NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 2

SENDAS APACHES (por Roy West) – 2ª parte

ma-especial-11Este conto, como já tive ocasião de referir, fez a sua estreia no Mundo de Aventuras Especial nº 1 (Maio de 1975), numa versão com o título «Viagem Perigosa», que teve o privilégio de ser ilustrada pelo saudoso Vítor Péon. Um desses desenhos, de grande formato, representando a cena em que os Apaches atacam a diligência, e cujo original ele me ofereceu, está ainda hoje emoldurado num quadro que ornamenta uma das paredes da minha casa. Curiosamente, também tenho vários originais oferecidos pelo Augusto Trigo e por outros artistas, mas nunca os emoldurei… só o do Péon! E quando o contemplo parece-me que estou a reviver o momento em que aquele grande e querido Amigo mo ofereceu e a minha profunda emoção ao recebê-lo, eu que nunca imaginara ser recompensado com tão preciosa dádiva por um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, um dos meus ídolos de infância, quando era um fervoroso leitor de revistas de banda desenhada como O Mosquito e o Mundo de Aventuras.

Bem, mas isto de recordar velhos tempos e os grandes Amigos que já partiram torna-nos saudosistas, e dizem que o saudosismo é uma espécie de maleita que nos faz ainda mais velhos! Voltando ao conto e à sua nova versão, publicada neste blogue, escuso de chamar a atenção para as muitas alterações que lhe fiz, pois quem ler a primeira (de que seguidamente reproduzo duas páginas, a título de curiosidade) facilmente as irá detectar. Pretendi dar mais consistência aos principais personagens, nomeadamente à professora, ao «vilão» (o execrável Lockman, agente dos índios), ao bêbado e, para terminar, ao guarda da diligência, que é uma espécie de herói da história (assim no género do Malpais Bill, criado por Ernest Haycox, embora os seus papéis sejam muito diferentes). Também mudei o nome dele, de Travers para Travis, que me soa melhor ao ouvido…ma-viagem-perigosa-1-e-25

Ficamos assim a saber que Travis não era só guarda de diligências, pois também já fora batedor, vigilante de saloons, guarda de bancos e de minas, constantemente assaltados por bandidos, e deputy marshal numa cidade fronteiriça. Um currículo apreciável para um pistoleiro! É claro que alguns destes personagens podem ter alguma relação com os do conto de Ernest Haycox (o célebre Stage to Lordsburg), nomeadamente a professora, que também está noiva de um oficial do Exército; mas Billy Harper, o bêbado, por exemplo, foi inspirado numa das figuras do filme Stagecoach («Cavalgada Heróica»), um médico que também não resistia à bebida, interpretado pelo grande actor Thomas Mitchell, galardoado graças a esse papel com o Óscar de melhor actor secundário.

hacia-los-grandes-horizontes-538Importa referir, a propósito, que o mesmo papel coube a Bing Crosby, num remake de Stagecoach realizado por Gordon Douglas em 1966, com um excelente elenco artístico. E Crosby, que não era apenas um cantor romântico ou um actor de comédias, parceiro de Bob Hope em vários filmes de sucesso, demonstrou mais uma vez possuir notáveis recursos dramáticos, numa interpretação que merece também ficar na memória — embora este remake, produzido a cores e em cinemascope, seja bastante inferior em termos cénicos, temá- ticos e artísticos à versão original rodada, em 1939, por John Ford no famoso Monument Valley.

Voltando ao conto, quero frisar que, no caso dos índios (transformados em meros figurantes na short story de Ernest Haycox), pretendi torná-los mais reais, evocando a figura de Mangus Colorado, um dos grandes caudilhos Apaches… já que não podia utilizar a de Geronimo, pois a minha história decorre, como expliquei na nota introdutória, 20 anos antes, quando Geronimo ainda não tinha a notoriedade que conquistou depois.

mangas-coloradas2Nesta nova versão, referi o facto de Mangus Colorado ser sogro de Cochise, outro célebre chefe Apache, e procurei dar-lhe mais realce, pois era, segundo rezam as crónicas, um guerreiro de figura imponente, que os brancos admiravam… embora, mais tarde, o tivessem cobardemente assassinado. Mas isso são outros contos! Também dei mais atenção aos diálogos, apesar de não serem muitos, numa história que (tal como Stage to Lordsburg) vale sobretudo pela acção… ainda que nesse conto o seu efeito seja mais dramático e psicológico, revelando a mestria de Haycox num género considerado como «bang-bang» e pouco mais, pelo menos na sua época.

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Um “western” ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

II

Aos solavancos, rangendo de uma ponta à outra, a diligência subiu penosamente uma colina coberta de areia, cascalho e mato rasteiro, onde a trilha se alongava, íngreme e sinuosa, ladeada por cactos de grande porte, com espinhos agudos e acerados como punhais (cuja espécie tem o nome de saguaro). De vinte em vinte metros, uma flor brotava da pele dura e ressequida de um desses gigantes, cheia de laivos que pareciam cicatrizes.

Para Janet, essas milagrosas flores, tão belas e frágeis como outros pequenos seres que povoavam a solidão do deserto, eram uma imagem que não se apagaria do seu espírito, suavizando a agressividade da natureza, quando mais tarde, na intimidade do seu novo lar, recordasse os incidentes e as etapas daquela longa e árdua jornada.

Os estalidos do chicote e a voz forte do cocheiro, que incitava continuamente os cavalos, faziam vibrar a atmosfera carregada de electricidade, ressoando de forma estranha aos ouvidos dos passageiros, como ecos distantes de uma trovoada.

Stuart estava tão habituado ao movimento oscilante da diligência e ao trote cadenciado dos cavalos sobre as longas pistas poeirentas, que quando descia da boleia quase sentia falta de equilíbrio, como um marinheiro ao pisar terra firme.

— Para um tipo como Johnny Stuart — costumava dizer Travis, com um trejeito de bom-humor —, o mundo só está no seu lugar quando vê à sua frente a estrada e a garupa dos cavalos!

Quanto a Travis, era um homem de acção, que já tivera muitas outras profissões, quase sempre associadas a trabalhos perigosos, como batedor do Exército (na sua juventude), vigilante de saloons, guarda de bancos e de empresas mineiras, ou deputy numa pequena cidade junto da fronteira com o México. Gostava da companhia de Stuart e de sentir na cara o ar fresco das manhãs do deserto, antes do sol subir a prumo, agora que a sua missão era proteger os passageiros quando atravessavam o território dos Apaches hostis. Nunca casara nem tivera filhos, mas já amara algumas mulheres e talvez um dia trocasse aquela vida de permanente insegurança por um futuro mais tranquilo, em que as armas fossem postas de lado para sempre.

Uma nuvem cinzenta de poeira pairava no ar e na distância, esfumando a silhueta dos cactos que se estendiam, em longas filas simétricas, estranhamente alinhadas, até aos confins do deserto. Era quase meio-dia e o calor abafado tornava a atmosfera ainda mais tensa, como se a tempestade que inquietara os passageiros estivesse prestes a eclodir. Dentro da diligência, Billy Harper tirou um pequeno frasco do bolso e, com uma risada, ofereceu-o aos outros.

— Tanto melhor! exclamou, perante a recusa geral.

A cabeça do jovem Apache descansava nos joelhos de Janet Simpson. Lockman, carrancudo, olhava em frente, pela janela.

— Estamos quase a chegar! gritou Stuart, debruçando-se da boleia.

A diligência rolava agora em pista aberta, ao trote largo e vigoroso dos cavalos, levantando nuvens de pó que se dissipavam lentamente, como farrapos de neblina, no ar imóvel do deserto. Ao longe, surgiam perfis de colinas, que os raios de sol, filtrados pelas nuvens, tingiam na vertical com uma faixa de cores vivas, lembrando a Janet, que não despregava o olhar maravilhado do horizonte, uma espécie de arco-íris ou de wampum (*) índio, como vira, certa vez, numa gravura.

Indiferente às belezas do deserto, Billy Harper começara a dormitar, oscilando no banco como o pêndulo de um relógio. A maior parte da sua vida, desde que saíra do orfanato, fora passada em saloons, bordéis e casas de jogo. Poucos homens eram capazes de vencê-lo ao poker ou de esvaziar uma garrafa de whisky mais depressa do que ele, e as raparigas que encontrava nesses lugares de má nota faziam-no feliz, sobretudo quando eram ainda muito jovens. Mas um dia teria de se reformar e esse dia já não vinha longe…

Os outros passageiros um tipo bem vestido, de jaqueta nova e brilhantes nos dedos, e um negociante de aspecto próspero, com um nariz adunco de judeu tagarelavam outra vez, enfastiados pelo calor, pela lentidão da jornada e pela monotonia da paisagem. Começavam a sentir-se em segurança, protegidos por Travis e pela sua arma, pela distância que se encurtava a cada salto da diligência. Falavam de negócios, de política e de mulheres, baixando a voz para que Janet não os ouvisse.

A rapariga pensava em Travis e no impulso que a levara a tomar partido por ele e pelo seu protegido índio. Sabia que os outros a censuravam, porque odiavam e temiam os Apaches, e sentia a corrente eléctrica, de aversão, que se estabelecera entre Lockman, Travis e ela.

(*) Wampum  faixa bordada, de várias cores, que algumas tribos índias usavam nas suas cerimónias rituais e que para elas tinha grande significado místico e até guerreiro, sendo também considerada um testemunho sagrado na celebração de um acordo.

Vingança Apache

O bando, como lobos saindo em tropel do seu fojo, surgiu, de repente, à direita da diligência, atroando os ares com gritos selvagens. Sem uma exclamação de surpresa, como se já estivesse à espera deles, Johnny Stuart brandiu o chicote repetidas vezes e os cavalos arrastaram o carro num galope desenfreado, saltando todos os obstáculos, saindo da trilha em perigosos zigue-zagues, os cascos martelando o terreno com um ruído infernal, envoltos numa espessa nuvem de poeira. Travis viu o bando atacante dividir-se em dois e reconheceu o guerreiro que os comandava.

— Mangus Colorado! — gritou a plenos pulmões. Em resposta, Johnny Stuart redobrou as chicotadas e os gritos de incitamento aos cavalos, enquanto o passageiro sentado junto dele tentava desesperadamente equilibrar-se e, ao mesmo tempo, segurar o seu grande chapéu, em risco de ser levado pelo vento.

Dentro da mala-posta, o pânico tinha-se instalado entre alguns dos viajantes. Só Lockman e Janet, que continuava a apoiar no regaço a cabeça do jovem Apache, ainda desmaiado, pareciam mais calmos. Billy Harper, de olhos fechados e mãos cruzadas na barriga, era a figura mais estranha do pequeno grupo.

Debruçado sobre o tejadilho da diligência, com as mãos a segurar firmemente a carabina, Travis começou a disparar. Alguns dos cavaleiros que galopavam à rédea solta, recortando-se como sombras grotescas e movediças no horizonte rubro do deserto, estacaram e caíram bruscamente, como se um muro invisível os tivesse detido. O eco trovejante das detonações espalhou-se pela distância, repercutindo na planície coberta de cactos, nas quebradas dos montes vizinhos.

Apesar dos balanços da diligência, Travis disparava com metódica segurança, sem perder uma bala, contando calmamente cada perseguidor que rolava no terreno… mas evitava, por estranho que pareça, atingir mortalmente os seus alvos.

Mangus Colorado era sogro de Cochise, chefe dos Chiricahuas, e Travis já o vira uma vez, há muitos anos, quando o seu bando de rebeldes ainda não pisara a senda da guerra. Tinha um aspecto imponente e uma voz que inspirava confiança. Travis lembrava-se das suas palavras de paz, que agora pareciam falsas, mas não talvez por culpa dele.

Levantando turbilhões de poeira, perseguidos e perseguidores corriam pela pista. As patas dos cavalos moviam-se numa cadência tão veloz que mal pareciam tocar o solo. As rodas chiavam com um ruído ensurdecedor, como se os eixos ameaçassem partir-se, e os violentos solavancos faziam estremecer a velha diligência, que parecia prestes a soltar-se do timão que a prendia aos cavalos. A certa altura, ferido mortalmente ou por ter perdido o equilíbrio, o passageiro tombou do banco e rolou na poeira. Mas Johnny Stuart nem sequer olhou para trás, porque era inútil pensar em prestar-lhe auxílio.

No interior da carruagem, Billy Harper acordara e olhava melancolicamente o frasco vazio, sem parecer ligar importância aos índios e ao barulho dos tiros. Lockman tinha um revólver nas mãos e começara também a servir-se dele, espreitando pela janela. O rosto de Janet estava pálido, mas sem expressão.ma-viagem-perigosa-3

Johnny Stuart disparava também sobre os Apaches, com um velho Colt que só utilizava em situações de emergência, e um guerreiro mais audacioso que se aproximara perigosamente, tentando abater os cavalos da mala-posta, caiu da sela, como uma árvore ceifada pelo raio.

— Este foi por minha conta! — bradou o cocheiro, com uma entonação de triunfo na voz rouca, meio sufocada pela poeira.

Foi então que o jovem Apache, ágil como um felino, pulou do banco onde estava deitado, ao pé de Janet, para uma das janelas. Lockman soltou um brado de surpresa, mas, antes que alguém pudesse agarrá-lo, o índio içou-se à força de pulso para o tejadilho da diligência.

Travis viu-o aparecer ao seu lado, mas não fez um gesto. Então, tirando a faixa de pano que lhe envolvia a cabeça, o rapaz agitou-a no ar, de pé, num arriscado equilíbrio, sobre o tecto oscilante da mala-posta.

Ao ver o bando de atacantes parar a distância, Travis deixou de fazer fogo. Aproveitando a pequena trégua, Johnny Stuart conseguiu distanciar-se, gritando e chicoteando os cavalos cobertos de suor.

        (continua em breve)                 

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