A LENDA DE CUSTER – 1

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a-lenda-de-custer-1Há quase 140 anos, nas longínquas planícies de Montana, situadas no coração do Oeste selvagem, travou-se uma das mais célebres batalhas da guerra sem quartel entre as tribos índias daquele território, do Dakota e do Wyoming — ameaçadas pela invasão dos colonos e pesquisadores de ouro e pela chacina dos bisontes —, e o 7º de Cavalaria comandado pelo general George Armstrong Custer, que muitos dos seus pares consideravam um oficial de élite, estratega brilhante e audaz condutor de homens, capaz de contagiar com o seu exemplo um regimento inteiro.

a-lenda-de-custer-2Foi essa audácia excessi- va que conduziu Custer e os seus soldados ao desastre, naquela manhã de 25 de Junho de 1876, quando cinco companhias do 7º de Cavalaria, que se tinham dividido pouco antes em três colunas, planeando atacar cada uma por seu lado a aldeia dos Sioux, Cheyennes e Arapahoes, reunidos numa grande assembleia de milhares de guerreiros, se viram subitamente envolvidas por aquela imensa “maré” antes de terem tempo de escolher as melhores posições de defesa.

Uma dessas colunas, mais afortunada, conseguiu transpor a galope o pequeno riacho conhecido pelo nome de Little Big Horn e refugiar-se num maciço rochoso coberto de vegetação, onde, sob o comando do major Reno, a-lenda-de-custer-3ripostou vigorosamente aos ataques dos índios, sendo mais tarde reforçada pela companhia do capitão Benteen, que conseguira igual- mente romper o assédio. Entretanto, o esquadrão de Custer, completamente cercado, teve de defender-se a desco- berto, no topo de uma colina onde não havia uma única árvore, e prontamente se viu acossado por uma chusma de guerreiros bem armados, às ordens de Sitting Bull, Gall e Crazy Horse, que como vagas de um mar alteroso se abatiam sem cessar sobre os despro- tegidos soldados, fustigando-os com os tiros das suas carabinas e amedron- tando-os com os seus selvagens gritos de guerra (como retrata a página ao lado, magnificamente ilustrada pelo artista italiano Gino d’Antonio, num episódio da série Storia del West).

Não tardou que o campo de batalha estivesse juncado de cadáveres, entre eles o de George Custer, que — segundo reza a lenda, sempre pronta a mitificar o seu nome, o seu destemor e os seus actos em campanha — se bateu corajosamente até ao último momento, mere- cendo por isso a admiração e o respeito dos índios, ao ponto destes pouparem o seu corpo ao ritual da mutilação e do escalpe, o que não aconteceu com os dos outros militares.

a-lenda-de-custer-5Esta célebre batalha, em que pereceram ingloriamente todos os companheiros de Custer, num total de cerca de 212 baixas (incluindo quatro membros da sua família), fortaleceu ainda mais a lenda do 7º Regimento de Cavalaria e, por paradoxal que pareça, a do comandante audaz mas insensato que, numa vã ambição de glória, sacrificou o seu destino e o de todos os seus subordinados — com excepção das companhias de Reno e Benteen, cujos sobreviventes conseguiram resistir milagrosamente aos ataques dos índios, até à chegada de reforços.

Foi essa epopeia que a literatura, o jornalismo, a pintura, a rádio, o cinema, a televisão, e por fim a banda desenhada, perpetuaram durante mais de um século, sem cuidar da verdade dos factos (salvo boas excepções, como o minucioso relato de Evan S. Connell, publicado em Portugal pela Europa-América), mas contribuindo ainda mais para endeusar a figura de Custer, mostrando-o quase sempre como um destemido combatente que nenhum perigo e nenhum inimigo, mesmo numericamente superior, faziam recuar… e que só viu a vitória fugir-lhe uma vez, fulminado por um golpe fatal e imprevisto do destino, nesse trágico dia 25 de Junho de 1876 — que aqui iremos recordar novamente, num preito de homenagem ao velho e mítico Oeste e aos seus lendários heróis que acalentaram as fantasias da nossa juventude.

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