NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 3

Far west cabeçalho 2 202

SENDAS APACHES (por Roy West) – fim

vinheta-pc3a9on-indios874Eis a conclusão do conto «Sendas Apaches», que, sob o pseudónimo de Roy West, publiquei no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), com ilustrações de Vítor Péon — como podem ver na imagem junta — e em nova versão no Mundo de Aventuras nº 353 (2ª série), de 10/7/1980, dessa feita ilustrado por Augusto Trigo, um novel talento descoberto pouco tempo antes, mas cujos trabalhos já davam brado entre os leitores.

Já lá vão mais de 35 anos e parece que foi ontem! São memórias suscitadas pelas ilustrações do Trigo, que tinha chegado a Portugal, vindo da Guiné-Bissau, no ano anterior. Conheci-o na redacção do Mundo de Aventuras (MA), onde ele apareceu em Setembro de 1979, para apresentar alguns originais, e como é óbvio «deitei-lhe a mão» imediatamente, pois desenhadores com aquele potencial e, ainda por cima, descobertos por acaso, não se encontram todos os dias. A nossa colaboração começou logo aí, primeiro com capas para o MA, ilustrações para contos, não só meus como de outros novelistas, nomeadamente o Roussado Pinto e o Orlando Marques, artigos, etc.

o-visitante-maldito875A sua primeira BD publicada no MA foi «O Visitante Maldito», a história que me mostrou nos tais originais que trouxera da Guiné, com a esperança de encontrar um editor interessado, e que logo me chamaram a atenção, assim como a outros responsáveis da Agência Portuguesa de Revistas (APR), o Baptista Rosa, director-geral, e o António Verde, director do MA. Estes deram-me carta branca e, a partir desse dia, embora não pudéssemos pagar muito, o Trigo foi angariado como desenhador da APR e logo deu nas vistas entre os seus insignes «pares». Refiro-me aos outros colaboradores artísticos do MA — sobretudo o Baptista Mendes e o Zenetto —, que até aí tinham sido a «prata da casa», com a incumbência de ilustrar todos os textos, incluindo alguns contos da minha autoria (com o Baptista Mendes fiz também a minha primeira BD, «A Lenda de Gaia», publicada no MA nº 143), e que assim ficaram mais livres para outras tarefas, continuando ao serviço da revista.

a-sombra-do-gavic3a3o-876Quanto ao Trigo, não tardou a desenhar a sua segunda história, «A Sombra do Gavião», baseada num argumento meu, revelando-se, desse jeito depois de «Sendas Apaches», publicado pouco tempo antes —, um artista exímio no domínio do western.

A título de curiosidade, assinalo que o Mundo de Aventuras ia, então, no seu 31º ano de existência, sinal de longevidade e de sucesso que nenhuma outra publicação juvenil podia reivindicar também para si, pois todas as que tinham visto nascer o MA — O Mosquito, Diabrete, Lusitas, Camarada — e as que vieram depois Cavaleiro Andante, Titã, Flecha, Fagulha, Valente, Jacto, O Falcão, etc. já não apareciam nas bancas há muito tempo. Apenas o Tintin, na sua versão portuguesa, estreada em 1968, numa parceria da Livraria Bertrand e da Editorial Íbis, competia em termos de igualdade, apostando na BD franco-belga, com os heróis de outras origens, nomeadamente norte- -americanos e ingleses, que o MA continuava a publicar.

ma-353-877Mas, curiosamente, também este buscava novos rumos, aderindo sem reservas (a não ser as impostas por exclusivos editoriais) a essa escola europeia recheada de grandes valores como era o caso de Hermann, já famoso graças a criações como Comanche e Bernard Prince, e que no início da sua carreira deu também forma e substância, em colaboração com Laymilie (Jean-Luc Vernal), a uma personagem histórica chamada Jugurtha, cujas proezas se inspiravam em episódios verídicos ocorridos no século III a.C., durante as campanhas dos Romanos contra os Númidas.

Foi essa série (prosseguida depois por Franz Drappier) que serviu de tema principal (e de capa) ao MA nº 353, em que Augusto Trigo ilustrou também a segunda versão deste conto… que volta, agora, a palmilhar as pistas poeirentas do velho e selvagem Oeste americano, depois de pacientemente revisto e melhorado (mais uma vez) pelo seu escriba. Boa leitura!

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

 III

O olhar calmo de Travis fitou o rapaz índio, que se ajoelhara para não cair, agarrando-se ao varão do tejadilho, e depois pousou-se no cano fumegante da carabina. Restavam-lhe ainda algumas balas, mas não chegavam para vencer outro combate… e os Apaches deviam saber isso. No instante seguinte, um deles correu atrás da diligência.

Não dispares, rosto-pálido! gritou o rapaz. É Mangus Colorado!

Pelo rosto tisnado de Travis perpassou um leve sorriso e, em voz firme, ordenou a Johnny Stuart que parasse. Era uma ordem tão estranha que o cocheiro, em vez de obedecer, chicoteou furiosamente os cavalos. Mas o perseguidor corria como o vento — uma espécie de diabo vermelho, montando um ciclone de fogo e areia — e não tardou a ganhar terreno, atravessando-se no caminho da mala-posta. Stuart foi forçado a parar, praguejando.

Erguendo um braço para mostrar que estava desarmado, o Apache aproximou-se, sem que a sua atitude traísse qualquer sinal de ameaça. Por mímica, o rapaz falou ao altivo guerreiro, cuja face era sulcada por uma larga pintura de guerra. Depois, este exclamou, numa voz profunda que parecia reboar sobre as colinas:

— Eu sou Mangus Colorado e vim buscar o jovem imprudente que se perdeu no deserto. Os brancos encontraram-no e salvaram-lhe a vida. São nossos inimigos, mas podem partir em paz, sem receio dos Apaches!

Fez uma pausa e olhou atentamente para Travis, que voltara a sentar-se na boleia, ao lado de Stuart, com a espingarda sobre os joelhos.

— Reconheço-te, ó grande atirador que sabes desmontar um Apache sem o matar! Já te vi uma vez, quando usavas o chapéu de soldado, no tempo em que Mangus e o general Crook eram amigos. O rapaz contou-me o que fizeste. A tua acção será lembrada!

O sorriso de Travis acentuou-se, dando uma súbita bonomia ao seu rosto de linhas duras.

— Tens boa memória, grande chefe! Também te reconheci, à frente dos teus guerreiros, imune às balas e veloz como o vento! A fama de Mangus Colorado é grande entre o seu povo e os seus inimigos!

Depois, batendo no ombro do condutor, disse-lhe em voz baixa:

— Podes agradecer à nossa boa estrela, Johnny. Ainda não é desta vez que ficamos pelo caminho!

Stuart franziu o sobrolho e resmungou, entre dentes, cuspindo para o lado:

— Não sejas tão optimista! Se as coisas não acalmarem por aqui, as nossas carcaças acabarão por servir de petisco aos abutres e aos coiotes! Já é tempo de mudar de trajecto!

A distância, o resto do bando continuava parado, olhando a cena. Janet viu o jovem Apache saltar agilmente para a garupa do cavalo de Mangus Colorado e suspirou de alívio, pela primeira vez. O pesadelo acabara.

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O rosto de Lockman gotejava de suor. Havia uma expressão de raiva demente nos seus olhos. Janet viu-o erguer o revólver e fazer pontaria pela janela. Gritou, enquanto os dois Apaches se afastavam num trote curto, orgulhoso.

“O idiota!”, pensou Travis, ao ouvir o grito de Janet. Mas nada podia fazer. A bala de Lockman ia partir, quando Mangus Colorado, voltando-se na sela com rapidez incrível, ergueu o braço direito. Uma faca voou, silvando, e Lockman tombou sobre o banco. Ao mesmo tempo, um clamor agudo vibrou nos ares. Travis engatilhou instintivamente a espingarda, enquanto o cocheiro, com um arrepio na espinha, brandia o chicote, forçando os cavalos da equipagem a recorrer às suas últimas forças.

— Eh! Eles voltam para trás! gritou Billy Harper, com o seu falsete de bêbedo.

Era verdade. Os Apaches desapareciam ao longe, numa nuvem rolante de poeira. Johnny Stuart soltou um berro de alegria e Travis, baixando o cano da arma, pensou em Janet e no seu grito de aviso, sem conter a admiração pela bonita professora, de olhos claros e brilhantes como um regato na Primavera, cujo espírito generoso e destemido a distinguia dos outros passageiros.

O fim da jornada

Saltando e rolando sobre as pedras do caminho, com a poeira a escorrer entre as rodas — como areia que deslizasse numa ampulheta, anunciando o fim cada vez mais próximo da viagem —, a mala-posta transpôs mais um maciço de colinas, depois das quais os passageiros avistaram as casas baixas de Lordsburg, envoltas numa névoa de calor que, à distância, parecia a superfície trémula de um lago.

Embora ficasse na pista das diligências e estivesse a poucas milhas de um posto militar, Lordsburg não passava de um pequeno aglomerado de construções modestas, que só anos mais tarde dariam origem a uma povoação importante.

Na rua principal apareceu gente a recebê-los. Johnny Stuart, com a cara coberta por uma máscara de poeira, os dedos enclavinhados nas rédeas como garras, conduziu os cavalos para o largo, parando diante de um pequeno armazém, a curta distância do hotel, o edifício mais alto e de melhor aspecto que existia em Lordsburg.

A multidão de curiosos engrossara e ouviam-se comentários aqui e além. Os passageiros começaram a descer. Travis viu um jovem e empertigado oficial do Exército, cuja espada quase roçava pelo chão, encaminhar-se para Janet Simpson, sorrindo. Beijaram-se ali mesmo, num arroubo amoroso, esquecidos do mundo, indiferentes aos estranhos que os rodeavam. Uma expressão de radiante felicidade iluminava o rosto da rapariga. Ao afastar-se, ela olhou para Travis, por cima do ombro.

Dois homens desceram o ferido, outro correu a chamar o médico. Billy Harper apeara-se também e hesitava, no meio do largo, olhando a tabuleta do saloon mais próximo. À porta, encostada ao batente, uma jovem de lábios vermelhos e vestido muito decotado parecia a imagem viva da tentação. Billy suspirou e dirigiu-se para ela.

Desviando o olhar dos curiosos aglomerados em redor da diligência, Stuart exclamou, num tom meio pesaroso:

— Perdemos um passageiro! Eu bem lhe disse que se agarrasse ao banco, mas o pobre diabo tremia como varas verdes! Alguém tem de ir buscar o corpo, para lhe fazerem um enterro decente. E Lockman… safar-se-á desta?

Travis respondeu, encolhendo os ombros:

— Conheces algum patife que não tenha a pele dura? O Doc trata dele. Creio que Mangus quis ser clemente, por nossa causa. Lockman ficará com uma cicatriz e uma recordação de um chefe Apache que muitos lhe hão-de invejar!… O punhal de Mangus Colorado!

Johnny Stuart fez uma espécie de careta, cuspiu para o lado, como era seu hábito, e rematou, esfregando a barba rija:

— Foi uma sorte dos diabos, rapaz! Quando ouvi a gritaria dos índios, pensei que tinha soado a nossa última hora! Mas a tua boa acção salvou-nos… E a carripana portou-se bem! Se não lhe pegarem fogo ou a crivarem de balas, ainda pode durar muitos anos!

Lembrando-se do olhar da jovem professora, Travis sorriu, um sorriso taciturno em que havia a insónia dos longos dias e das longas noites de marcha, em vigilância constante, e o cansaço da sua vida solitária. Depois, desceu da boleia, com a espingarda debaixo do braço, e em passos firmes e vagarosos encaminhou-se para o hotel.

FIM

Para (re)ler as duas primeiras partes deste conto, clicar aqui e aqui

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