EM HONRA DE VÍTOR PÉON – O MAIOR CRIADOR DE “WESTERNS” DA BD PORTUGUESA

Mosquito 396Se tivéssemos de designar uma data “oficial” para o nascimento do western na BD portuguesa, não hesitaríamos em escolher a de 10 de Abril de 1943, pois foi nesse dia (um sábado) que se estreou uma empolgante aventura de cowboys n’O Mosquito nº 396, a primeira em estilo realista de um desenhador português, que assinava apenas Péon no cabeçalho da história. Identi- dade que, pela ausência de contactos, nessa época, com os leitores, passou quase desper- cebida, embora o dinamismo dos desenhos e a emoção contida em cada cena, num suspense sempre crescente, à maneira das melhores histórias inglesas, tivesse contagiado a rapaziada que lia com verdadeira paixão O Mosquito, pequeno mas atraente jornal juvenil que se publicava duas vezes por semana.

“Falsa Acusação” era o título dessa movimentada aventura do Far West e Vítor Péon Mourão o nome do jovem artista que a desenhava, autor também do argumento, embora o texto, que aparecia em legendas didascálicas, no rodapé das vinhetas, fosse escrito por Raul Correia, um dos directores e fundadores d’O Mosquito e narrador de larga veia, afeito a todos os géneros de aventuras que faziam as delícias dos seus jovens leitores.

Falsa Acusação a 10Antes de Péon se lançar na trilha do western, com a história que assinalou também a sua estreia como autor de BD, este género, em estilo “sério”, era apanágio apenas de alguns desenha- dores estrangeiros e de um excelente artista português, também ainda muito jovem, que dava pelo nome de Eduardo Teixeira Coelho (ou E.T. Coelho), mas se limitava a ilustrar as novelas de aventuras publicadas n’O Mosquito, como foi o caso de “Leis do Oeste”, um conto de Lúcio Cardador que serviu de tema à capa do nº 396.

Genuínas histórias de cowboys aos quadradinhos não eram presença rara nas páginas das revistas portuguesas, com primazia para O Mosquito, desta- cando-se entre todas elas uma notável criação de Reg Perrott, o mais talentoso desenhador inglês dessa época, intitu- lada “A Flecha de Oiro” (no original, The Golden Arrow). Perrot foi sem dúvida o artista que mais influenciou Vítor Péon no início da sua carreira e “Falsa Acusação” é a melhor prova disso, com um estilo que procurava imitar não só o dinamismo de linhas de Perrott como o realismo cinematográfico com que ele retratava os cenários e as personagens.

A tal ponto Péon admirava o trabalho do mestre inglês que, anos mais tarde, realizou para a revista Valente, editada por Roussado Pinto, uma versão de “A Flecha de Oiro” em tudo fiel ao original, ainda que num estilo já sensível a outras influências. Infelizmente essa versão ficaria incompleta, porque o Valente não resistiu por muito tempo à concorrência.

A par do seu inato dinamismo, Péon revelou-se um exímio desenhador de cavalos e de figuras femininas, elementos fundamentais de um western, sem os quais qualquer história de cowboys parece perder todo o interesse. Ao longo da sua carreira, o futuro criador de Tomahawk Tom — o mais icónico aventureiro do Oeste que já existiu na BD portuguesa, digno rival de outros grandes cowboys do seu tempo, como Cisco Kid, Roy Rogers e Hopalong Cassidy — nunca olvidou por muito tempo o género que cultivava com tanto entusiasmo.

Tomawak Tom logotipoE foi mesmo ao western que dedicou uma última homenagem quando, atingido por grave doença e impossibilitado de continuar a desenhar histórias aos quadradinhos, mostrou ainda uma centelha do seu talento pintando telas admiráveis, de cores quentes e pince- ladas impressionistas, cujos temas eram as vastas pradarias, os destemidos cavaleiros e os fogosos mustangs que tinham inflamado a sua imaginação, ao enveredar muito jovem por uma carreira em que somou os maiores êxitos e granjeou uma vasta legião de admiradores, tanto em Portugal como noutros países.

Recordando uma data histórica da BD portuguesa — que certamente muitos fãs do western celebrarão também com apreço, pois simboliza a transição de um estilo infantil e paródico, ainda vigente nas histórias de muitos autores nacionais, em plenos anos 30, para um género inteiramente realista que recria a verdadeira essência das histórias de cowboys —, dedicamos este novo blogue da nossa Loja de Papel à memória de Vítor Péon e à heróica epopeia do Oeste americano que ele, com o seu talento artístico e o vigor do seu estilo e da sua imaginação, ajudou também a enraizar no culto de várias gerações de leitores, elevando-a a um patamar raramente ultrapassado por outros artífices da BD popular.

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4 thoughts on “EM HONRA DE VÍTOR PÉON – O MAIOR CRIADOR DE “WESTERNS” DA BD PORTUGUESA

  1. Caro Jorge,
    Já sabe que o Western é, para mim,um género que muito prezo.
    Desde miúdo que me habituei a ver, nas saudosas noites de cinema da RTP dos anos 70, grandes filmes como Rio Bravo, O Homem do Oeste, Shane, O Homem que Matou Liberty Valance, O Bom o Mau e o Vilão, Por Um Punhado de Dólares, Aconteceu no Oeste ou Todos Morreram Calçados, para só referir alguns dos títulos mais famosos.
    Também me habituei a ler, em especial durante as” férias grandes de Verão”, nas horas de maior calor aqui no Alentejo, pequenas ou grandes novelas de cow-boys, escritas por excelentes novelistas (a maior parte deles espanhóis) como Marcial Lafuente Estefânia, Fred Dennis, Silver Kane, César Torre, Keith Luger ou Donald Curtis (acompanhadas de belas ilustrações dos nossos Jobat, Carlos Alberto Santos, Baptista Mendes ou Vítor Péon, como por certo se recorda). Velhos tempos…
    Na Banda Desenhada, o western é também um dos meus géneros de eleição, como já se percebeu.
    Personagens ou séries como Matt Dillon, Kit Carson, Gringo, Matt Marriott, Red Ryder, Mendonza Colt (e Rabietas), The Lone Ranger, Jeff Arnold, Buck Jones, Rawhide Kid, Two Gun Kid, Comanche ou Buddy Longway, ainda hoje me proporcionam horas de prazer, quando releio as suas aventuras.
    Por isso, é com enorme satisfação que vejo nascer o “Era Uma Vez no Oeste”, um blogue que, naturalmente, vai fazer parte dos meus blogue favoritos.
    Para si e para a Catherine – companheira inseparável e imprescindível na consumação destes projectos “bloguísticos” -, vai o meu apreço pela coragem que tiveram em criar um novo blogue (algo relativamente fácil) que, doravante, terão de manter (algo muito mais difícil) dedicado a este emblemático tema. Mas como “quem corre por gosto não cansa”, tenho a certeza de que se sairão meritóriamente desta tarefa.
    Cá fico à espera dos próximos posts.

    Grande abraço
    Carlos Rico

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  2. Obrigado, amigo Carlos, por estar sempre atento às notícias (no caso presente sobre o nascimento deste blogue, em honra de Vítor Péon, o nosso autor de BD com maior número de “westerns” publicados) e por fazer o primeiro comentário, que vindo de quem vem ainda nos enche mais de vaidade 🙂 e de satisfação.

    Há muito que eu tinha a ideia de criar um blogue dedicado apenas ao “western”, mas como já tenho quatro para manter, com temas diversos, a tarefa foi-me parecendo demasiado pesada… Infelizmente, a falta de espaço n’O Gato Alfarrabista, o meu blogue primogénito, é cada vez maior e foi a necessidade de resolver o problema, ainda que temporariamente, que me forçou a avançar sem mais delongas com este novo projecto… que seguramente se irá manter, como os demais, se Deus me der vida e saúde. Muitos dos temas dos primeiros “posts” são oriundos d’O Gato Alfarrabista, embora com algumas alterações (para melhor) nos textos e nas gravuras.

    Agora já estou mais bem preparado tecnicamente e só preciso da ajuda da Catherine para as digitalizações e tratamento das imagens, libertando-a das outras tarefas, que consigo fazer sozinho… embora, às vezes, com algum esforço (como bem sabe por experiência própria). Mas, pegando nas suas palavras e no velho ditado, quem corre por gosto não cansa! É bem verdade…

    Só gostava de ser um pouco mais novo :-), porque assim teria mais probabilidades de me aguentar nesta “corrida” contra o tempo. Mas, como ia dizendo, por enquanto o “motor”, isto é, o cérebro, ainda funciona menos mal… mesmo que a memória já falhe, por vezes, o que me irrita bastante e procuro combater de todas as formas. Mas esqueço-me sobretudo das pequenas coisas do dia-a-dia, não daqueles factos do passado (incluindo tudo o que li e aprendi) que se gravaram indelevelmente num recanto especial, e inviolável, do meu espírito.

    Não lhe estou a dizer nada que você não saiba e sinta também profundamente, como é fácil deduzir do comentário que escreveu e das recordações que evoca, muitas delas ligadas também aos meus sentimentos mais perenes, àquelas paixões e devoções que alimento desde a infância e que hão-de morrer comigo…. E o “western”, claro (tanto na BD como na literatura e no cinema), é uma delas!

    Não me alongo mais nesta resposta, com a certeza de que seria supérfluo tudo o que pudesse acrescentar em abono de uma causa que ambos fervorosamente abraçamos. Fica aqui a promessa de ir ao encontro das suas preferências dentro do género, pois muitos dos temas que referiu até já estão na minha agenda. E aproveitarei também para divulgar finalmente alguns textos que há muito escrevi e que ainda não viram a luz do dia (passe o termo), pois estavam reservados para a colecção dos Cadernos Moura BD, de saudosa memória.

    Portanto, planos, assuntos e ideias várias não faltam para manter vivo este blogue… sem prejuízo dos outros, como espero. Já agora gostaria, dentro do possível, de contar também com a sua colaboração literária (e artística). Valeu?

    Um grande abraço, com muita amizade
    Jorge Magalhães

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  3. Amigo Jorge,
    Apanhou-me completamente de surpresa pois não estava nada à espera dum convite destes!
    Já sabe que pode sempre contar comigo para aquilo que necessitar, dentro das minhas limitações, não de tempo (que sempre se arranja, quando se trata de fazer aquilo de que se gosta) mas literárias e até mesmo artísticas.
    Quando precisar da minha modesta colaboração, é só dizer e eu tentarei fazer o melhor que me for possível, com todo o gosto 🙂

    Grande abraço
    Carlos Rico

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  4. Amigo Carlos,

    Tenho andado um bocado aflito com falta de tempo e outros problemas, e por isso só agora consegui voltar a este blogue para lhe dar a devida resposta. As tarefas já são tantas que não sei, francamente, se conseguirei dar boa conta do recado. Às vezes, não basta só correr por gosto, é preciso não forçar os nossos limites. A ver vamos…
    Muito obrigado por ter aceite espontaneamente o meu pedido de colaboração, e quero dizer-lhe, como é óbvio, que tem total liberdade para escolher os temas que mais lhe agradarem, quando e como quiser, isto é, quer sejam literários ou artísticos, pois bem sabe como aprecio e valorizo as suas capacidades, tanto numa área como noutra. E a sua afeição pelo western, essa já ficou bem expressa na forma como saudou o aparecimento deste blogue! 🙂
    Numa próxima oportunidade (espero que em breve) tenciono falar pessoalmente consigo para discutirmos mais à vontade este assunto e expor-lhe também algumas ideias.

    Um grande abraço, com sinceros agradecimentos em nome do Era uma vez o Oeste.
    Jorge Magalhães

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