MESTRES DO CONTO “WESTERN”: JOHNSTON MC CULLEY – AUTOR DE “O SINAL DO ZORRO” (2)

A NOITE DO ANO NOVO (1ª parte)

Com o título “Antologia de Contos de Acção”, foi publicada n’O Mosquito, a partir do nº 1100, uma excelente rubrica de contos traduzidos e adaptados, na sua maioria, por Raul Correia. O êxito dessa antologia foi tal que se prolongou praticamente até ao final da revista, tendo surgido ainda no nº 1408, a poucas semanas do seu brusco, mas já previsível desaparecimento, no nº 1412, de 24 de Fevereiro de 1953.

McCulley e Guy WilliamsEm homenagem a Raul Correia (tradutor) e aos grandes novelistas do western, passaremos a inserir no nosso blogue uma rubrica semelhante, onde apresentaremos alguns dos autores estrangeiros que desfilaram nessas páginas. Muitos contos d’O Mosquito foram ilustrados, a partir de 1942, pelo melhor artista da “casa” (referimo-nos, claro, a Eduardo Teixeira Coelho), mas na série presente, à base de contos traduzidos do inglês, a sua participação artística foi mais ligeira… como adiante veremos.

Abrimos esta rubrica com um original de Johnston McCulley, novelista americano que se celebrizou por ter criado a figura de um exótico justiceiro mascarado em “O Sinal do Zorro” (The Mark of Zorro), obra que correu mundo e foi várias vezes adaptada ao cinema, à televisão e à BD (ver aquipost anterior). Este conto, com um cabeçalho desenhado por E. T. Coelho, começou no nº 1051 d’O Mosquito, terminando no nº 1054, de 30 de Julho de 1949. Como é demasiado longo para o publicarmos de uma só vez, decidimos seguir o mesmo esquema, dividindo-o também em quatro partes.

Fazemos votos para que todos apreciem o vibrante estilo de narrador de Johnston McCulley, que Raul Correia soube manter e até valorizar na sua tradução.A noite do Ano novo- 1

I

QUANDO alcançou o ponto onde a trilha seguia ao lado dos rails do caminho de ferro, quase tão lisa e fácil como se fosse uma estrada, Patrick Malloy ajeitou-se mais confor­tavelmente na sela e deixou ir o cavalo à vontade, na direcção do poente.

Desde a madrugada que ele vinha a caminho, com pequenas paragens para deixar respirar a mon­tada. Mais de metade da trilha que levava a Copper Citty — que era também conhecida por «O Inferno da Fronteira » — era tão rude que exigia uma forte mão de rédea, além de uns rins sólidos e pouco sensíveis. O último dia do ano, naquela latitude, ao longo da fronteira, era quente e pesado. Malloy limpou o suor da cara com o seu lenço de seda. Enrolou um cigarro e acendeu-o. Semicerrando os olhos, ele podia ver o brilho dos rails sob a luz do poente e as filas de postes que ladeavam a linha. O caminho-de-ferro havia sido construído para servir a região de Copper City, que a descoberta de minas de cobre enriquecera súbita e perigosamente. Tão perigosamente que, em comparação com Copper City, as outras cidades da fronteira e os outros centros mineiros poderiam passar por jardins de infância. A maior parte dos trabalhadores das minas era composta por gente de raças diferentes… que parecia considerar impossível qualquer espécie de acordo ou entendimento pacífico. Muitos eram fugitivos — criminosos que passavam de um para outro lado da fronteira conforme eram mais activamente procurados pela justiça de um lado ou do outro.

Pat Malloy pertencia aos Rangers e o seu inte­resse profissional por Copper Ciry vinha do facto de ali ter sido enviado várias vezes, para impedir distúrbios ou evitar destruições de propriedades. O seu interesse pessoal pelo «Inferno da Fronteira» era consequência da sua primeira visita à estranha ci­dade… desde que encontrara pela primeira vez Lola Wheeler, a filha de Jim Wheeler, que era o chefe da estação do caminho de ferro.

Pat e Lola viam-se uma vez por mês, quando a rotina das patrulhas levava o Ranger para aqueles lados. Mas, às vezes, como no último Natal, as exigências do serviço levavam Pat para longe. Tinha prometido que estaria em Copper City na noite de Ano Novo… e ia a caminho. Jim Wheeler havia declarado abertamente que não consentiria no casamento enquanto Pat pertencesse aos Rangers.

— Não quero que a minha filha fique viúva ao fim de uma semana de casada… ou ainda menos!… — tinha ele dito. E assim Pat decidira demitir-se e estabelecer-se. Ed Catlin, o gerente da Companhia Mineira, tinha um lugar reservado para ele.

Seria uma noite de Ano Novo um tanto espe­cial. Pat não o ignorava. Os saloons estariam abertos toda a noite. Segundo o costume, a meia-noite seria saudada com uma formidável salva de tiros de revólver — Pedro Lopez, o dono do maior saloon, daria o sinal para isso — e muitos homens excitados pela bebida teriam os seus colts nos cin­turões. Pat ia pensando que seria bom que não tivesse de intervir em nada… mas considerava essa hipótese bem pouco provável…

A porta abriu-se no momento em que Pat des­montava e Lola veio a correr de dentro de casa.

— Oh, Pat! Estou tão contente por teres podido vir!

— Tenho pena de não ter cá estado na noite de Natal, querida!

— De qualquer modo… estás cá hoje e eu estou bem contente!

Lola apertou com ternura o braço do noivo.

— Preparei uma ceia catita para esta noite!

Entraram pela porta que dava directamente para a cozinha e, enquanto bebia uma chávena de café quente, Pat notou que Lola parecia preocupada. Jim Wheeler, espreitando pela porta que comuni­cava com o seu pequeno escritório, acenou amigavel­mente para o Ranger.

— Posso guardar o meu cavalo no seu alpendre, Mr. Wheeler?

— Eu vou consigo! — respondeu o pai de Lola. — Minha filha, presta atenção ao telégrafo! A porta fica aberta!

Seguiram ao lado um do outro até ao alpendre, falando disto e daquilo. Bruscamente, Pat voltou-se para o companheiro:

— O que é que o preocupa, Mr. Wheeler?

A face de Jim Wheeler tomou uma expressão de aborrecimento.

— Temos sempre preocupações, amigo! Bart French tem andado por aí!…

— Fez alguma das dele?

— Tem dado à língua… e ele é um inventor de complicações! Foi por isso que Ed Catlin o pôs na rua! Diz-se que se juntou a um bando de contra­bandistas!

— Tenho de ver isso!

— E anda para aí a ameaçar o Catlin! Diz que tem gente para o ajudar, se for preciso!

— Essa gente da fronteira anda por aí? Falo dos brush-poppers

— Desde ontem à noite que começaram a entrar na cidade! Devem vir corridos do outro lado! Talvez seja só para passar a noite de Ano Novo!

— Bem… — disse Malloy — Tenho de dar uma volta pelos saloons, para ver!

— Mas há mais, Pat! Quando Bart começou a resmungar ameaças contra Catlin, houve alguém que lhe disse que você estaria na cidade hoje… E Bart afirmou que isso o alegrava muito, porque tinha contas a ajustar! Você fez com que ele fosse preso, há dois anos!…

— Bom, então é um caso pessoal! Hei-de falar com Bart French!

— Cuidado, Pat! Os mineiros e os brush-poppers não se podem ver! Deve haver sarilho… e podem armar-lhe alguma emboscada!

— Um Ranger tem de estar preparado para tudo, amigo! Obrigado!

(continua)

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