se em Portugal, com o título Indomável, um dos filmes mais aguardados pelos cinéfilos que costumam acompanhar febrilmente a corrida aos Óscares, mas também por todos os apreciadores de “westerns” que lamentam que o seu género favorito tenha sido quase votado ao ostracismo pelos produtores de Hollywood, mau grado o êxito, nas últimas décadas, e a qualidade artística de filmes como Silverado (1985), Danças com Lobos (1990), Imperdoável (1992), O Último dos Moicanos (1992), Tombstone (1993), Wyatt Earp (1994), Rápida e Mortal (1995), Desaparecidas (2003), Open Range (2003), O Comboio das 3 e 10 (2007), Duelo de Assassinos (2007), Django Libertado (2012), O Renascido e Os Oito Assassinos (2015) ou Os Sete Magníficos (2016).

A distância temporal entre eles — quando nos lembramos de que no século passado, durante várias décadas, se produziram dezenas de “westerns” por ano, oriundos de pequenos e grandes estúdios — é mais o reflexo do alheamento dos produtores que do desinteresse do público, visto que quase todos conseguiram resultados de bilheteira que superaram as expectativas e até, como nos casos sem precedentes de Danças com Lobos e Imperdoável, os Óscares de melhor filme e de melhor realizador.

jeff-bridges-e-hailee-steinfeld-226x300Em 2016, feito quase idêntico foi alcançado pelo filme O Renascido, que deu a Leonardo di Caprio o Óscar de melhor actor e averbou mais dois prémios noutras categorias. Embora não tivessem conseguido ganhar nenhuma das cobiçadas estatuetas, Indomável (True Grit), um filme dos irmãos Joel e Ethan Cohen, com Jeff Bridges como protagonista, Django Libertado e Os Oito Assassinos, os mais recentes êxitos do irrequieto e polémico Quentin Tarantino, vieram relançar a questão da sobrevivência do “western”, um dos géneros cinematográficos mais antigos, mas que literariamente (salvo raras excepções) perdeu todo o fulgor que teve nos séculos XIX e XX.

Esse filão literário foi intensamente explorado pelos produtores e realizadores de Hollywood, dando origem a inúmeros filmes da série B, de cariz mais comercial do que artístico, mas também a produções ambiciosas, de elevado conteúdo estético, épico e dramático, que enobreceram o género e cimentaram o prestígio dos seus realizadores e intérpretes — como (entre muitas outras) A Caravana Gloriosa, Stagecoach (Cavalgada Heróica), Consciências Mortas, Rio Vermelho, Duelo ao Sol, Forte Apache, Shane, A Desaparecida, Cimarron, O Homem que Matou Liberty Valance, Pequeno Grande Homem ou A Velha Raposa.

charles-portisEste último foi o título dado em Portugal a True Grit, uma novela de Charles Portis adaptada pela 1ª vez ao grande ecrã em 1969, num filme realizado por Henry Hathaway, que valeu ao mítico actor John Wayne o seu primeiro e único Óscar. Em 2010, foi a vez dos irmãos Cohen redescobrirem o livro de Portis, abordando com novo realismo a história de uma obstinada rapariga (Mattie Ross) que contrata um velho xerife alcoólico e rabugento, mas implacável na defesa da lei e destro no manejo das armas (Rooster Cogburn), para ajudá-la a vingar a morte do pai, assassinado por um miserável vagabundo (Tom Chaney) que traíra a sua confiança.

Publicada em 1968, True Grit, a segunda novela de Charles Portis (na foto) — que, depois de participar na guerra da Coreia, se dedicou ao jornalismo, tornando-se escritor por vocação —, conheceu um sucesso imediato graças ao filme de Hathaway, com um John Wayne já envelhecido, mas imponente e audacioso como nunca, de pala no olho e rédeas nos dentes, carregando ferozmente sobre um grupo de bandoleiros, num dos últimos e maiores papéis da sua longa carreira.

Mas só 18 anos depois esse livro seria traduzido para português, numa colecção de saudosa memória, criada em 1982 pelas Publicações Europa-América, a colecção Western, que reuniu muitos autores famosos, desde Zane Grey, Clarence Mulford e Edgar Rice Burroughs (sim, esse mesmo… o criador de Tarzan!) a Louis L’Amour, Frank Gruber, W. R. Burnett, Elmer Kelton — todos norte-americanos, representando a essência do genuíno “western” literário, que nasceu muito antes dos primeiros filmes de “cowboys”.

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Alguns dos títulos incluídos nessa colecção são marcos de fundamental importância na relação entre literatura e cinema “western”, como Shane e Monte Walsh, de Jack Schaefer, Duelo ao Sol, de Niven Busch, O Maioral, de Owen Wister, A Cidade Turbulenta, de Max Brand, Incidente em Ox-Bow, de Walter van Tilburg Clark, Céu Aberto, de A. B. Guthrie Jr., ou mesmo O Último Moicano e Os Pioneiros, de James Fenimore Cooper, considerado por muitos o verdadeiro percursor do género. Todas estas obras foram adaptadas ao cinema, sob a direcção de grandes mestres como George Stevens, King Vidor, Victor Fleming, George Marshall, William Wellman, Howard Hawks e Michael Mann.

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Como ainda é possível encontrar alguns destes livros entre restos de edições da Europa- -América (disponíveis nas suas livrarias), aconselhamos os nossos leitores a não perderem o ensejo de conhecer uma das melhores colecções do género que já se publicaram em Portugal, constituída por 54 volumes em formato de bolso, com preço módico, traduções razoáveis (algumas até bastante boas) e um design gráfico das capas — na sua maioria excelentemente ilustradas por José Pires — que evoca as adaptações cinematográficas, nada ficando a dever ao das suas congéneres estrangeiras.

True Grit (A Velha Raposa), um livro que acabei recentemente de reler, foi o nº 32 dessa colecção, uma das muitas que enchem as minhas estantes, alimentando ainda hoje um insaciável fascínio pelo género. Voltaremos ao assunto muito em breve, neste blogue, com outro grande clássico da literatura western.

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Nota: Quem estiver interessado em ler True Grit, de Charles Portis, tem ao seu dispor outra boa edição portuguesa, com o título do filme dos irmãos Cohen, oportunamente dada à estampa pela Editorial Presença (2011), embora com uma capa muito inferior à que José Pires (com toda a sua experiência e interesse pelo género) desenhou para a colecção Western, da Europa-América, em 1986.

JOSÉ PIRES: ENTRE O CINEMA E A BD – 1

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o-bandido-da-quebradasem-legendaAmante incondicional dos filmes e novelas de cowboys, tendo chegado a traduzir vários livros de autores americanos para uma colecção da editora Europa- -América, cujas capas também ilustrou (imagem ao lado), José Pires especializou-se no western desde o início da sua carreira, devotando-lhe um interesse apaixonado que se reflecte numa vasta soma de conhecimentos sobre as coordenadas históricas e geográficas desse imenso e mítico território recriado pela imaginação de cineastas, desenhadores, pintores e romancistas, as suas figuras lendárias, o folclore e as tradições das tribos índias no seu habitat natural, a vida e os hábitos dos cowboys, as armas, vestuário, cavalos, arreios, selas, estribos e outros utensílios que utilizavam nas suas múltiplas e rudes tarefas diárias.

Na verdade, não conheço ninguém que lhe possa fazer frente nessa matéria… ou que explane com a mesma fluência e erudição, num tom de genuíno entusiasmo, assuntos tão diversificados, sem precisar de recorrer a nenhuma enciclopédia. Prova disso é o seu último trabalho no âmbito do western, uma história com 50 páginas que constitui o primeiro episódio de uma série (infelizmente interrompida, por não ter encontrado editor) a que deu o nome do personagem principal, Buster, identificando este com um dos maiores mitos do western enquanto género cinematográfico: Clint Eastwood.

buster-capa0861Nessa série, Buster é um ranger do Texas tranquilo, mas inflexível — à semelhança do próprio Eastwood nos seus filmes —, que, juntamente com um fiel parceiro, o sargento Gabby Hayes, inspirado na figura de outro actor famoso, Robert Duvall, faz o que um ranger costuma fazer: perseguir e capturar bandidos de toda a espécie, sem temer o perigo e sem recuar perante nenhum obstáculo, no cumpri- mento da sua missão. Mas às vezes os fora-da-lei são um osso mais duro de roer do que os seus perseguidores imaginam e conseguem trocar-lhes as voltas, escapando habilmente entre as malhas da lei, para continuarem os seus assaltos e outras malfeitorias.

O 1º episódio de Buster, intituladoDesperadoes” (A Quadrilha Selvagem), que foca precisamente este tema, foi apresentado por José Pires, como faneditor, num fascículo em formato A4, com 54 páginas, pelo preço de 10 €, que pode ainda ser encomendado directamente pelo e-mail gussy.pires@sapo.pt. ou na conhecida loja de José Vilela, sita nas Escadinhas do Duque nº 19-A, 1200-155, Lisboa.

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Uma bela edição, em tiragem limitada, que os amantes do western e os admiradores do trabalho de José Pires não devem perder. E àqueles que gostam de esmiuçar as relações entre a BD e o cinema, este episódio oferece-lhes um atractivo suplementar, pois está recheado de referências a outros rostos da 7ª Arte, nos quais José Pires se inspirou, como é seu timbre, para dar uma aparência mais realista aos personagens.

Quem for capaz de descobrir todas as identidades ocultas de antigos e modernos “astros” da tela, nessa curiosa e heterogénea galeria de heróis, vilões e figuras secundárias, pode gabar-se de ter uma cultura cinematográfica alguns “furos” acima da média.

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A LENDA DE CUSTER – 1

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a-lenda-de-custer-1Há quase 140 anos, nas longínquas planícies de Montana, situadas no coração do Oeste selvagem, travou-se uma das mais célebres batalhas da guerra sem quartel entre as tribos índias daquele território, do Dakota e do Wyoming — ameaçadas pela invasão dos colonos e pesquisadores de ouro e pela chacina dos bisontes —, e o 7º de Cavalaria comandado pelo general George Armstrong Custer, que muitos dos seus pares consideravam um oficial de élite, estratega brilhante e audaz condutor de homens, capaz de contagiar com o seu exemplo um regimento inteiro.

a-lenda-de-custer-2Foi essa audácia excessi- va que conduziu Custer e os seus soldados ao desastre, naquela manhã de 25 de Junho de 1876, quando cinco companhias do 7º de Cavalaria, que se tinham dividido pouco antes em três colunas, planeando atacar cada uma por seu lado a aldeia dos Sioux, Cheyennes e Arapahoes, reunidos numa grande assembleia de milhares de guerreiros, se viram subitamente envolvidas por aquela imensa “maré” antes de terem tempo de escolher as melhores posições de defesa.

Uma dessas colunas, mais afortunada, conseguiu transpor a galope o pequeno riacho conhecido pelo nome de Little Big Horn e refugiar-se num maciço rochoso coberto de vegetação, onde, sob o comando do major Reno, a-lenda-de-custer-3ripostou vigorosamente aos ataques dos índios, sendo mais tarde reforçada pela companhia do capitão Benteen, que conseguira igual- mente romper o assédio. Entretanto, o esquadrão de Custer, completamente cercado, teve de defender-se a desco- berto, no topo de uma colina onde não havia uma única árvore, e prontamente se viu acossado por uma chusma de guerreiros bem armados, às ordens de Sitting Bull, Gall e Crazy Horse, que como vagas de um mar alteroso se abatiam sem cessar sobre os despro- tegidos soldados, fustigando-os com os tiros das suas carabinas e amedron- tando-os com os seus selvagens gritos de guerra (como retrata a página ao lado, magnificamente ilustrada pelo artista italiano Gino d’Antonio, num episódio da série Storia del West).

Não tardou que o campo de batalha estivesse juncado de cadáveres, entre eles o de George Custer, que — segundo reza a lenda, sempre pronta a mitificar o seu nome, o seu destemor e os seus actos em campanha — se bateu corajosamente até ao último momento, mere- cendo por isso a admiração e o respeito dos índios, ao ponto destes pouparem o seu corpo ao ritual da mutilação e do escalpe, o que não aconteceu com os dos outros militares.

a-lenda-de-custer-5Esta célebre batalha, em que pereceram ingloriamente todos os companheiros de Custer, num total de cerca de 212 baixas (incluindo quatro membros da sua família), fortaleceu ainda mais a lenda do 7º Regimento de Cavalaria e, por paradoxal que pareça, a do comandante audaz mas insensato que, numa vã ambição de glória, sacrificou o seu destino e o de todos os seus subordinados — com excepção das companhias de Reno e Benteen, cujos sobreviventes conseguiram resistir milagrosamente aos ataques dos índios, até à chegada de reforços.

Foi essa epopeia que a literatura, o jornalismo, a pintura, a rádio, o cinema, a televisão, e por fim a banda desenhada, perpetuaram durante mais de um século, sem cuidar da verdade dos factos (salvo boas excepções, como o minucioso relato de Evan S. Connell, publicado em Portugal pela Europa-América), mas contribuindo ainda mais para endeusar a figura de Custer, mostrando-o quase sempre como um destemido combatente que nenhum perigo e nenhum inimigo, mesmo numericamente superior, faziam recuar… e que só viu a vitória fugir-lhe uma vez, fulminado por um golpe fatal e imprevisto do destino, nesse trágico dia 25 de Junho de 1876 — que aqui iremos recordar novamente, num preito de homenagem ao velho e mítico Oeste e aos seus lendários heróis que acalentaram as fantasias da nossa juventude.