O CÉLEBRE ENCONTRO DE TEX COM BUFFALO BILL

Poster Tex Nuova Ristampa #285

Nesta belíssima “fotografia”, ou melhor, ilustração da autoria de Claudio Villa [actual capista da mais popular série da BD western] vemos em frente ao Wild West Show estacionado na cidade de Nova Orleans, um cumprimento especial entre o famosíssimo Tex Willer e o não menos famoso Buffalo Bill Cody, tendo Kit Carson e Annie Oakley, uma exímia atiradora, como testemunhas desse reencontro entre dois ícones do Velho Oeste.

Desenho inédito no Brasil e inspirado na história “Il ritorno del Maestro”, de Mauro Boselli e Guglielmo Letteri (Tex italiano #435 a #438).

(Imagem e texto extraídos do Tex Willer Blog. Para aproveitar a extensão completa do poster, clique no mesmo).

AS IMAGENS DA BD SERÃO MAIS REALISTAS?

Por Jorge Magalhães

A Banda Desenhada tem destas coisas… Consegue juntar personagens reais com heróis cujas proezas são fruto unicamente da imaginação — neste caso, os nossos bem conhecidos Tex Willer e Kit Carson e duas figuras míticas do lendário Oeste americano, também recriadas pelo cinema e pela BD, Buffalo Bill e Annie Oakley, fielmente retratadas na imagem —, dando um cariz vívido tanto a uns como a outros. O que cria um paradoxo entre ficção e realidade, porque as imagens desenhadas são menos fugazes do que as imagens que brilham e perpassam, rápidas, numa tela de cinema ou num ecrã de TV.

Digamos, por outras palavras, que no nosso imaginário as personagens da BD têm uma dimensão mais real (e, ao mesmo tempo, mais onírica) do que as que figuram em livros, revistas, gravuras ou até filmes. Não só por terem espessura física — a que lhes é conferida pelo traço dos desenhadores —, mas também por terem alma — a que lhes é conferida pelas palavras e pelo pensamento dos guionistas. E também por serem imagens fixas — sem movimento aparente, mas que formam um conjunto e variam de cena para cena, criando uma dinâmica própria —, com as quais o leitor pode estabelecer uma relação mais próxima, pois estão sempre presentes, não se desvanecem como as do cinema, numa sucessão de instantes que nunca se repetem durante a exibição de um filme.

Nos livros podemos imaginar as personagens, o seu aspecto físico, o seu vestuário, as suas maneiras, até os locais onde vivem ou por onde passam, mas não as vemos nem ouvimos as suas palavras, só fixamos o seu pensamento e as suas acções. Estão presentes, mas distantes de nós. Tal como num quadro ou numa fotografia, cujas figuras também são mudas e em que a dinâmica do movimento, mesmo aparente, não existe. Além disso, pertencem ao passado, ao tempo em que foram pintadas ou fotografadas. Somente a BD, arte intemporal, tem o poder de transfigurar as imagens, criando a ilusão de que falam, através dos balões ou filacteras (que são uma extensão da própria voz), e de que estão em movimento, embora permaneçam sempre no mesmo lugar. 

No teatro as personagens ganham outra vida, são reais, de carne e osso, podem até sair do palco para meter conversa connosco. Mas desaparecem quando o espectáculo acaba. Só poderemos voltar a vê-las se regressarmos ao teatro. E com uma certeza: a de que os actores são os mesmos, mas as personagens já se transformaram, já mudaram, mesmo imperceptivelmente, porque nunca há dois momentos de representação iguais. Só no cinema, depois de escolhidos os takes na altura da montagem.

Posto isto, ficam as belas imagens da Banda Desenhada e de Tex Willer, em particular — que são tão imutáveis como as palavras escritas (ou como os fotogramas, quando separados uns dos outros) —, e as suas personagens icónicas, que têm sobre as demais a grande vantagem de viverem num plano dimensional onde o tempo não existe, ao contrário do que se passa nos filmes e até nos livros. Ora vejamos…

Quando estamos a ver um filme, é como se viajássemos no tempo (e as personagens acompanham-nos); quando lemos um livro, é o nosso pensamento que forja a sequência temporal (e as personagens respondem-nos, através da cortina invisível que esconde a sua identidade); quando passeamos o olhar por uma sucessão de imagens de BD é como se estivéssemos parados no tempo… como se fossem elas a guiar-nos por um caminho onde princípio e fim acabam sempre por encontrar-se, num eterno presente.

Cristalizando essa dimensão, a BD (cujos heróis evoluem no tempo, mas raramente envelhecem) torna as suas imagens ainda mais reais. Um hiper-realismo que ultrapassa o de qualquer outra forma de arte!

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A GRANDE EPOPEIA DO “CAVALO DE FERRO”

HOMENS E MÁQUINAS NUMA LUTA DE TITÃS

Hoje, na Rubrica do Oeste, têm lugar de destaque um livro e duas páginas ilustradas pelo dese- nhador espanhol Auraléon, sobre uma das maiores gestas da história  dos Estados Unidos da América: a construção da linha férrea trans- continental na segunda metade do século XIX, que permitiu expandir a civilização desde a Califórnia até ao leste, através das imensas pradarias povoadas até essa data apenas por tribos de índios que não totalizavam um milhão de habitantes, por algumas famílias de colonos que edificavam as primeiras  povoações ou que viviam precariamente em ranchos isolados, e por milhares de bisontes, a principal fonte de alimento dos índios, cujo abate desenfreado por parte dos caçadores ao serviço do “cavalo de ferro” (entre os quais o célebre Buffalo Bill) quase levou à sua extinção, provocando a revolta dos peles-vermelhas.

Num dos seus melhores livros sobre o Oeste americano, profusamente ilustrado e documentado (Editorial Verbo, 1977, 200 págs), cuja capa reproduzimos, o autor francês Jean-Louis Rieupeyrout historiou essa gesta heróica e trágica, ao mesmo tempo — que opôs duas grandes companhias, a Union Pacific e a Central Pacific, num percurso de quase 3.000 kms, onde tiveram de “vencer enormes dificuldades: atravessar desertos e montanhas, lutar contra belicosas tribos índias, fazer gorar assaltos de bandidos… Mas nada deteve a construção das vias férreas, dirigidas por homens para quem nada era impossível: num lado faltou a mão-de-obra e foram-na buscar à China; noutro, os trabalhadores das duas companhias pegaram em armas para disputarem a posse de um ponto estratégico na montanha!”  

Uma extraordinária epopeia do século XIX e um dos sinais precursores do nascimento de uma nova sociedade, impelida pela força motriz da revolução industrial que a Europa exportara para a América e desta se estendeu a todos os continentes.

HERÓIS DO OESTE: BUFFALO BILL

Eis outro artigo do nosso prolífico e assíduo colaborador Carlos Gonçalves — grande especialista de Banda Desenhada e da temática western —, cuja 1ª parte é dedicada a um dos mais lendários heróis do Oeste americano. A 2ª parte, com um tema diferente, abordando a série Grandes Mitos do Oeste — criada por dois nomes incontornáveis da BD espanhola: Josep Toutain e José Ortiz —, será apresentada em breve.

Recordamos que este artigo foi também publicado no fanzine brasileiro Q.I. (Quadrinhos  Independentes), editado por outro grande especialista: Edgard Guimarães.

NOVA SÉRIE DO “FANDWESTERN”, DEDICADA A VÍTOR PÉON – VOL. 1: “UMA AVENTURA DE BUFFALO BILL”

buffalo-bill-peon-thriller296José Pires, especialista, como faneditor, na reedição de clássicos da “época de ouro” da BD portuguesa, inglesa e de outras origens — actividade que exerce há mais de duas décadas —, acaba de nos brindar, abrindo auspiciosamente o ano de 2017, com três volumes de uma nova série do seu Fandwestern, dedicada ao grande desenhador Vítor Péon (ver cartaz no final deste post), a quem se devem, como já assinalámos com o devido realce, as primeiras histórias de cowboys genuinamente realistas criadas por um autor nacional.

Mas o primeiro título desta nova série traz-nos uma absoluta novidade, pois reedita um western de Vítor Péon realizado, em 1958, para a revista inglesa Thriller Picture Library # 119, que era, até agora, inédito entre nós e ao qual José Pires deu o título “Uma Aventura de Buffalo Bill”, depois de o traduzir e legendar.

Trata-se de um magnífico trabalho, que já revela a maturidade de Péon no género western, depois de ter criado um dos seus maiores heróis nas páginas do Mundo de Aventuras: o icónico Tomahawk Tom, cuja popularidade chegou até às últimas décadas do século passado, num fenómeno de revivalismo sem paralelo na BD portuguesa.

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“Uma Aventura de Buffalo Bill” (intitulada no original Buffalo Bill and the Spectre of the Plains) foi realizada por Péon durante uma estadia de alguns meses na Bélgica, ao serviço da Agência Internacional A.L.I, para a qual produziu vários trabalhos destinados ao pujante (nessa época) mercado inglês de publicações juvenis, entre eles uma série de episódios com outro célebre e lendário herói: Robin Hood (que E.T. Coelho, aliás, seguindo um trajecto idêntico, também ilustrou para o mesmo editor inglês).

Exímio em ambos os géneros, histórico e de cowboys, Péon estreou-se com estes trabalhos num exigente e competitivo mainstream onde campeavam, nessa época, alguns dos melhores desenhadores europeus e sul-americanos de histórias aos quadradinhos, nomeadamente Jesús Blasco, D. C. Eyles (autor da capa do Thriller #119), Frank Bellamy, Ron Embleton, Hugo Pratt, Alberto Breccia ou Arturo del Castillo (para darmos apenas alguns exemplos). E o seu sucesso foi tal que não tardou a prosseguir uma nova carreira no Reino Unido, onde se radicou durante alguns anos, primeiro em Dundee (Escócia) e depois em Londres, trabalhando para duas grandes editoras, a D. C. Thomson e a Fleetway.

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Desfazendo alguns equívocos, esclarecemos que o autor literário desta primeira história de Péon para o mercado inglês, que na revista surge com o nome de Barry Ford, era uma talentosa argumentista, com vasta obra no domínio do western — que demonstrou conhecer profundamente —, chamada Joan Whitford. Feita a correcção necessária, porque não era norma nas revistas inglesas (salvo raras excepções) dar liberdade aos desenhadores para escreverem as suas próprias histórias, visto existir nas principais editoras um numeroso e prolífero núcleo de argumentistas, aqui têm mais duas páginas desta trepidante aventura de Buffalo Bill, que nos foram gentilmente cedidas por José Pires.

Este número do Fandwestern já se encontra à venda na Loja de José Manuel Vilela, Calçada do Duque, 19-A, 1200-155, Lisboa, mas pode também ser encomendado ao editor, por quem não mora na capital, bastando escrever para o e-mail gussy.pires@sapo.pt.

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Muito em breve, apresentaremos mais edições primorosamente restauradas por José Pires, com os primeiros westerns de Vítor Péon publicados, na década de 1940, em revistas que deixaram saudades, como O Mosquito e O Pluto, onde este prolífico autor deu largas ao seu esfuziante talento, criando, num estilo dinâmico e emotivo, histórias de todos os géneros profusamente ilustradas, mas ainda com o texto à maneira antiga, isto é, em legendas didascálicas, imitando os comics ingleses dessa longínqua época.

Os interessados podem já adquirir os volumes 2 e 3, com os seguintes episódios: “O Juramento de Dick Storm”, segunda HQ de Vítor Péon publicada, em 1944, n’O Mosquito, e “Três Balas”, outro western cheio de acção, reproduzido d’O Pluto, revista editada por Roussado Pinto em 1945/46 e que durou apenas 25 números.

O volume 4, que apresenta “Falsa Acusação”, a história com que Péon se estreou n’O Mosquito, dois anos e meio antes, só sairá em Fevereiro, mas os leitores desta colecção podem (e devem) fazer já a sua reserva, pois o Fandwestern tem uma tiragem limitada e somente em casos que o justifiquem haverá reedições de números esgotados.

A LENDA DE CUSTER – 3

“MATO SAPA” – A HISTÓRIA TRÁGICA DOS SIOUX

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A propósito da temática centrada na famosa batalha de Little Big Horn e das referências que se encontram nas histórias aos quadradinhos, note-se que poucas são de origem norte- -americana, o que parece revelar apenas uma coisa: os desenhadores europeus sentem uma especial atracção pelo western e, em particular, por temas tão heróicos como o de Custer e do 7º de Cavalaria, que constitui o fulcro de várias e sensacionais abordagens nalgumas séries de grande envergadura — como Garth, Matt Marriott, Jeff Arnold, Mac Coy, Ken Parker, Tex Willer, Magico Vento, Storia del Weste noutras mais “popularuchas”, como Texas Jack e Buffalo Bill, heróis que pertencem ao mesmo genuíno universo dos ícones da História, do Cinema, da Literatura e da Lenda.a-lenda-de-custer-2-7-e-8

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buffalo-bill-maior2Como já nos alongámos demasiado neste intróito (que tivemos de dividir em três posts), hoje apresentamos apenas, em jeito de nota histórica, uma magnífica narrativa sobre a trágica epopeia dos Sioux e de outras tribos das planícies, quando os seus vastos territórios de caça, nas Black Hills — as colinas sagradas a que davam o nome de Paha Sapa —, começaram a ser cobiçados pelos colonos e por hordas de aventureiros famintos de ouro, pois o precioso metal fora descoberto naquelas regiões, durante uma expedição com fins geológicos comandada pelo ainda tenente-coronel Custer. E apesar dos tratados que garantiam aos índios a posse inviolável das suas terras, estas passaram a estar na mira de muita gente, incluindo políticos e chefes militares sem escrúpulos, para quem os acordos a-lenda-de-custer-2-super-indiens521não passavam de letra-morta.

Esta história com 10 pranchas, ilustrada pelo magnífico traço de Jeronaton (anagrama de Jean Torton), foi dada à estampa em finais de 1981 no Tintin Super-Indiens, uma edição extra do famoso semanário belga.

Nota: alguns dos cartazes de cinema que ilustraram o post anterior desta rubrica foram extraídos de um excelente blogue brasileiro dedicado aos filmes de cowboys, que recomendo vivamente a todos os amantes do género: Cine Western, de Pablo Aluísio. Os livros e os exemplares de BD pertencem à minha colecção.

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