NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS – 1

Far west cabeçalho 2 202SENDAS APACHES (por Roy West) – 1ª parte

Nota prévia:  Este conto, escrito há mais de 40 anos — sob o pseudónimo de Roy West (que utilizei em muitos outros), e publicado por duas vezes no Mundo de Aventuras (em 1975 e 1980), com ilustrações de dois grandes nomes da BD portuguesa, Vítor Péon e Augusto Trigo —, é a minha modesta homenagem a um mestre da literatura western, Ernest Haycox, cujo conto Stage to Lordsburg (publicado n’O Mosquito em 1949, com o título A Mala-Posta”, numa excelente tradução de Raul Correia) serviu de tema a um dos melhores westerns de John Ford, o célebre Stagecoach (“Cavalgada Heróica”), com John Wayne no papel que o transformou numa grande “estrela” de cinema.

Sabendo que nunca poderia atingir a intensidade psicológica de Ernest Haycox — que alguns críticos literários não hesitaram em comparar ao grande escritor francês Guy de Maupassant, por causa das analogias entre o conto Boule de Suif e Stage to Lordsburg —, tentei fazer diferente. Enquanto neste último tudo se passa entre os ocupantes da “mala- -posta”, sem haver um contacto mais próximo com os índios que num certo ponto do trajecto a atacam, no meu conto a figura de um chefe Apache, o famoso Mangus Colorado (ou Mangas Coloradas, como lhe chamavam os mexicanos), ganha uma dimensão real quando ele galopa sozinho atrás da diligência e dirige a palavra a Travis, um dos seus condutores e atirador de infalível pontaria, a quem dei um papel de relevo nesta história.

jerónimo249Por outro lado, para tornar mais consistentes as reacções dos viajantes (entre os quais também há uma mulher), servi-me de alguns breves apontamentos biográficos, que espero não tenham quebrado a continuidade da narrativa. Esta decorre, aliás, noutro período, cerca de 20 anos mais cedo, quando Geronimo (mencionado no conto de Haycox) ainda não era o condottieri dos Apaches. Nesse tempo, a fisionomia dos locais onde Ernest Haycox situou a sua história era algo diferente, assim como a actuação dos Apaches hostis num território onde continuavam a ditar a lei, apesar da chusma invasora de soldados, traficantes, aventureiros e colonos. Na realidade, Lordsburg, uma cidade do Novo México, actualmente com cerca de 5000 habitantes, só foi fundada em 1880, mas eu tinha de aproveitar um dos nomes mais míticos da literatura western. Boa leitura!…

Um conto ilustrado por Vítor Péon e Augusto Trigo

I – Viagem perigosa

No ar ainda frio da madrugada, a diligência corria pelo deserto. Tinha quatro cavalos, atrelados dois a dois, um condutor e um guarda. O condutor chamava-se Johnny Stuart e brandia o chicote como se tivesse pressa de chegar a casa. O guarda, com a espingarda sobre os joelhos, voltava-se de vez em quando na boleia, observando ambos os lados da trilha, ainda imersa em sombras para as bandas do poente, mas ao contrário do seu companheiro estava calmo e impassível.

Dentro da carruagem, Billy Harper enristava os bigodes grisalhos, deitando olhares de soslaio pela janela, abrindo caminho com os seus dichotes de bêbedo à inquietação que lavrava entre os outros passageiros. Na noite anterior, nenhum deles tinha dormido, a não ser durante breves instantes, sempre com o espírito em sobressalto por causa dos índios.

Atravessavam a zona mais perigosa do percurso, onde atrás de cada cacto e de cada colina de areia pairava a presença ameaçadora dos Apaches. Era por isso que Johnny Stuart incitava os cavalos e que Travis, o seu ajudante, de carabina aperrada, sondava a distância percorrida, sob a luz da manhã que inundava o deserto.

Janet Simpson, bonita e atraente como uma actriz de teatro, era a única mulher que viajava na diligência. Mas, agora, o seu rosto estava crispado pela fadiga e pela ansiedade. A viagem, de seis horas desde o último posto de muda, era demasiado dura para uma mulher, mesmo jovem e saudável como ela.

péon-sendas-apaches2501Ao princípio, Janet fora o centro das atenções, mas depressa verificara como as conversas morriam e a inquietação e o medo surgiam no olhar dos seus compa- nheiros, à medida que se internavam em território índio. Era uma estranha viagem, longa e perigosa, quase sempre a coberto das sombras da noite, mas qualquer daqueles homens devia ter, seguramente, razões fortes para fazê-la… razões que ela, por distracção, tentava adivinhar.

Janet era professora. Estava noiva do tenente Cohill, que a esperava em Lordsburg. Queria ficar a viver no Oeste, ter filhos… sem deixar de ensinar. Sabia que nos fortins do Exército havia muitas crianças analfabetas, filhas dos soldados, dos comerciantes e de alguns índios pacíficos que seguiam as guarnições para toda a parte. Por isso, fora com alvoroço que aceitara a proposta de casamento do tenente Cohill, mesmo depois deste ter sido transferido para o Novo México. E tais pensamentos não a abandonavam, amparando-a, suplantando a fadiga, o desânimo e a incerteza dos perigosos caminhos que cruzavam.

À sua frente, ia um homem alto e magro, de bigode negro e olhos frios como aço. Havia algo de viscoso e de antipático na sua figura, “algo que lembrava uma rattlesnake” — pensara Janet, com instintiva repulsa, ao vê-lo subir para a diligência, já a meio da viagem. Ainda não tinham trocado uma palavra, mas o homem fitava-a sem cerimónias, como se a despisse em pensamento, e a cada solavanco mais brusco da mala-posta roçava as suas pernas compridas nas dela, indiferente aos olhares reprovadores dos outros passageiros.

O viajante atrevido chamava-se Will Lockman e era um político falhado que viera do Leste, perseguido pela sua má fama e pelos ataques dos jornalistas. Agora administrava a reserva indígena de San Carlos, embora não nutrisse a menor simpatia ou consideração pelos índios, encarando-os, sobretudo aos Apaches Chiricahuas, como um bando de rebeldes “piolhosos”, hostis a qualquer ideia de progresso e civilização, que tinham de ser tratados sem piedade, mesmo os mais submissos que viviam ainda na reserva.

Apesar da poeira levantada pelo rolar da diligência, Janet afastara a lona que tapava a janela, esforçando-se por observar a paisagem e disfarçar o seu aborrecimento. Flocos de nuvens brancas como algodão flutuavam no céu azul metálico, que os primeiros alvores do dia tingiam de púrpura e sangue. Cactos passavam, numa sucessão rápida, quase fantasmagórica, ao lado da diligência, e a jovem sentia, por vezes, um arrepio ao confundi-los com vultos humanos.

De repente, na boleia, Johnny Stuart praguejou e os cavalos estacaram, poucos metros adiante, com um grande bater de cascos. Travis saltou da diligência e, ante o espanto dos passageiros, dirigiu-se para o leito seco de um arroio que serpenteava entre as rochas. Quando regressou, transportava nos braços, com cuidado, o corpo inerte de um índio. Deitou-o no chão, à sombra da viatura, e sem olhar em torno pegou num cantil, abriu-o e chegou-lho aos lábios.

sendas-apaches-3-1962

Um a um, lutando contra o receio de uma armadilha, os passageiros começaram a descer da diligência. Exceptuando Lockman, os outros nunca tinham visto um Apache. Stuart, com a carabina de Travis em punho, olhava atentamente em volta. O índio era ainda um rapaz, embora robusto para a sua idade. Segurando-lhe a cabeça, Travis ajudou-o a beber. Quando conseguiu abrir completamente os olhos e fixá-los no grupo, o rapaz começou a tremer, os membros contraídos num espasmo de medo animal. Mas, à vista do cantil, agarrou-o e voltou a beber sofregamente.

— Deve ter-se perdido — disse Travis. — Não sei o que foi feito do seu cavalo. Talvez tenha fugido ou morrido de sede…

— Que vamos fazer? Não podemos perder tempo com este selvagem! — retorquiu Lockman, o primeiro do atemorizado grupo a quebrar o silêncio.

Travis encarou-o com firmeza. Ele e Stuart eram, há alguns anos, condutores de diligências. Travis tinha feições duras, curtidas pelo sol do deserto, pela vida livre e errante que levava (ainda mais turbulenta noutros tempos), mas qualquer coisa no brilho dos olhos cinzentos, na atitude resoluta e no timbre franco da voz denunciava o seu carácter honesto, corajoso e leal. Janet Simpson fitou-o, sentindo um impulso de simpatia por aquele homem viril, enquanto ele desafiava calmamente o agente do governo.

— O que vamos fazer, mister Lockman, é levar este rapaz… este “selvagem”!… na nossa companhia. Pouco importa se isso o incomoda, porque a sua autoridade e as suas ideias aqui não contam. Entendido?

Lockman cerrou os punhos, num gesto de raiva, mas não respondeu. Subindo para a boleia, Johnny Stuart disse:

— Resolvam isso depressa. Temos de partir!

Travis olhou em volta, percorrendo os rostos mudos e inquietos dos outros passageiros. Depois, baixou-se e pegou no rapaz, que tinha voltado a perder os sentidos. Uma ruga funda desenhou-se na testa de Johnny Stuart ao pensar que outros membros da tribo talvez já andassem à procura do jovem Apache que se perdera no deserto.

Travis entrou na diligência, depôs o rapaz em posição confortável num dos bancos e, nesse momento, ouviu uma voz dizer-lhe:

— Eu tomo conta dele, mister Travis!

Voltou-se e sorriu para Janet Simpson, cujos olhos azuis brilhavam, com um misto de curiosidade e simpatia.

— Obrigado! — disse simplesmente. Momentos depois, estava de novo no seu posto, ao lado do cocheiro, a carabina sobre os joelhos, os olhos atentos perscrutando a trilha. Um dos passageiros, que usava um grande chapéu à moda do Texas, instalou-se também na boleia, para dar mais espaço a Janet e ao rapaz índio.

Johnny Stuart brandiu o chicote, fustigando as garupas dos cavalos, e a diligência pôs-se de novo em marcha, envolta num manto de calor e de poeira que tornava o ar do deserto, mesmo às primeiras horas do dia, cada vez mais pesado e sufocante.

(continua)

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